Aquela palavra com “E”…

Muitas pessoas nos escrevem angustiadas, sem saber o que fazer diante da grande decisão com a qual se deparam: está na hora de me despedir do meu cão?

Gostaríamos de ter uma resposta simples e objetiva. Gostaríamos muito mesmo. Ninguém quer fazer eutanásia no seu cão. Ninguém quer ter que decidir isso, é simplesmente demais para uma pessoa só…

mulher abracando cachorro

Imagem: Tudo sobre Cachorros

Enquanto há casos que são “preto no branco”, a verdade é que a grande maioria se encontra dentro de uma nuvem cinzenta, dentro da qual é difícil enxergar. Se ele está com dor… seria esta dor insuportável? se ele pudesse falar, diria que está pronto para partir, ou será que ele estaria disposto a conviver com a dor mais um pouquinho? se ele está doente, tem alguma chance de se recuperar? se continuarmos lutando, ele terá mais um dia, um mês ou um ano de vida? já tentamos tudo mesmo? São tantas dúvidas que é fácil se sentir sufocado diante de tamanha responsabilidade. As emoções tomam conta e se dividem… estou sendo egoísta ao mantê-lo vivo e prolongar o seu sofrimento? ou será que estou sendo cruel ao encurtar uma vida que poderia continuar?

No meio desta bola de neve emocional, é muito difícil pensar racionalmente. Por conta disso, alguns especialistas sugerem que os tutores se preparem para esta decisão muito antes de ela precisar ser tomada. Se um cão sofre com dores crônicas, por exemplo, e sabe-se que em algum momento elas podem vir a motivar uma possível eutanásia, já no início da doença (ou até antes), o tutor deve parar para refletir: em que momento poderei considerar que a qualidade de vida do meu cão será inaceitável? você pode definir, antecipadamente, o que considera inaceitável em termos de qualidade de vida para o seu animal. Por exemplo: se ele deixar de se alimentar por conta da dor, se ele não conseguir mais caminhar sozinho, se ele não conseguir mais controlar as suas necessidades… é triste pensar nisso, mas, se a decisão já estiver tomada com antecedência, quando chegar a hora, você a reconhecerá e se sentirá mais seguro.

No parágrafo anterior, falamos sobre condições que são essencialmente dolorosas, e que limitam a qualidade de vida do cão. Mas o que dizer de outras doenças crônicas e incuráveis? um cão com insuficiência cardíaca, a princípio, não sente dor por causa disso. Um cão com insuficiência renal pode se sentir bem quando não está em crise. Mas e se as crises cardíacas/ renais se tornarem muito frequentes? é possível também estabelecer um “turning point” (um ponto a partir do qual a qualidade de vida será considerada inaceitável) com antecedência. A frequência das crises, o conforto respiratório (para o cão cardiopata), o apetite e ausência/ocorrência de vômitos (para o cão nefropatas), são parâmetros que podem ser utilizados. Pode parecer muita frieza pensar assim, mas na verdade é uma forma de garantirmos que os nossos animais terão sempre uma qualidade de vida dentro do que consideramos “aceitável”.

seringa para eutanásia

Imagem: Wikimedia Commons

Existem até mesmo escalas internacionalmente aceitas que servem para o acompanhamento da qualidade de vida de um animal idoso ou com doença crônica que podem ajudar nesta decisão. Estas escalas são feitas através da aplicação periódica de um questionário pelo médico veterinário à família do animal. Conforme o tempo passa, elas permitem uma avaliação mais objetiva a respeito da qualidade de vida do cão, e dão mais segurança ao tutor na eventualidade de ser cogitada a possibilidade de uma eutanásia.

Por outro lado, as vezes os tutores são pegos “de surpresa”. A condição que pode motivar a eutanásia pode ser repentina; ou, ainda, pode ser que o tutor tenha preferido não pensar no assunto com antecedência, simplesmente porque dói demais pensar nisso. A qualquer momento. É melhor acreditar que esta decisão nem precisará ser tomada. Ou, ainda, há tutores que sempre se opuseram à eutanásia até que se depararam com uma situação em que passaram a considerá-la como uma alternativa razoável. Seja qual for o motivo, quando ela chega, esta é uma realidade que derruba qualquer um. E o que fazer então?

Peça a opinião do seu médico veterinário. Com base na sua experiência, ele poderá dizer como tem sido os desfechos de casos semelhantes ao do seu cão. Se houve casos de melhora, como foi, etc. Mas lembre-se, veterinário não é Deus, e não é vidente. Ele não pode te garantir que o seu cão irá melhorar se ele usar esta ou aquela terapia. E, na maioria dos casos, também não tem como ter certeza absoluta de que o seu cão não irá sair da crise em que se encontra. Os animais as vezes nos surpreendem.
Se não tiver certeza, peça a opinião de outros médicos veterinários. Eles podem ter experiências diferentes.
Converse com o(a) seu(sua) parceiro(a) e/ou outras pessoas que vivam junto com você e o seu cão. Cada um pode ter o seu próprio ponto de vista a respeito do que deve ser feito.
Converse com amigos ou familiares que compreendam o que você está passando. Procure pessoas que têm ou gostam de cães, de preferência que já tenham enfrentado situações semelhantes. Não adianta falar com quem acha que cachorro é descartável.

Falou com todo mundo? agora é a sua vez. O que você pensa? se fosse você no lugar do seu cão, como gostaria de ser tratado? A decisão, em última instância, é SUA. O veterinário pode sugerir a eutanásia, mas não pode fazê-la sem a sua autorização. Nenhum “amigo” infame tem o direito de fazer com que você se sinta mal por estar lutando pelo seu cão.

A eutanásia é um recurso extremo e irreversível, e que pode ser a única opção viável para abreviar casos em que o sofrimento do animal também é extremo e irreversível. Por isso, não se precipite e não tome nenhuma decisão com a qual não se sinta confortável. É claro que nenhum tutor que se preze vai “gostar” de pedir eutanásia para o seu cão, mas o que queremos dizer é: tenha certeza da sua decisão. Se não tiver certeza, espere um pouquinho mais, pense um pouquinho mais. E, se concluir que é esta a saída, encare de frente a sua decisão e não olhe para trás. Coloque na sua cabeça (e no seu coração) que está fazendo isso porque quer o melhor para o seu cão. Despeça-se dele da forma que achar mais apropriada – pode ser fazendo mimos, dando um petisco favorito, um cafuné gostoso, e permita que ele se liberte. E liberte-se também, de todas as suas dúvidas.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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