Convivendo com Cães Cegos - Meu Cão Velhinho

Convivendo com Cães Cegos

Perder a visão pode ser traumático. Mas, pior do que isso, muito limitante. Quando temos um cão que se torna cego, tanto o cão quanto o próprio tutor precisam se adaptar a esta nova situação. Como fazer isso?

O “Ficar Cego”

Nascer cego é diferente de ficar cego. Um cão que já nasce cego pode ter algumas dificuldades, sem dúvida, mas ele não conhece nada diferente disso. Então, ele não precisa se ajustar – ele irá, desde o início da vida, aprender a viver como um cão cego. Já um cão que se torna cego, após ter passado anos usando a visão como o sentido primário, pode sofrer mais.

Cão cego

Cão cego.
Imagem: Woofpedia

Os cães são conhecidos pela sua filosofia “carpe diem” (viver no momento, sem remoer o passado ou se preocupar com o futuro). Por isso, a maior parte dos cães se adapta com relativa facilidade à cegueira, sem que haja um grande impacto emocional. Quando o animal se torna cego de forma mais lenta e gradual, como ocorre na maioria dos casos de catarata, há mais tempo para a adaptação, e tudo se torna mais fácil . Por outro lado, alguns animais podem sim ficar abalados. A catarata dos diabéticos, a perda acidental dos olhos, derrames e outros problemas mais agudos podem surgir muito rapidamente, e pegar o cão de surpresa. Sem entender o que aconteceu e sem saber como reagir, ele pode ficar desorientado e deprimido.

Os Desafios da Cegueira

Os cães usam a visão para se situarem e para se comunicarem. Com os olhos, eles observam atentamente a linguagem corporal de seus companheiros caninos e humanos. É por isso que às vezes cães cegos parecem sofrer “bullying” por parte de outros cachorros: por ignorarem sinais de alerta, eles inadvertidamente podem provocar ataques. Um cão que esteja emocionalmente fragilizado por conta da sua nova condição também pode se tornar alvo dos outros cães: eles podem querer destitui-lo da função de líder da matilha (se for o caso), ou até mesmo expulsá-lo da matilha devido à sua instabilidade.

A falta da visão pode despertar o mais primitivo dos instintos no cão: a reação de luta ou fuga. Ao se sentir ameaçado, qualquer animal (humanos inclusive) tem duas reações possíveis: lutar ou fugir. Um animal que não saiba onde está, e não consiga identificar quem está perto, ou pior, quem – ou o quê – o tocou, naturalmente irá se assustar com mais facilidade. Uma aproximação inesperada pode fazer com que o cão se sobressalte e tente se esquivar, ou reaja de forma agressiva.

Dentro ou fora de casa, surgem novos desafios. Um cão cego precisa aprender a se orientar sem se bater, tropeçar, ou cair. Precisa encontrar a sua cama, comida, água, e “banheiro”, sem ver onde está. Apesar de que já é possível operar e corrigir a catarata em cães, a verdade é que, na maioria dos casos, não temos como devolver a visão a eles. Mas podemos ajudá-los em outros aspectos.

Cuidados Com a Segurança

A primeira preocupação que um tutor de cão cego deve ter é em relação à segurança. Segurança esta, diga-se de passagem, tanto do cão quanto do tutor.

Em relação ao tutor, precisamos ter em mente a reação de luta ou fuga do cão, que pode resultar num ataque. Apesar do famoso faro apurado dos cães, eles costumam depender muito mais da sua visão do que do olfato para identificarem pessoas/animais se aproximando. Uma aproximação muito silenciosa pode, portanto, gerar uma reação agressiva. Habitue-se a avisar o cão quando você estiver se aproximando, e também de que ele será tocado. Se houver crianças na casa, não deixe de educá-las neste sentido também. Crianças pequenas e bebês não devem ser deixados sozinhos com o cão, em hipótese alguma. Se a criança quiser tocar no bichinho, o contato deve ser anunciado antes pelo adulto, e devidamente supervisionado. Toda interação deve ser positiva: Puxões (de pêlos, orelhas, etc.) apenas deixarão o cão mais aflito diante de contatos físicos, e podem fazer com que ele acabe mordendo a criança.

