Eu adotei um velhinho

Nessa semana, o Meu Cão Velhinho conversou com uma das nossas leitoras que passou pela incrível experiência de adotar um cãozinho idoso.

Tathyana Simões tem 37 anos, é assistente administrativa, mora em São Paulo, e atualmente desfruta da companhia do Mel (um Lhasa Apso de 10 anos, que foi comprado aos dois meses de idade) e da Nina (uma poodle de 7 anos que foi resgatada da rua). Ela recentemente perdeu o seu companheiro Guga, um Yorkshire Terrier que foi adotado aos 10 anos de idade, e que, apesar da sua curta convivência, se provou um amigo mais que especial!

Meu Cão Velhinho – Como conheceu o Guga?
Tathyana – Eu conheci o Guga através de uma amiga da minha mãe, que conhecia a dona dele. Essa amiga da minha mãe estava preocupada com o estado de saúde dele.

Meu Cão Velhinho – Por que decidiu adotá-lo?

Tathyana – Um dia apareceu aqui em casa uma Yorkshire e gostei muito, mas a dona a encontrou; estava passando por uma fase ruim porque também tinha sido abandonada, e depois dessa cachorrinha quase comprei um filhote. Um dia minha mãe ligou e perguntou se eu queria um cachorrinho – na hora disse que sim.

Tathiana e Guga - adotar

Minha mãe trouxe o telefone e liguei pra dona dele, ela contou que tinha se casado e tinha um bebê, e o Guga ficava na casa da mãe dela, que odiava cachorro; que ele não comia mais, e ficava trancado em uma lavanderia de apartamento pequeno. Na hora que ouvi eu disse “quero ele mesmo que tiver 3 pernas rs não quero pedigree, só quero ele, eu quis ele sem ver só de saber da história dele.

Meu Cão Velhinho – Na ocasião, você já sabia que ele era um animal idoso? Como/quando soube a idade dele?

Tathyana – Quando ela me falou que ele tinha 10 anos não liguei, mesmo a minha mãe brigando comigo e me chamando de louca por adotar um cachorrinho velho. Ele já não latia mais, tinha latido tanto que deu problema na traqueia e parou de latir.

Meu Cão Velhinho – Ele já tinha algum problema de saúde (que você soubesse) quando decidiu adotá-lo?

Tathyana – A traqueia – a respiração dele era muito barulhenta, no bracinho dele havia uma ferida, as unhas grandes fazia com que ele andasse torto, alergia da pele por stress. Ele era muito triste e assustado.

Meu Cão Velhinho – Na época, você tinha outros animais de companhia? Se sim, como foi a adaptação com os novos companheiros?

Tathyana – Já tinha 2 cachorros: a Nina e o Mel. Em uma semana ele foi aceito, esse era meu medo, depois ficaram amigos.

p Tathyana - trio
Meu Cão Velhinho – Os cães idosos normalmente implicam diversas despesas e dão bastante trabalho. Por que não preferiu adotar ou comprar um filhote?

Tathyana – Deus mandou ele pra mim, eu precisava dele e ele de mim, todos falavam que o que eu tinha gasto tinha comprado um filhote, mas o melhor foi ter ele na minha vida.

Meu Cão Velhinho – No tempo em que esteve com o Guga, ele apresentou problemas de saúde? Quais?

Tathyana – No segundo dia levei ele para cortar as unhas e ao veterinário. No total foram 4 veterinários até que ele ficasse bem. Na primeira achei que ele ia morrer, tava bem triste mas já estava comendo. Como não tinha dentinhos, só quatro, tinha que comer comida, não conseguia comer ração de jeito nenhum. Tomou vitaminas e remédios por um mês. Lembro de quando pequei ele no colo pela primeira vez e disse a ele: “aqui não vai te faltar nada, e nunca faltou – teve carinho, caminha quente antes de resolver dormir comigo rs, e adorava brincar! Parecia um filhote correndo….até esqueci a idade dele.

Na última semana andava mais sonolento, achei que era pelo frio, mas ainda brincava comia…tudo normal….só que ele tossia e engasgava, achei que ele estava resfriado (saiba mais sobre a Tosse dos Velhinhos aqui).

Meu Cão Velhinho – Como era o seu dia a dia com ele? Ele gostava de brincar, passear…?

