A Vida e os Dilemas do Cuidador

Hoje é dia da nossa coluna de bem estar animal… Mas, dessa vez, vamos falar de um bicho diferente: o humano!

Existe uma síndrome que é comum entre profissionais da saúde e outras pessoas que estão envolvidas na missão de “cuidar” (bombeiros, policiais, assistentes sociais, professores, etc.): esta síndrome, conhecida em inglês como “ burnout ”, significa, literalmente, “queimar de dentro para fora”, ou perder a energia.

 

cansado triste

 

O que é o “ burnout ”, e por que ele acontece?

A síndrome do burnout vem sendo descrita como um mal estar psicológico e indisposição, decorrente de uma situação de estresse crônico e permanente. Ela costuma ocorrer quando a pessoa acaba desiludida, uma vez que as suas expectativas e anseios não correspondem à realidade, deixando lugar a um sentimento de fracasso, impotência e desespero. É típico de pessoas que exercem funções que exigem dedicação e envolvimento no cuidar de outros, e acaba culminando em sofrimento, pela contradição entre a expectativa e a realidade.

Já deu para entender o que isso tem a ver com o bem estar dos nossos velhinhos? Você, tutor dedicado aos cuidados com o seu animal idoso, deve compreender que não está sozinho em seus sentimentos. São dias, meses, ou até anos de cuidados intensivos com dois objetivos simples: melhorar e prolongar a vida do seu velhinho. Mas na vida nem sempre a gente ganha, e as sensações de frustração e impotência podem tomar conta quando, apesar de todos os seus esforços e cuidados, você percebe que ele piorou/ entrou em crise/ está sofrendo/ não viverá muito mais tempo.

E tudo seria tão mais fácil se isso acabasse logo. Mas não, ninguém quer isso. Nós cuidamos porque amamos, e não queremos que acabe. O fim de todos esses cuidados, no caso dos nossos velhinhos, só pode significar uma coisa: que eles não estarão mais ao nosso lado. E quem já perdeu um bichinho depois de longos períodos de cuidados intensivos, sabe: é sofrido sim, mas a gente faria tudo de novo, quantas vezes precisasse, se isso os trouxesse de volta e devolvesse sua vitalidade.

São sentimentos conflitantes, que misturam o amor e a dedicação a um ser amado, com a angústia de não se obter o resultado desejado, e a culpa por querer – por que não? um pouco de sossego. O cuidador sente que não consegue mais cuidar de si mesmo, deixa de ser sua própria prioridade; sua energia e recursos emocionais se esgotam diante do convívio diário com “problemas sem solução”.

 

abraco

 

No caso de profissionais que passam por este tipo de estresse, especialmente aqueles que eram inicialmente os mais idealistas e entusiastas, é comum que a pessoa passe por um “endurecimento emocional”, se distanciando dos seus assistidos, tornando-se frios, e desistindo de se envolver tanto com eles. Em alguns casos, chegam a sentir até mesmo rancor contra aqueles que deveriam ajudar. A atitude, que antes era de entusiasmo e paixão, se transforma em depressão.

De acordo com especialistas consultados pelo Meu Cão Velhinho, o “ burnout ” seria o ápice do estresse: incapaz de lidar com tanta pressão psicológica, o próprio corpo da pessoa adoece, e são comuns manifestações físicas como resultado. O organismo pede socorro, impõe um “basta” às agressões psicológicas que vem sofrendo.

O termo “ burnout ” na realidade é mais aplicável a situações profissionais do que pessoais. É fato que os tutores não são exatamente profissionais da saúde, e talvez não se enquadrem em todas as características do burnout (falando genericamente, é claro…); porém, são cuidadores sim, e estão expostos a grande pressão e estresse decorrentes desta atividade. Nem todos os cuidadores de cães velhinhos chegarão ao “ burnout ”, que seria uma situação mais extrema, mas mesmo assim todos devem se cuidar e compreender que é normal se sentir exausto, frustrado, e até mesmo ter sentimentos conflitantes.

Diante de tudo isso, o que deve fazer o tutor que se sente sobrecarregado por tantos cuidados requeridos pelo seu amado velhinho? O primeiro passo é entender que você precisa de ajuda. Pode ser a ajuda de uma pessoa da família, um amigo, ou mesmo um profissional, com duas finalidades básicas:

  1. Dividir as responsabilidades: você não deve fazer tudo sozinho. Na medida do possível, compartilhe as atribuições com pelo menos mais uma pessoa. Faça uma lista das tarefas diárias – alimentar, limpar, medicar, etc. – e veja quais podem ser delegadas. Quando a outra pessoa assumir, permita-se fazer algo que lhe agrade: seja tomar um longo banho, assistir um filme, frequentar uma academia, passear, ou até mesmo dormir um pouco. Para cuidar dos outros, você precisa também cuidar de si! Se viver só com o seu animal de estimação, e ele realmente não puder ficar sozinho, estude a possibilidade de contratar uma pessoa que possa ficar com ele por pelo menos uma ou duas horas diárias, permitindo assim que você reserve este tempo para cuidar de si. Esta pessoa não precisa nem ter qualquer tipo de capacitação: conforme o caso, basta que ela possa fazer companhia ao animal e te avisar se algo errado acontecer.
  2. Apoio emocional: é importante ter alguém ao seu lado para dar apoio emocional. Quando falamos de sentimentos por animais, sabemos que as vezes os tutores podem se sentir incompreendidos por outras pessoas que não os valorizam da mesma forma. Com isso, além de todo o estresse de lidar com os cuidados e o medo da perda do seu cão, alguns tutores chegam a se sentir constrangidos ou envergonhados de falar com outras pessoas sobre seus sentimentos. Temem – as vezes, com razão – serem ridicularizados por colegas de trabalho e até mesmo por familiares. Mas o mundo está cheio de amantes dos animais, e é possível – e necessário – conversar com alguém que compreenda a sua situação, que talvez até já tenha passado pelo mesmo problema. Você pode até acabar descobrindo novas amizades! O apoio emocional pode vir do seu companheiro, de amigos, pessoas da família, colegas de trabalho, psicólogos, e grupos de apoio “reais” ou “virtuais”. Na fan page do Meu Cão Velhinho no Facebook, por exemplo, temos milhares de tutores que já passaram ou estão passando por este tipo de situação: trocar experiências e receber o apoio de amigos virtuais também podem ajudar bastante – você não está sozinho!

Se sentir que a situação está muito difícil para você, não hesite em buscar auxílio profissional: um bom psicólogo poderá ajudá-lo a encontrar o caminho do equilíbrio e da paz de que tanto necessita.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.