Cachorro adestrado precisa de coleira?

Não é raro vermos cães caminhando com os seus tutores sem coleira. Muita gente, ao ver esse tipo de cena, sente até uma “invejinha”: “aaah, como eu queria que o meu cachorro fosse bem treinado assim para eu poder levá-lo para passear sem coleira”, “talvez eu devesse chamar um adestrador para ensinar isso para o meu cachorro também”.

Já os tutores destes exemplares cães caminham sempre orgulhosos da boa educação que deram aos seus filhos de quatro patas. Como eles caminham direitinho! Como eles são obedientes!

Até que… Até.

Até que um dia, o “cãozinho exemplar” resolve se comportar como um cachorro. Porque ele levou um susto. Porque ele se distraiu. Porque havia uma fêmea no cio por perto. Porque outro cão o provocou. Porque outro cão o atacou. Porque ele encontrou no chão um pedaço de carne que estava envenenado. Porque… porquê. E o resultado pode ser fatal.

Atropelamentos, brigas de cães, e, mesmo cães que se perdem dos seus tutores, são fatos que acontecem, e muito. E, com frequência, envolvem animais muito bem educados. O motivo é muito simples: por mais educados que sejam, eles continuam sendo cachorros.

Mas o meu cachorro tem 10 anos, sempre andou sem coleira, e nunca aconteceu nada

Se nunca aconteceu nada, é porque não aconteceu nada até agora. Até porque, se o seu cão já está idoso, ele está mais propenso a se distrair, e os seus sentidos podem falhar. Ele pode não ouvir o seu chamado, e pode não perceber que vocês chegaram a um cruzamento. Basta que isso aconteça uma única vez, não precisa duas.

O seu cão é mais rápido do que você. E as coisas só precisam fugir ao controle uma vez.
Imagem: Pooch Duty

Mas vou contar uma história que aconteceu com uma cliente minha, anos atrás. O cão dela, um lindo Cocker Spaniel Inglês de 8 anos de idade, frequentava a pet shop onde eu trabalhava. Todas as semanas, ele ia lá tomar banho. Ela sempre o levava sem coleira, pois ele era de fato um animal extremamente bem educado, mas eu sempre a lembrava da importância de colocar uma guia nele. Ela achava bobagem.

Até que, um dia, ela parou para conversar com uma amiga que encontrou durante o passeio com o cãozinho. Ela se distraiu, e o cachorro também. O cão simplesmente continuou caminhando, e acabou se perdendo. Ao constatar a perda do bichinho, ela correu para a minha loja, que era perto dali, pedindo ajuda. Me prontifiquei a ajudá-la, e ela saiu para continuar procurando por ele. Momentos depois, uma moça ligou na loja e avisou que havia encontrado um cão – exatamente com a descrição daquele que estávamos procurando. Que sorte! O meu marido foi até lá, identificou o cão (já era nosso “velho conhecido”), e o levou de volta para a tutora.

A tutora ficou muito agradecida, e comprou um colar de identificação para ele. Avisei que seria salutar colocá-lo na coleira, para evitar que algo assim ocorresse novamente, mas ela tinha certeza de que uma placa de identificação bastaria. Menos de um mês depois, recebi a terrível notícia: o cãozinho se distraiu, foi para a rua, e morreu atropelado. A tutora ficou devastada, e nós também. Um animal tão querido, tão amado, tão lindo e educado… morrer desse jeito. Tão desnecessário! E ela ainda teve um “pré-aviso” de que isso poderia acontecer…

Era um cão calmo e educado, com 8 anos de idade. Nada de errado tinha acontecido com ele ao longo de 8 anos passeando sem guia. Até que… aconteceu.

Mas o meu cachorro é um “super cachorro”, ele não se distrai por nada nesse mundo.

Se distrai. Ele é um cachorro, e cachorros se distraem. Até pessoas se distraem. Se humanos não se distraíssem, teríamos muito menos acidentes de trânsito.