Tathyana – Ele acordava e corria tomar sol, adorava, depois brincava com os outros cachorros. Adorava meu pai, que é aposentado e fazia todas as vontades dele também rs, ele era malandrinho, almoçava, dormia e brincava com todos os brinquedos e um grande cesto de bolinhas coloridas… Adorava tomar banho, eu dava banho nele toda semana com shampoo Jonhson hora do soninho rs, adorava andar de carro, me esperava da faculdade, e dia de churrasco era uma festa com as pessoas que vinham…ele era feliz….
Meu Cão Velhinho – O Guga faleceu apenas 1 ano e 10 meses após a sua adoção. O que aconteceu com ele?

Tathyana – Ele dormia comigo, e nesse dia acordei e ele estava olhando pra mim, e duas lagrimas caíram de seus olhos. Eu disse pro meu pai “vamos levar o Guga no Vet ele não esta bem, na madrugada parecia que estava com falta de ar. Liguei pra vet e fui me trocar. Meu pai estava com ele no colo, ele engasgou e meu pai o colocou no chão. Ele caiu de lado e quando meu pai me deu, ele urinou muito, e seus olhos ficaram parados. O coração ainda batia, e eu estava muito assustada. A vet deu duas injeções mas ele não voltou, e uma parte de mim morreu naquela hora….me senti culpada porque a vet disse que cachorro não tosse e que ele estava com água no pulmão, eu leiga não sabia (saiba mais)….trouxe ele pra casa e enterrei no meu quintal, com sua blusinha e cobertor preferido, eu usava um pingente de patinha, e falava pra ele que era o pezinho dele, coloquei a corrente no pescocinho dele, era nosso simbolo.

Meu Cão Velhinho – Se soubesse que ele iria viver tão pouco, teria adotado mesmo assim?

Tathyana – Sim, faria tudo de novo, eu falava pra ele “Gu, os anjos mandaram você pra mim pra mamãe cuidar de você, você é a luz da vida da mamãe. Só queria ter conhecido ele antes disso.

Guga - Tahyana adopt
Meu Cão Velhinho – Na sua opinião, quais foram os melhores aspectos de ser “mamãe” de um cão velhinho? Conte-nos um pouco sobre a sua experiência.

Tathyana – Ele tinha medo de pessoas e aos poucos foi ficando amoroso e depois fazíamos o que queríamos com ele abraçava beijava…tudo que ele tinha medo…depois ele queria ficar onde eu estava vivi pra ele, não deixava ele sozinho….

Meu Cão Velhinho – Ser “mamãe” de um cão velhinho também tem seus desafios. Quais foram suas maiores dificuldades com o Guga?

Tathyana – Dar remédio pra ele era um desafio, tinha que ficar enganando, e ele ficava bravo comigo. Os meus tomam de boa, ponho direto na boquinha deles, já estão acostumados. O Gu, não… tinha que dissolver e dar na seringa, ou colocar no sorvete, como ensinou a vet.

Meu Cão Velhinho – Como tem sido lidar com a perda deste grande companheiro?
Tathyana – Sinto uma dor grande no meu coração, uma parte de mim foi embora, todos aqui também o amavam, eu queria que ele tivesse aparecido antes, e não ter sofrido….

Hoje não me sinto a vontade de adotar um cachorrinho, ele era o meu filhinho querido…

Hoje, depois de um mês de sua partida (09.08.2014), ainda choro muito, mas não deixo ninguém ver. Me chamam de louca por chorar por um cachorro, outros falam pra mim adotar ou comprar…. E não é assim… As lembranças ainda doem, cada pedacinho da minha casa lembra ele…. Doei as coisinhas dele porque os outros cachorros são pacatos, não gostam muito de brincar de bola rs

Meu Cão Velhinho – Depois do que passou, o que acha da ideia de voltar a ter um cão idoso em casa?

Tathyana – Tenho um velhinho de 10 anos, o Mel, que chegou aqui com dois meses….e não vive sem meu pai …

Meu Cão Velhinho – Você recomendaria a outras pessoas que adotem cães idosos também? Por quê?

Tathyana – Sim, é o momento da vida deles que precisam mais de carinho, amor e proteção.

 

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.