julho 29

O Passeio Que Quebrou Meus Paradigmas: Zoológicos

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Prezados aumigos,

Permitam-me apenas desta vez desviar um pouco do nosso foco habitual – os cães velhinhos – para falar sobre animais em geral. Quero compartilhar com vocês uma experiência pessoal. Dias atrás, levei a minha filha de 2 anos ao zoológico. Eu queria que ela conhecesse pessoalmente os animais que até então só tinha visto nos livros.

Apesar de ser médica veterinária, há muitos anos não pisava num zoológico. Para ser mais específica, a última vez tinha sido em alguma excursão da escola – pelos meus cálculos, uns 20 anos atrás. Eu me lembrava da beleza dos felinos selvagens e da grandeza das girafas. Da busca pelos hipopótamos escondidos na lagoa escura, e de me divertir observando os macaquinhos na sua ilha.

Tigre no zoológico
Imagem: Everson Bressan/ Fotos Públicas (20/07/2016)

Aquilo sempre foi lindo para mim. Cresci acreditando na finalidade conservacionista dos zoológicos.  Nos seus programas de reprodução de espécies em extinção e projetos de educação ambiental… Fui com câmera (tá, celular) em punho, pensando – hoje vamos tirar lindas fotos!

Mas logo a câmera voltou para o bolso, quase que envergonhada. Apenas ao final do passeio, longe de todos os animais, fotografamos o nosso pequeno grupo de humanos para nos lembrar de que estivemos juntos. Se pudesse descrever o passeio em apenas uma palavra, seria deprimente.

Não consegui enxergar a beleza, aquilo tudo me parecia apenas cruel. Não porque algum animal parecesse particularmente maltratado, faminto ou doente, isso não; acredito que, neste ponto, eles estavam bem cuidados. Pelo menos, neste zoológico. Mas quase todos exibiam sinais claros de estresse.

Os espaços que tinham para se movimentarem, que na minha memória pareciam tão amplos, eram absurdamente pequenos. Imagine uma onça vivendo em um apartamento de 20 metros quadrados… é mais ou menos isso. Digo mais ou menos, porque posso ter superestimado o espaço que era disponibilizado a ela. Provavelmente, era menos. Belas aves enormes, que mal podiam abrir suas asas, quem dirá alçar vôo. Tigres caminhando de um lado para o outro e rugindo para a multidão, enquanto, ao longe, um urso parecia procurar um buraco na parede para poder escapar.

Um conceito de bem estar animal muito disseminado na comunidade científica é aquele proposto por BRAMBELL, em 1965 (vejam que isso não é novo). Segundo ele, o bem estar dos animais deve ser avaliado com base em cinco liberdades básicas:

  1. Livre de fome e sede;
  2. Livre de desconforto;
  3. Livre de dor, ferimentos e doenças;
  4. Livre de medo e angústia;
  5. Livre para expressar o seu comportamento natural.

Acredito que, no zoológico onde fui, as três primeiras liberdades estavam atendidas, pelo menos se considerarmos que “livre de desconforto” se refere a desconforto físico. Mas quanto às duas últimas, não tenho tanta certeza… Os animais claramente não queriam aquela multidão olhando para eles. Estariam assustados? no mínimo, aquilo parecia lhes causar muita ansiedade. Em relação ao comportamento natural… bom, isso parecia simplesmente impossível para a maioria deles. Algumas aves, como patos, perus e galinhas, até pareciam bem tranquilas. Mas infelizmente, não posso dizer o mesmo em relação aos mamíferos, e aves que voam.

Fiquei tentando entender porque na minha memória era tudo tão diferente. Talvez porque a minha percepção infantil fosse muito inocente para ver isso tudo. Mas talvez o problema seja muito pior que isso… Sabem aqueles programas de educação ambiental ministrados pelos zoológicos? o que podem eles ensinar se não que é normal tirarmos um animal selvagem do seu habitat e exibi-lo como atração? Não teria sido este o objetivo deles? fazer as pessoas acreditarem que é normal aprisionar animais para o entretenimento humano? Que temos o direito de fazer isso? Porque, se foi… funcionou. Pois demorei 20 anos para conseguir enxergar isso com outros olhos. E, provavelmente, esta mudança nunca chega a acontecer para muita gente…

Durante o nosso passeio, uma prima do meu marido, que tem 8 anos, fez amizade com outra criança. Na despedida, a mãe da outra menina disse “nos vemos na semana que vem… com certeza estaremos aqui!”. Isso aconteceu quando estávamos saindo da área dos felinos – área esta que, quando vi de longe, pensei: “esta deve ser a área das aves; as jaulas são pequenas como as do Passeio Público (de Curitiba)”. Quando aquela mãe disse isso, num tom de alegria – e como quem diz uma coisa óbvia – senti quase uma facada no coração. Como ela poderia querer voltar àquele lugar, e expor a filha dela a isso??

girafas em zoológicos
Imagem: Guia da Semana

Chego a ficar envergonhada por ter demorado tanto para perceber, sendo médica veterinária. Aprendi na faculdade que os animais de zoológico ficam em “recintos”. Isso nos dá a impressão de que eles têm espaços razoáveis para se movimentarem e exibirem os seus comportamentos naturais. Pois cheguei ao zoológico procurando os tais recintos… e só encontrei jaulas. Com animais à beira da neurose dentro delas, muitos deles solitários – mesmo quando eram de espécies sabidamente sociais.

Me pergunto que crime teriam cometido aqueles animais para merecerem vidas inteiras desse jeito? longe dos seus semelhantes e seus habitats, e sem ao menos terem a oportunidade de se comportarem como os animais que são. Pumas que não podem correr, aves que não podem voar. Um urso cavando a parede, cavando a parede, cavando a parede…

Pode ser que existam outros zoológicos, em outros lugares, onde os animais tenham um pouco mais de espaço e liberdade. Mas a ficha que me caiu foi que, certamente, a maioria é exatamente igual a este que eu fui. E muitos são sabidamente piores – há animais morrendo de fome em alguns deles! Qual é a razão disso tudo?

Mas acho que foi bom ter ido lá. Foi educativo. Depois de tantos anos, mudei a minha visão. Percebi que a minha filha aprenderá mais sobre tigres, leões e araras assistindo ao Discovery Channel ou National Geographic quando ela crescer, do que achando que é normal vê-los através de grades. E que, por enquanto, os livros terão que bastar, pois, no que depender de mim, não pisaremos mais em zoológicos.

 


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