De Onde Vem O Seu Cachorro? – Parte 1 – Filhotes em Casa

Você já parou para pensar sobre a origem do seu cachorro? Se não parou, é bom refletir…

Os nossos amiguinhos de quatro patas podem chegar até nós de várias maneiras diferentes – alguns são recolhidos das ruas, alguns são frutos de acasalamentos caseiros, e outros podem ser comprados a partir de criadouros comerciais, com diferentes níveis de profissionalismo. Vamos entender, então, que diferença isso faz para a sua vida e a do seu cachorro:

A Criação Caseira de Cães

“Tirar cria” da cadela que temos em casa é uma prática disseminada e aparentemente inócua. É bonitinho, todo mundo quer. Recentemente, inclusive, foi criada uma nova moda: os “ensaios gestante” para cadelas. As fotos ficam lindas, e deixam todo mundo com vontade de fazer um com a sua própria cachorrinha.

Neste ensaio, os “orgulhosos papai e mamãe” posam para a foto junto com uma placa: “9 dias para os filhotes chegarem”. Imagem: Dom Total

Mas, será que isso será bom mesmo para você ou para o seu cão/cadela?

  1.  A cadela não tem “desejo de ser mãe”. O que ela tem é um instinto reprodutivo, quando está no cio. Mas, mesmo se considerarmos que a cadela tem, sim, este desejo, ele não seria satisfeito pelo simples ato de “parir”, para, pouco mais de um mês depois, ser separada dos seus filhotes. Ser separada dos filhotes é certamente mais traumático do que simplesmente não tê-los;
  2. Ter crias não traz quaisquer benefícios à saúde da cadela; por outro lado, a gestação e o parto podem por a vida dela em perigo;
  3. A reprodução de cães com base apenas na aparência, sem conhecimento técnico de genética, pode gerar filhotes com doenças hereditárias;
  4. Os cães também têm doenças sexualmente transmissíveis;
  5. O cão macho não precisa “dar umazinha” (por favoooooor, não… preferia não escrever essa, mas também… preferia nunca ter ouvido, então, não custa falar);
  6. O correto acompanhamento da gestação de uma cadela tem custos;
  7. A cadela pode ter complicações no parto, o que irá gerar ainda mais custos, além de por em risco a vida da fêmea e dos filhotes;
  8. Os filhotes precisarão ser alimentados, desverminados e vacinados antes de serem entregues às novas famílias (quero acrescentar: castrados!), gerando altos custos para a família;
  9. Mesmo que os filhotes sejam vendidos, dificilmente a renda obtida a partir da venda de filhotes de “criações caseiras” será suficiente para cobrir as despesas necessárias para criá-los adequadamente.
  10. Encontrar lares responsáveis para cada um dos filhotes pode ser um grande desafio, e pode demorar vários meses;
  11. Caso os filhotes sejam doados ou vendidos sem qualquer critério, existe o risco de que sofram maus tratos ou sejam abandonados;
  12. Para cada filhote que “produzimos” em casa e doamos ou vendemos, temos um lar a menos disponível para outro cão que está na rua, passando fome, frio e medo;

Mas eu amo tanto o meu cachorro, que quero um filho dele…

Os ensaios “newborn” também arrancam suspiros dos “dog lovers”, deixando os tutores com ainda mais vontade de reproduzirem seus cães.
Imagem: Wamiz

Vamos aos fatos: você não é o seu pai, nem a sua mãe, e nem o seu irmão. Você é você, um indivíduo único e irreplicável, mesmo que tenha um gêmeo idêntico. Da mesma forma, o filho do seu cachorro não será uma duplicata do cão que você tanto ama. Claro, será um novo animalzinho totalmente digno de amor e respeito, mas não será uma réplica do cão que você já tem. Serão indivíduos diferentes, com personalidades diferentes. Entende a diferença? A diferença é que, se queremos adicionar um membro canino à nossa família, então teremos um novo indivíduo na nossa casa – e não mais do mesmo. Ainda que sejam membros da mesma família.

Agora, diferentemente de humanos, os cães nascem em ninhadas. Não raro, uma cadela chega a gestar dez filhotes, ou até mais, de uma vez só. Então, por que gerar (possivelmente) dez filhotes, se só queremos um? qual será o futuro de cada um dos outros filhotes? Será possível garantir que nenhum deles seja abandonado ou maltratado? É importante nos fazermos esta pergunta, pois, como amantes de cães, devemos nos preocupar com todos eles, e não apenas com os que estão no nosso lar – especialmente se fomos nós os responsáveis por colocar estes animais no mundo.

Ninhadas numerosas são comuns, e trazem consigo grande responsabilidade. Nesta foto, uma única ninhada com 15 filhotes. Que tal encontrar um lar responsável e amoroso para cada um?
Imagem:Robson Pires

Mais fácil, portanto, é levar para casa um cão “pronto”. Ou quantos você quiser e tiver condições de sustentar adequadamente. Ao invés de gerar e nos responsabilizar por toda uma ninhada, que tal fazermos uma boa ação? Existem milhares de cães – filhotes, adultos e idosos – nas ruas e em abrigos, esperando por alguém para amá-los. Estes cães adoecem, passam fome e sofrem – se você tem uma “vaguinha” na sua casa e no seu coração, por que não ajudar um desses peludos? eles vêm em todos os tamanhos e cores!

Mas eu gosto taaanto de      (preencha com a sua raça favorita)…    

Ok, cachorros de raça também são muito legais. Nós amamos todos, sem exceções. Mas os cães de raça são muito mais propensos a doenças hereditárias do que os SRD (“Sem Raça Definida”), o que faz com que um conhecimento técnico de genética no momento de definir um acasalamento se torne ainda mais importante. Já mencionamos, como exemplo, o caso dos cães braquicefálicos (de focinho curto) neste artigo. Doenças causadas por genes recessivos, ou seja, que não necessariamente aparecem no pai ou na mãe, também podem acontecer.

Isso, fora todos os outros fatores que já foram mencionados acima, e que se aplicam a todos os cães independente de raça.

A sarna demodécica é uma doença hereditária comum entre Pit Bulls, Bull Terriers, Boxers, e outras raças.
Imagem:Reddit

Dessa forma, se você tem um cão de raça e faz questão que o seu novo cão seja da mesma raça, pode não ser a melhor ideia simplesmente acasalar o seu animal – por mais lindo que ele seja – com outro da mesma raça – por mais lindo que seja também. E onde conseguir um outro cão de raça? Bom, esse é um oooutro assunto, que vamos deixar para o nosso próximo artigo de bem-estar animal…

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.