Coragem, o cão covarde, assuistado

Imagem: Wikia

Um outro cuidado de segurança em relação ao tutor deve ser na hora da alimentação. Evite oferecer alimentos na sua mão, sejam petiscos ou a comida normal do cão. Se o animal estiver muito afoito, ele pode acidentalmente morder a mão do tutor junto com o alimento, causando um estresse desnecessário. Se for o caso, prefira erguer o pote até o focinho do cão, ou use sons (bater com o pote ou a mão no chão) para mostrar onde está.

Já a segurança do cão deve ser principalmente no sentido de evitar que ele acidentalmente entre em locais perigosos. Apesar de ser recomendável para qualquer cão, um muro ou cerca ao redor da casa são indispensáveis se o animal for cego. Isso evitará que ele saia de casa e se perca, ou seja atropelado. Dentro de casa, use portões de segurança nas entradas/saídas de escadas para evitar quedas.

Mapeamento da Casa e Uso de Odores

Os cães cegos aprendem a “mapear” mentalmente a casa com certa facilidade, mas podemos ajudá-los. Todo cão cego precisa de pontos de referência a partir dos quais ele consiga se orientar. O cantinho dele, onde fica a caminha, é um destes pontos. Os comedouros/bebedouros, e o “banheiro” do cão também podem ser. Os pontos de referência são locais onde o animal se sente seguro e protegido. Ele irá procurar por eles quando estiver assustado ou desorientado.

Idealmente, evite mudar os móveis de lugar. Uma vez que o cão tenha formado um “mapa mental” da casa, ele não irá mais se perder ou se bater… se as coisas continuarem sempre da mesma maneira.

Facilite a orientação do cão usando tapetes do tipo “passadeira”, de preferência com diferentes texturas para cada parte da casa. A textura ajudará o cão a saber em que local está e para onde seguir. Os tapetes também fornecem uma superfície menos escorregadia, o que é ótimo para cães pesados e/ou com artrose.

Trilhas de odores, feitas com o uso de essências, também são muito úteis para ajudar o cão a se orientar. Se cada pedaço da casa tiver um odor característico, será fácil para ele saber onde está.  O interessante é que, na ausência do tutor, estes cheiros familiares ajudam a reconfortar o cão e a diminuir a ansiedade de separação. Se os tutores viajarem e precisarem deixar o cão hospedado em algum lugar, o uso dos mesmos odores nos ambientes onde o cão ficará também é indicado. A dica do odor também serve para os tutores. Se o(s) tutor(es) usar(em) sempre um perfume característico, o cão conseguirá identificar com mais facilidade quando alguém se aproxima, e quem é.

Fora de Casa

O cão cego se sente mais à vontade em ambientes familiares. Repetir sempre o mesmo trajeto faz com que ele caminhe com maior segurança e aproveite melhor o passeio. Outra vantagem é que, conforme o tempo for passando, diminuem também as chances de que ele tropece, ou se bata em algum lugar.

O uso de guias é imprescindível para qualquer cão, sem dúvida. Mas, para cães cegos, este item se torna ainda mais essencial. Através da guia, é possível manter o controle sobre o cão e evitar que ele se desvie do trajeto, caia em algum buraco, ou seja atropelado. O próprio cão se sente mais seguro, sabendo que o seu tutor cuidará para que ele não se acidente. A melhor forma de se guiar um cão cego é através de arreios, como os usados por cães-guia. Este tipo de equipamento permite a melhor comunicação tutor-cão, e ajuda o tutor a fazer com que o animal desvie de obstáculos. Como os arreios podem ser difíceis de achar, pode-se recorrer também às peitorais, usando-se uma guia curta. Tal como o arreio, a guia curta facilitará o controle sobre o cão caso seja necessário fazer com que ele desvie de algum obstáculo.

