fevereiro 19

Os Anjos de Tereza – Parte VI

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Uma coisa que nunca entendi é por que a água é tão gostosa na piscina, numa poça de barro, na chuva, no jato do esguicho ou na minha vasilha de beber, e até para beber na privada, mas é tão desagradável no banho. Talvez seja pelo perfume daqueles xampus que os humanos usam e que tiram todos os cheiros bons que conseguimos em nosso pelo, rolando em carniça ou em estrume…

Mas não é só isso, os humanos tem mania de limpar nossas orelhas quando nos dão banho, e dá vontade de coçar o ouvido com nossas unhas dos pés, quando eles fazem essa limpeza!

Ainda bem que tenho pelos curtos e não preciso tomar muitos banhos como a Gaia, que tem pelo comprido, e além do banho precisa ser seca com aquele secador ruidoso. Coitada! Quando o tempo está muito quente, até uma barulhenta máquina de tosa passam no pelo da Gaia, que fica com seus pelos curtinhos como os nossos.

Sempre que nos dão banho com xampus perfumados, todos nós, depois de lavados, tentamos nos esgueirar para o quintal sem que os humanos nos vejam, para rolar na terra e, se encontramos um passarinho morto, uma rã seca, ou até cocô, disfarçamos aquele cheiro de xampu que nós não gostamos. O duro é quando os humanos percebem, e então nos colocam novamente no banho !

Não consigo entender por que eles fazem isso… O nosso pelo é tão mais gostoso sujo de terra…

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Em outubro 2000, com a irmãzinha Bruma (a tigrada reversa, escura) e as duas mamães, Tereza e Ágata No verão, melhor que banho é quando cavamos um buraco na terra, até cabermos nele, a terra é fresquinha quando a gente se enrosca e deita no buraco!

Às vezes, nós quatro cavávamos ao mesmo tempo, e acontecia da gente arrancar alguma planta. Ficávamos com tanto medo da bronca que nossa cara nos denunciava. Quando nossa mãe gente nos vê com cara murcha, olhando meio de lado, só pergunta: “ – Onde foi que vocês fizeram buraco?” E nós, sem jeito, a levamos até lá… Mas ela acaba não brigando conosco!

Mas quando eu entrava na piscininha cheio de terra, depois de fazer buraco, aí não escapava da bronca. Por que será que os humanos trocam a água da piscina sempre que ela fica cor de barro? Ela fica tão mais bonita, meio vermelha! Sem contar que fica com um cheiro delicioso de terra molhada.

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Sol e Bruma com 4 meses, e mamãe Ágata vigia, toda orgulhosa

Olhando nossos gatos nas árvores, à noite, descobri os morcegos. Uma porção deles viviam pendurados nas árvores de frutas, durante o dia, e à noite saíam voando. Pareciam ratinhos com asas. Tentei muito pegar um, mas nunca consegui. Ficavam me fazendo de bobo, voando em volta de mim enquanto eu rodava até ficar tonto.

Fui crescendo mais, até ficar do tamanho de mamãe Ágata. Mas nós dois continuamos a brincar juntos. Gostávamos especialmente de brincar de brigar: eu mordiscava a perna traseira dela, que saia rosnando de mentirinha e me perseguindo, para fazer o mesmo comigo quando me alcançava.

Mamãe Ágata continuou carinhosa comigo, mesmo eu já sendo grande: Lambia meus beiços e minha cara, coçava de leve minhas orelhas com seus dentes. Eu deitava para cochilar perto dela e passava minha pata em seu pescoço, abraçando-a.

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Com quatro meses, brincando com o bando: da esquerda para a direita, o companheiro Shiva (então com 4 anos); os irmãozinhos Thor, Odin (dourados) e Bruma (tigrada) – Sol é o mais clarinho que está em cima da mamãe Ágata (de boca aberta, no chão) – essa foto tem até nome: “VIDA”

As pessoas, ou a maior parte delas, são muito pretensiosas. Ouvi muitas vezes outras pessoas chamarem minha mãe gente de maluca, porque ela conversava sempre com seus cachorros.

Essas pessoas presumidas diziam que cachorro não pensa. Achavam que só elas, seres humanos, eram capazes de pensar. Acho que confundiam “pensar” com “falar em palavras”, só podia ser isso!

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Com 2 anos, em 2002 dormindo sobre seu amigo Shiva, e a gata Mini

Eu não sei falar em palavras mas agora mesmo, enquanto minha mãe conta minha história, o que estou fazendo é transmitir meu pensamento e minhas lembranças para ela, e ela então digita tudo o que vou lembrando, em palavras humanas.

Quando eu tinha dois anos e meio, minhas duas mães, Shiva e eu iríamos para a cidade de Santos, onde morava minha avó humana, já bem velhinha: mamãe gente tinha lá uma casa antiga com um pequeno quintal, perto da praia.

Nos últimos dias que passei na casa onde eu nascera e fora feliz, tive vislumbres do futuro. Eu ficava deitado na varanda, me despedindo antecipadamente daquele quintal tão gostoso, que eu sabia, não sei como, que nunca mais iria ser meu.
Gaia e meu irmão humano iriam morar numa chacrinha com a namorada dele e seu filhinho, e nossa casa foi vendida. Quando nosso carro partiu com nós três e a Gaia ficou, eu chorei.

Foi aí que, pela primeira vez na vida, aprendi o que é saudade. Às vezes eu ficava sentado no sofá da sala de Santos, com os olhos fechados, lembrando a Gaia, o quintal tão lindo que eu perdera, meu irmão homem e sua mulher e seu filhinho, e meu coração ainda jovem começou a envelhecer com essa tristeza.

Texto e fotos por Tereza Falcão

Continua…


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