Por Que Precisamos Levar a Sério a Perda de Animais de Estimação - Meu Cão Velhinho

Por Que Precisamos Levar a Sério a Perda de Animais de Estimação

Este artigo não é de minha autoria, mas tem tudo a ver com o nosso tema, por isso resolvi traduzir e compartilhar com vocês. O texto original é da Scientific American, e pode ser lido aqui: Why We Need to Take Pet Loss Seriously.

“O time amador de futebol do Doug havia acabado de perder uma partida, e ele precisava se animar um pouco. Então, decidiu fazer uma parada num abrigo de animais no caminho de casa. Ele não tinha planos de adotar um animal, mas ver cãezinhos sempre o fazia sorrir. “Que erro de principiante”, ele me disse em uma das nossas sessões de psicoterapia. “Quando você entra num lugar desses, não tem chance de sair sem levar um cãozinho”. Delia, o filhote em questão, era uma vira-latas de 5 meses de idade. “Eu a tive por dezessete anos”, disse Doug, enxugando as lágrimas. “Praticamente por toda a minha vida adulta. Eu sabia que seria difícil quando ela morresse, mas não imaginava o quanto… Eu estava um desastre. Chorei por dias. Não conseguia trabalhar. E, o pior de tudo, eu tinha vergonha de contar isso para os outros, mesmo para os meus antigos companheiros de futebol, que amavam a Delia. Passei dias no trabalho chorando escondido, e resmungando “alergia” cada vez que alguém notava os meus olhos inchados”.

Perder um animal amado é, com frequência, uma experiência devastadora emocionalmente. Ainda assim, como sociedade, não reconhecemos o quão dolorosa pode ser a perda de um animal de estimação, e como isso pode nos afetar física e emocionalmente. Os sintomas do luto agudo após a perda de um animal de estimação podem durar de um a dois meses, com sinais de luto podendo persistir por até um ano (em média). O The New England Journal of Medicine recentemente reportou um caso de uma mulher que, após a morte do seu cão, sofreu com a “Síndrome do Coração Partido – uma condição em que a resposta da pessoa ao luto é tão severa e o sofrimento é tão grande, que ela exibe sinais semelhantes aos de um ataque cardíaco, incluindo a elevação dos níveis de hormônios, que podem ficar até trinta vezes maiores do que o normal.

Enquanto o luto pela morte de um animal amado pode ser tão intenso, e durar tanto quanto quando uma pessoa da família morre, o processo do luto é diferente. Como a perda de um animal de estimação é subestimada, muitos dos mecanismos de apoio social e comunitário estão ausentes quando um animal amado morre. Poucos de nós pediriam aos seus empregadores alguns dias de folga para se recompor após a morte de um cão ou de um gato, já que isso poderia fazer com que fôssemos vistos como emotivos, imaturos, ou fracos emocionalmente. E poucos empregadores concordariam com tal pleito. Estudos descobriram que o suporte social é um ingrediente fundamental na recuperação do luto de todos os tipos. Ainda assim, não só somos privados de sistemas de apoio cruciais quando os nossos animais de estimação falecem, como as nossas próprias percepções em relação às nossas respostas emocionais podem acabar por aumentar ainda mais o estresse emocional. Nós podemos nos sentir envergonhados pela intensidade do sofrimento que sentimos e, consequentemente, hesitar em compartilhar a dor com nossos amigos e familiares. Podemos até mesmo nos questionar o que é que há de errado conosco, e por que estamos reagindo de forma tão “desproporcional” a esta perda.

Sentir um luto intenso, e então encobri-lo pela vergonha que sentimos pelos nossos sentimentos, não apenas faz com que a perda ameace a nossa saúde emocional de forma muito pior do que seria em outras situações; isso também acaba por complicar o processo de recuperação, tornando-o mais longo e complexo do que deveria.

Ademais, considerando a resposta normal da sociedade, de que “é só um animal”, e que “você pode pegar outro”, nós temos a tendência de ignorar a variedade de formas como a nossa vida pode ser afetada pela perda de um animal de estimação (tanto real quanto prática e psicológica), o que pode nos impedir de ver com clareza os passos que devemos dar para nos recuperar. Perder um animal pode deixar vazios importantes nas nossas vidas, que precisamos preencher: pode mudar as nossas rotinas, causando um efeito em cascata que vai muito além da perda do animal em si.

