Reconhecendo a Dor

Ela pode ser silenciosa e imperceptível aos nossos olhos, causando intenso e prolongado sofrimento em nossos animais. Reconhecer a dor em um cão é um desafio maior do que parece, e muitas vezes nós falhamos com os nossos companheiros.

Já houve um tempo em que se acreditava que uma certa dose de dor após uma cirurgia ou ferimento era benéfica para os animais, por limitar a sua movimentação e prevenir novas injúrias. Mas este pensamento está ultrapassado, agora que já sabemos que os mecanismos da dor em animais e humanos são muito semelhantes, o que significa que a forma como eles a sentem também é muito parecida com a forma como nós mesmo sentimos a dor.

Cão deitado com dor

O não tratamento da dor em animais resulta em sérios danos ao seu bem estar e qualidade de vida, estresse, dificuldade de cicatrização e recuperação de doenças, e até mesmo os torna mais susceptíveis a infecções em geral. Por outro lado, o tratamento precoce da dor impede que ela aumente a ponto de se tornar debilitante, ou, pelo menos, atrasa este momento. O problema é que cães não falam, e os sinais de que sentem dor podem não ser muito óbvios.

 

É fácil entender a confusão se pensarmos que um cão idoso fica naturalmente mais recolhido, dorme mais, e se movimenta menos do que um jovem. Geralmente, ao ver tal alteração no comportamento de um cão mais velho, seus tutores pensarão que “ele só está ficando velho” – e isso pode ser verdade! Mas pode ser que ele esteja se recolhendo e evitando se movimentar não por causa da idade, mas porque se mexer dói.

 

Para saber se o seu peludo está desconfortável, fique atento aos seguintes sinais:

Sinais GeraisSinais Específicos
Perda do comportamento normalDiminuição do nível de atividade, letargia, redução do apetite.
Expressão de comportamentos anormaisEliminação inapropriada (urina ou defeca no lugar errado), vocalização (chora, uiva), agressão ou menor interação com outros animais da casa ou membros da família, mudança na expressão facial, alterações de postura, inquietação, se esconder
Reação ao toqueCorpo fica mais tenso ou animal se encolhe em resposta à palpação suave da área dolorida ou sensível – pescoço, costas, quadris, etc.
Parâmetros fisiológicosAumento na frequência cardíaca e respiratória, aumento da pressão sanguínea, e dilatação das pupilas (aumentadas)

Fonte: AAHA/AAFP Pain management guidelines for dogs and cats.

Cada indivíduo responde à dor de formas diferentes, portanto, nem sempre todas as manifestações acima estarão presentes, e a intensidade das alterações também pode variar. Como cada tutor conhece seu cãozinho melhor do que ninguém, a melhor regra é: notou algo diferente? está na dúvida se ele está sentindo algum tipo de desconforto? leve logo ao veterinário para avaliar. Quanto mais cedo o problema for detectado, melhores as possibilidades de se conseguir prolongar a sua qualidade de vida: é possível melhorar o conforto e o bem estar do seu cão com o uso de medicações e outras medidas paliativas, que vão desde o controle de peso até cuidados com conforto térmico, adaptações no ambiente do animal, e uso de terapias alternativas. A combinação de dois ou mais métodos de alívio da dor (por exemplo, um medicamento e fisioterapia) é sempre mais benéfica do que o uso de apenas um deles. A escolha deve ser feita com base no tipo de problema apresentado pelo animal, nas doenças concomitantes, e também na disponibilidade (financeira e de tempo) do tutor.

A correta identificação da dor e o seu tratamento, principalmente no caso das doenças crônicas, é importante também para a decisões de final de vida do animal: em que ponto o seu sofrimento será considerado inaceitável? ou, ainda – quais são os cuidados que deverão ser tomados para que o meu cão tenha um fim de vida o mais confortável e digno possível (saiba mais aqui)? Decidir fazer ou não a eutanásia de um animalzinho querido com base no seu sofrimento não é nada fácil e, infelizmente, não há critérios objetivos para definir a forma “correta” de agir. Mas conhecer bem o seu animal é o primeiro passo para que ele tenha a melhor qualidade de vida possível.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.