Cão guia usando arreio

Cão guia usando arreio.
Imagem: Smerikal em Flickr

Uma vez cego, o cão passa a depender do olfato e da audição para perceber o mundo à sua volta. Por esta razão, ele pode demonstrar maior interesse em cheirar plantas, objetos, e até mesmo o chão, durante os passeios. Este comportamento é benéfico para cão, mas é preciso estar atento para que, nestas “cheiradas”, ele não acabe encontrando – e ingerindo – algo que não deva.

Comunicação e Treinamento de Cães Cegos

Já mencionamos que grande parte da comunicação do cão é visual. Eles interpretam os humanos com base na sua linguagem corporal, muito mais do que pela voz. Apesar disso, nós normalmente usamos comandos verbais quando treinamos os nossos cães. O lado positivo do nosso pequeno “deslize” é que, se o cão já estiver devidamente treinado quando perder a visão, não haverá prejuízos ao seu adestramento.

Por outro lado, caso um tutor deseje treinar o seu cão que já esteja cego, a tarefa pode ser um pouco mais desafiadora. Cachorro não fala, e, não importa quantas vezes você repita a mesma palavra, ele não irá compreendê-la se você não mostrar o que ela significa. Como o cão não terá como observar a sua linguagem corporal, ele pode demorar um pouco mais para aprender os comandos. Ele também pode ter dificuldade para saber se acertou ou não, se você não verbalizar a sua satisfação.

Técnicas de treinamento positivo, com o uso de “ímãs de focinho” (petiscos usados para guiar o movimento do cão) e de clickers costumam funcionar bem. Ainda que muitos tutores considerem desnecessário adestrar os seus cães, com comandos do tipo senta/ deita/ etc., alguns comandos podem ser muito úteis. Um comando interessante, por exemplo, pode ser “cuidado”. Ao ouvir o comando, o cão deve parar imediatamente, e prestar atenção aos seus arredores. A intenção é alertar o animal, caso ele esteja prestes a se bater em algum lugar, cair em algum buraco ou precisar descer escadas, por exemplo. Com um pouco de treino, você também pode ensiná-lo a subir – e, principalmente, descer – escadas com segurança.  Descer escadas pode ser bem desafiador para um cachorro cego, e o ideal é que ele não tenha acesso a elas sem supervisão; mas, principalmente se ele for grande, pode ser interessante que ele consiga fazer isso conta própria quando precisar.

Outros comandos úteis para cachorros cegos incluem: “devagar”, “direita”, “esquerda”, “suba”, “desça”, e “pare”. O objetivo é ajudar o cão a se orientar onde estiver, e evitar acidentes. Você pode procurar um adestrador para ajudá-lo a ensinar estes comandos, caso tenha dificuldade. Para quem fala inglês, há um site muito interessante dedicado exclusivamente ao treinamento de cães cegos: www.blinddogtraining.com/ .

Contatos Com Humanos e Cães

Se você tem uma “matilha” em casa, é possível que o seu cão cego esteja sofrendo alguma dificuldade para se relacionar com os companheiros caninos. Isso acontece porque, como já dissemos, ele fica um pouco “sem noção” por não perceber os alertas dos outros, e também porque ele pode estar instável emocionalmente.

Imagem: Mirror

Imagem: Mirror

A “falta de noção”, infelizmente, não temos como corrigir. Alguns cães toleram melhor companheiros assim, e outros nem tanto. Mas a instabilidade emocional pode ser trabalhada. Se o seu cão estiver parecendo depressivo por conta da perda da visão, olhe primeiro para si próprio: como VOCÊ encarou o problema? você está sentindo pena dele? você chora ou fica triste ao ver o seu companheiro cego? se a resposta foi “sim” a qualquer uma das perguntas, pode ser que o problema não esteja nele. Os cães são bem sensíveis às nossas energias, e podem ficar tristes ou depressivos se os seus tutores também estiverem assim. Desta forma, ainda que você esteja tendo dificuldade para processar a nova condição do seu cão, evite demonstrar isso a ele. Não se dirija a ele com “pena”, ou chore na presença dele. Tente agir o mais naturalmente possível, como se nada tivesse mudado. Só isso pode já ser suficiente para ajudá-lo.