Por exemplo, independentemente de serem treinados ou não, todos os animais de estimação funcionam como animais de terapia até um certo ponto. Cachorros, gatos, cavalos e outros animais amados nos fazem companhia, diminuem a solidão e a depressão, podem diminuir a ansiedade. Então, quando os perdemos, nós perdemos também uma significativa, e até vital, fonte de apoio emocional e conforto.

Cuidar dos nossos animais também faz com que tenhamos responsabilidades e tarefas ao redor das quais organizamos os nossos dias. Nós podemos nos exercitar quando levamos o cachorro para passear, e socializar com outros tutores durante as caminhadas/ em parques de cães. Quando o nosso cão morre, podemos sofrer uma perda significativa em nossas interações sociais casuais, e nos sentir excluídos da comunidade “extra-oficial” de tutores de cães à qual pertencíamos. Nós acordamos cedo diariamente para alimentar nossos gatos (ou somos acordados por eles, se esquecermos), mas conseguimos produzir muito mais durante o dia por causa disso. Sem o gato, podemos ter uma queda real de produtividade. Ou então, passamos horas nos finais de semana fora da cidade para poder cavalgar, e nos vemos perdidos quando o nosso cavalo não está mais lá. Perder um animal de estimação afeta rotinas bem estabelecidas que nos davam estrutura, suporte, bem-estar emocional, e que davam sentido às nossas ações. É por isso que, além da dor emocional, nos sentimos perdidos nos dias e semanas que se seguem à morte dos nossos animais.

Finalmente, nos consideramos pais dos nossos animais, e às vezes somos inclusive conhecidos dessa forma em nossas comunidades. Qualquer pessoa que tenha um cão sabe que é mais provável que os nossos vizinhos saibam o nome do nosso cachorro do que o nosso próprio nome. Quando o nosso cão morre, podemos nos tornar invisíveis, e perder parte importante da nossa identidade. Nós postamos imagens e vídeos dos nossos animais nas mídias sociais e temos seguidores por causa disso. Perder um animal pode afetar muitos aspectos da nossa identidade.

Se recuperar da perda de um animal, assim como em todas as formas de luto, requer que reconheçamos estas mudanças e encontremos formas de lidar com elas. Precisamos procurar apoio social das pessoas que sabemos que compreenderão e simpatizarão com a nossa dor, e não nos julgar por isso. A nossa melhor opção é procurar por pessoas que sabemos que também já perderam animais de estimação, já que elas serão capazes de melhor entender a nossa angústia e oferecer o melhor apoio. Muitas clínicas veterinárias oferecem grupos de luto para tutores.

Nós também precisamos preencher as lacunas que a perda deixou em nossas vidas, e há mais formas de fazer isso do que imaginamos. Nós podemos precisar reorganizar as nossas rotinas e atividades diárias para não perder os benefícios secundários de que desfrutávamos por ter um animal. Por exemplo, se o nosso exercício vinha dos passeios com o cachorro, precisamos encontrar formas alternativas de atingir as nossas metas de caminhada diária. Se as nossas mídias sociais giravam ao redor da popularidade do nosso gatinho no Instagram, precisamos encontrar outras formas de nos manter ativos nas mídias sociais. Se passávamos a maioria dos sábados num encontro de tutores de cães da mesma raça, precisamos encontrar outras formas de socializar e aproveitar o ar puro. Se você era conhecido como o “papai da Delia”, como era o caso do Doug, é preciso encontrar outra maneira de se envolver na comunidade.

O Doug sofreu muito mais do que precisava, por causa da vergonha e do isolamento que ele passou. É hora de darmos aos tutores que estejam sofrendo com a perda dos seus animais o devido reconhecimento, suporte e consideração de que precisam. Sim, cabe a nós mesmos identificar e lidar com as nossas feridas emocionais quando nossos animais morrem, mas, quanto mais os nossos sentimentos forem validados por aqueles ao nosso redor, mais rápida e completa será a nossa recuperação emocional.”

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.