10 Dicas para ajudar o seu cão a lidar com o calor - Meu Cão Velhinho

10 Dicas para ajudar o seu cão a lidar com o calor

No país todo, as notícias são as mesmas: uma onda de calor está surpreendendo os brasileiros, e causando grande desconforto às pessoas. E os nossos cães?

A TERMORREGULAÇÃO

cão ofegante - calor


Bem, os cães têm um sistema de perda de calor bastante ineficiente, de tal modo que temperaturas muito elevadas podem gerar intenso sofrimento, e até mesmo a morte. A termorregulação (controle da temperatura corporal) dos mamíferos pode ser feita através dos seguintes mecanismos: condução (contato com um objeto mais frio), radiação (transferência de calor ao ambiente por ondas eletromagnéticas), convecção (dissipação do calor para o ar e vapor d’água mais frios, que passam ao redor do corpo), e evaporação (sudorese e evaporação da saliva).

Uma das desvantagens dos cães em relação aos humanos é que a sua perda de calor por radiação (transferência de calor ao ambiente) e por convecção (dissipação para o ar e vapor d’água mais frios) são naturalmente prejudicados pelas suas pelagens. Apesar de ser possível a perda de calor através da pele, devemos nos lembrar que os pêlos – muito úteis no inverno – podem dificultar este processo. Ainda assim, para muitas raças – como aquelas que possuem subpêlos (Akitas, Huskies, Chow Chow) -, a tosa deve ser vista com cautela. Os pêlos destes cães são importantes para evitar queimaduras solares, e também  para formar um tipo de isolamento térmico. Além disso, a pelagem deles pode demorar muito tempo para voltar a crescer! Por conta disso, os pêlos deles podem ser, no máximo, aparados – mas não devem ser raspados! Já para raças de pelagem longa e fina – como poodles, lhasas, shi tzu, entre outras -, a tosa pode ser uma boa opção para melhorar a sensação térmica dos peludos. Mesmo assim, deve-se evitar tosar “a zero”, para que a pele deles não fique diretamente exposta aos raios solares e sujeita a queimaduras. Um outro ponto importante é que, se a temperatura ambiente ultrapassar a temperatura corporal, é cessada a perda de calor por radiação e convecção.

A evaporação é a principal forma que os cães têm para perder calor. Eles o fazem através do arquejamento (respiração ofegante, com a língua de fora), o que permite a evaporação da saliva. A rápida passagem do ar pelo trato respiratório superior dos cães durante o arquejamento também permite a troca de calor, e um resfriamento do corpo. Neste ponto, ficam ainda mais prejudicados os cães de focinho curto (boxers, bulldogues, shi tzu, etc), nos quais, pelo formato peculiar do seu trato respiratório, este mecanismo se torna ainda mais ineficiente. Além disso, os cães não suam como os humanos; as suas glândulas sudoríparas ficam concentradas apenas nos seus coxins (as “almofadinhas” das patas), e por isso o suor é pouco importante para a termorregulação deles. Isso explica também porque eles não têm “cecê”, e sim, no máximo, um chulezinho!

Resta apenas a perda de calor por condução, que é o contato com objetos mais frios. É por isso que, em dias quentes os animais preferem se deitar sobre “pisos frios”, como azulejos.

10 CUIDADOS PARA AJUDAR O SEU CÃO A LIDAR COM O CALOR

Com essa explicação toda, deu para perceber como é difícil para os nossos amigos perderem calor, não? e para os velhinhos, a situação é ainda mais complicada, já que muitas vezes os seus sistemas circulatórios já estão deficitários. Se não forem tomadas precauções, o estresse térmico pode se tornar tão grande que pode levá-los à morte! E surge a questão: quais precauções podemos tomar para manter os nossos velhinhos confortáveis e seguros?