Mas, ok, vamos supor que você tenha um “super cachorro” que nunca perde o foco. Nesse caso, vou contar um exemplo de algo que aconteceu comigo mesmo, enquanto eu passeava com a minha cachorrinha. Na época, eu tinha uma Poodle Toy, que também era muito educada (foi a cachorrinha que inspirou este site, ela faleceu aos 15 anos). Mas eu sempre tive a consciência de mantê-la presa a uma guia o tempo todo quando estivesse fora de casa, então, naquele dia fatídico, ela estava usando uma peitoral com guia.

Passeávamos tranquilamente, quando algo (por Deus, até hoje não sei o quê) me fez olhar para trás. E o que vi foi assustador. Apenas alguns metros atrás de mim, havia um Pastor Alemão. Ele estava solto, e não havia ninguém mais por perto – tinha fugido de uma casa. Mas ele não estava simplesmente andando solto. Ele estava em posição de ataque, os olhos fixos na minha cadela. Tive tempo apenas de erguê-la pela guia mesmo, e, em uma fração de segundo, aquele cão estava em cima de nós. Mesmo com ela no meu colo, ele ainda investiu mais duas vezes tentando abocanhá-la, mas consegui evitar o ataque. Finalmente, o (ir)responsável pelo Pastor Alemão apareceu, e disse que ele tinha escapado. Recolheu o cão, e nem ao menos se desculpou pelo descuido.

A “sorte” da minha cadela foi estar usando uma guia. Se estivesse sem, ela não teria chance… Eu não conseguiria me abaixar e erguê-la a tempo de evitar o ataque. E, por ela ser pequena, uma ou duas mordidas poderiam ser suficientes para matá-la. Se ela fosse maior? se ela fosse maior, talvez tivesse chance de sobreviver a um ataque desses, mas a que custo? Ela ficaria muito ferida? teria sequelas? mataria ou machucaria gravemente o outro cão?

Lindo? Impressionante? Não! Irresponsável. Além do risco de algum dos cães fugir ao controle, cachorros grandes andando sem guia assustam pessoas que estejam passando.
Imagem: Leashrly Life

Manter um cão na guia não é uma forma de “subjugá-lo” ou tirar a sua dignidade. É uma forma de mantê-lo vivo.

Portanto, se você não quer colocar guia no seu cachorro porque confia demais nele, então faça isso por causa dos outros humanos e cães. Independentemente do tamanho do seu cão, ou do quanto ele foi bem adestrado, ele precisa usar uma guia. Não conte com o bom senso alheio para manter o seu animal em segurança. Use o seu.

 

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

  • sarah

    Não gostei.
    Pessoas responsáveis sabem o que acontece se soltar seu cão.
    Eu por exemplo todos meus cães eu passeio sem guia, desde sempre é nunca acontsceu pois são inteligentes e educados, se acontecer algo com o da pessoa que sempre usou sem guia não adestrou direito.
    Minha opinião.
    A do pastor que atacou sua cachorro não vem ao caso do cão sem coleira se o cachorro escapou, mas mim assim o dono tinha que se desculpar e tomar mais cuidado se tem um cão que não se controla(independente de raça )

    • Querida aumiga, mesmo os cães mais inteligentes, educados e bem focados podem se distrair. Até mesmo humanos se distraem, isso é algo que simplesmente acontece. Ótimos motoristas batem carros, e ótimos pilotos já derrubaram aviões. É natural que um cão, por mais bem adestrado que seja, eventualmente se distraia, e basta que isso aconteça uma vez na vida – não precisa duas.

      No caso do incidente envolvendo a minha cadela, sim, foi um cão que fugiu. Mas se a minha cadela estivesse sem coleira naquele momento, ela não teria chance, pois eu não teria tempo de salvá-la. Ela foi salva pela guia.
      Este artigo foi escrito justamente porque muitos cães muito bem adestrados e educados já perderam as suas vidas por causa disso. É importante que os tutores tenham ciência disso.