Mas se você sentir que está lidando bem com o seu problema, e o seu cachorro não, o que fazer? novamente… não pense que abraçá-lo e dizer “coitadinho de você” vai trazer qualquer benefício. Pelo contrário: vai deixá-lo ainda mais inseguro! Converse com ele sempre de forma alegre e positiva: ele pode não entender as suas palavras, mas reconhecerá o seu tom de voz. Brinque com ele, e ajude-o a superar os desafios que surgiram usando as dicas que já demos anteriormente: avisando antes de se aproximar ou tocar, criando “trilhas de odores”, ensinando comandos que o ajudem a se orientar, etc. Quando o cão perceber que consegue navegar pelo ambiente onde vive com facilidade, e que o seu tutor continua cuidando dele da mesma forma, ele se sentirá mais seguro e tranquilo.

Em relação a outras pessoas, avise. Muitas pessoas que amam cães na verdade sabem muito pouco sobre eles, e não são cuidadosas ao se aproximarem de animais desconhecidos. Ao receber visitas, ou encontrar com pessoas na rua que queiram interagir com o seu cão, ainda que ele seja dócil, alerte-as sobre a sua condição. Avise também o cão que quem quer tocá-lo é “amigo” (mais um comando legal), e peça para a pessoa sempre avisar o animal antes de mexer com ele.

Acessórios

Por fim, não poderíamos deixar de mencionar alguns acessórios que podem ajudar o seu cão cego a interagir com o mundo. Eles não são essenciais, mas podem ser úteis.

Uma invenção muito legal, mas que ainda não está à venda no Brasil, são os “Muffin’s Halo“. Os “Muffin’s Halo” são quase equivalentes às bengalas que pessoas cegas usam, e servem para evitar que o cachorro se bata em móveis ou na parede. Eles são armações de metal que ficam presas ao cão através de uma peitoral, e se estendem a alguns centímetros adiante do focinho, acima da cabeça. O nome do produto, que significa “Auréola do Muffin” se refere ao cãozinho da tutora que o criou. Muffin era um cão cego, que se batia muito em objetos. Então, ela desenvolveu este aro que fica sobre a cabeça animal, semelhante a uma auréola de anjo. Para deixá-la ainda mais fofa, a peitoral vem com asinhas de anjo que dão sustentação à auréola. Quem quiser comprar pode fazê-lo através do site dela. Os “Muffin’s Halo” são enviados para o mundo todo, mas, ao comprar, lembre-se da conversão do dólar e do imposto de importação (60% sobre o valor total pago, incluindo o frete, a ser pago aos Correios na retirada do objeto).

Cão usando a Muffin's Halo. Imagem: MuffinsHalo

Cão usando a Muffin’s Halo.
Imagem: MuffinsHalo

Outro produto que também não encontramos no Brasil são as bandanas, coleiras e peitorais de cães cegos. Estes produtos são mais fáceis de improvisar, já que eles não têm nada de muito especial. Eles, basicamente, contêm um aviso de que o cão é cego, e servem de alerta para pessoas que desejem interagir com ele. Se quiser um para o seu cão, já que é difícil encontrarmos para vender, você mesmo pode pintar o aviso com tinta para tecidos em uma bandana, ou então mandar bordar a bandana/ coleira/ peitoral que ele usa.

Peitoral para cães cegos, vendida nos EUA.

Peitoral para cães cegos, vendida nos EUA.
Imagem: Amazon.com

E por último mas não menos importante, finalmente um produto que nós conseguimos sim encontrar no Brasil: os marcadores olfativos. São adesivos com odores que servem para alertar o cão sobre obstáculos, ou para criar “trilhas” para orientá-lo dentro de casa. Você pode comprar essências para fazer isso se preferir, mas a vantagem dos adesivos é que o cheiro será perceptível apenas para o seu aumiguinho!

Marcador olfativo para cães cegos .

Marcador olfativo para cães cegos.
Imagem: BitCão

Com estas dicas, é possível tornar a sua vida, e a do seu cãozinho cego, muito mais fácil!

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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