  1. Muita água fresca disponível é o primeiro requisito. A evaporação da saliva pelo arquejamento pode facilmente levar à desidratação. Além disso, se a água estiver fria ou gelada, ao entrar no organismo ela ajuda a resfriar o corpo. Por isso, cuide para que nunca falte água para o seu cãozinho! Para ficar frequinha, a água deve ser sempre trocada, e, se estiver muito calor, pode por um gelinho nela!
  2. Ventilação é essencial para aumentar a eficiência do arquejamento. Em dias muito quentes, se for possível ligue ventiladores em um local acessível ao cão, para que ele possa se refrescar. E, claro:NUNCA deixe seu cão sozinho num carro, nem por alguns minutinhos. Os casos de morte de crianças e cães por causa disso não são poucos.
  3. Ar condicionado é algo que nem sempre está disponível. Mas, se tiver como permitir ao seu cão o acesso a um local refrigerado, ele ficará muito agradecido!
  4. Sombra: um local abrigado do Sol é sempre mais fresco. Pode ser uma sombra de árvore, a cobertura da garagem, ou (por que não?) o teto de casa. Se o cão ficar diretamente exposto ao sol, além do calor intenso ao qual estará sujeito, ele também correrá o risco de sofrer queimaduras e insolação.
  5. Um lugar frio para deitar, como um piso azulejado ou a própria grama ajudam o cão a perder calor pelo contato. Uma opção interessante também são os colchões refrescantes, do tipo “Canine Cooler Pet Bed” (link em inglês), diponíveis em vários tamanhos. Estes colchões possuem uma espuma especial, à qual deve ser adicionada água quando for usar pela primeira vez (NÃO é um colchão d’água!). Eles se mantêm sempre frescos, e ajudam o cãozinho a se refrescar em dias quentes. Infelizmente, o colchãozinho é caro (o preço varia de 50 a 200 dólares, conforme o tamanho), e dificilmente é encontrado no Brasil. É possível adquiri-lo através de lojas virtuais, como a Amazon.com, mas lembre-se dos impostos: sobre qualquer item importado que chegue ao Brasil por via postal, é cobrado imposto de importação de 60% sobre o valor da compra! Para quem viaja ao exterior (EUA, Canadá, Inglaterra), ou conhece alguém que vai, pode-se deixar para comprar lá mesmo. Como o valor não ultrapassa a cota permitida de importação com isenção de impostos, você economiza no frete e no imposto de importação! (ATUALIZAÇÃO EM 29/03/2016: Produtos similares a este tapete agora já podem ser encontrados a venda em pet shops físicas e virtuais por todo o Brasil).
    cão sobre tapete refrescante
  6. Picolés” de carne também são uma opção. Pode-se preparar um caldinho de carne, ou mesmo um pedaço de carne, e congelá-lo antes de dar ao cão. Ele vai adorar o quitute!
  7. Banho frio, mas com moderação! Brincadeiras com mangueira, na piscina, ou um banho com água fria podem ajudar a refrescar se estiver muito quente. Mas tome cuidado para não exagerar! A água não deve estar gelada – pois, se estiver, a situação pode até piorar. A água muito gelada tem dois efeitos perigosos: ela causa vasoconstrição periférica (os vasos sanguíneos da pele se fecham), dificultando assim a perda de calor e fazendo com que a temperatura interna se torne ainda mais alta; e o frio gerado por ela induz um mecanismo de compensação – ou seja, ela leva o corpo a “acreditar” que está frio, o que causa aceleração do metabolismo e aumento da produção interna de calor. Por isso, mesmo que o cão esteja entrando em estresse térmico, banho com gelo, nem pensar!
  8. Evite exercitar seu cão nas horas mais quentes do dia. Os passeios devem ser feitos nas primeiras horas da manhã, ou no final da tarde – quando o sol é menos intenso, e as temperaturas são mais amenas. Se mesmo nestes horários estiver quente, certifique-se de que a atividade física será moderada: evite corridas ou passeios muito longos, especialmente se o seu cão não estiver acostumado com isso ou se for braquicefálico (tiver focinho curto), ou, ainda, se tiver algum problema cardiorrespiratório.
  9. Roupinhas, nem pensar! Não custa dizer o óbvio… Os cães já têm dificuldades o suficiente para lidarem com o calor, nós não precisamos dificultar ainda mais. Eles são lindos como vieram ao mundo, então deixe as roupinhas guardadas para o inverno.
  10. A tosa pode ajudar os cães de pelagem longa a se refrescarem. Mas, como já colocamos acima, ela pode não ser indicada para algumas raças e, em todos os casos, deve-se evitar raspar “a zero”.

E SE TUDO FALHAR?

Mesmo com os devidos cuidados (e, as vezes, com alguns descuidos), os cães podem entrar em estresse térmico intenso, gerando uma síndrome chamada intermação (em inglês, “heat stroke“). Este é um problema muito grave, que pode culminar com hipotensão, coagulação intravascular disseminada, insuficiência renal aguda, necrose hepática, e morte. Os cães mais susceptíveis a este tipo de problema são os braquicefálicos (de focinho curto), bem como os cardiopatas, e aqueles que têm problemas respiratórios (como colapso de traquéia ou outros que comprometam a respiração adequada). O uso de certas medicações, como os anti-hipertensivos e diuréticos, pode aumentar ainda mais a predisposição destes animais a terem este tipo de problema.

bulldog com calor - intermação

Os sinais de que algo vai errado incluem: taquipnéia (respiração muito rápida e ofegante), fraqueza, vômitos, diarréia, desmaios e convulsões. Não espere o quadro se agravar, aos primeiros sinais, já tome as providências!

PRIMEIROS SOCORROS

O primeiro cuidado que deve ser tomado ao perceber que o seu cão está entrando em estresse térmico pelo calor é providenciar uma ventilação adequada. Ligue um ventilador em frente ao focinho dele, e, se possível, use um aspersor (pode ser um borrifador de água). Se ele estiver consciente, forneça água fresca para beber. NÃO tente colocar água na boca dele se estiver desmaiado, e também NÃO MERGULHE O CÃO NA ÁGUA GELADA, esteja ele consciente ou não.

É muito importante levar o cão ao veterinário, que tomará as demais providências necessárias. Para transportá-lo à clínica ou hospital veterinário, coloque-o num carro que de preferência tenha ar condicionado. Se não houver, mantenha as janelas abertas de modo a fornecer a maior ventilação possível. Toalhas úmidas podem ser colocadas em contato com as áreas sem pêlos (como a barriga), para aumentar a perda de calor. Evite fazer com que o cão tenha que caminhar por conta própria, ele deve ser mantido em repouso! Note que estes cuidados também são válidos para humanos, em especial crianças e idosos, que são bastante susceptíveis a esta síndrome.

Com a detecção precoce da intermação e o tratamento adequado, os índices de sobrevivência podem chegar a 90%!

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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