Nutrição e Anorexia - Meu Cão Velhinho

Nutrição e Anorexia

    Com a idade, sabemos que os animais, assim como nós, ficam mais sujeitos a determinadas infecções e doenças crônicas. Quando um cão adoece e entra em estado grave, além do tratamento medicamentoso, a nutrição adequada se torna um ponto fundamental para a recuperação do peludo.

Se um cão se recusa a se alimentar, ele tem o que chamamos de anorexia. A anorexia em animais pode envolver fatores psicológicos, como ansiedade de separação, medo ou agitação; mas a maioria dos casos está ligada a fatores fisiológicos ou patológicos – ou seja, quando há algo errado no organismo que faz com que o cão não queira ou não consiga mais comer. Em humanos, a anorexia em por si só pode representar uma doença em casos específicos, mas, para animais, ela é considerada sempre um sinal clínico: algo que sinaliza que há um problema acontecendo. Para ser tratada, portanto, é preciso sabermos o que está levando o cão a apresentar aquele sinal (qual é a doença ou condição que está fazendo com que ele pare de comer?).

Lulu da Pomerânia branco - anorexia

O problema maior da anorexia é quando ela persiste por períodos mais prolongados, geralmente porque a causa subjacente ainda não pôde ser excluída, por inúmeros motivos. Ao permanecer longos períodos sem se alimentar, o organismo vai enfraquecendo, de modo que as chances de recuperação do animal começam a diminuir.  É aí que o médico veterinário, junto com o tutor, deverá intervir.

Além do enfraquecimento, tem mais algum problema se o cão ficar muito tempo sem se alimentar?

    Sim! Um intestino que está trabalhando normalmente contém diversas bactérias, muco, enzimas, e outros componentes que servem para auxiliar na digestão do alimento. De forma bem resumida, quando não há alimento para ser digerido, as enzimas, o muco, e mesmo os anticorpos que normalmente ficam no intestino deixam de agir, permitindo que as bactérias cresçam desordenadamente. Algumas dessas bactérias conseguem, então, passar do intestino para a circulação sanguínea do animal (“translocação”), causando septicemia. A septicemia é uma infecção generalizada, e que acaba agravando ainda mais o quadro do paciente, além de por si só, poder levar à morte.

A ingestão de quantidades mínimas de alimento é capaz de manter o intestino funcionando adequadamente, e com menores chances de ocorrer uma translocação.

Quais são as opções para os animais que estão sem se alimentar?

    1. Nutrição entérica

    “Nutrição entérica” significa que a nutrição será feita pelos meios naturais do organismo, ou seja – passando pelo trato digestivo do animal. Sempre que possível, é a melhor escolha, por ajudar a prevenir o fenômeno da translocação bacteriana (quando as bactérias passam do intestino para a circulação), e também por permitir um melhor aproveitamento dos nutrientes. Deve ser evitada quando o animal estiver vomitando, pois pode fazer com que ele vomite ainda mais.  A nutrição entérica pode ser feita por:

    – Alimentação forçada. Em alguns casos, pode ser feita em casa. Geralmente, é fornecido um alimento pastoso (papinha, sopa, ração enlatada, conforme a orientação do médico veterinário) através de uma seringa sem agulha, diretamente na boca do cão. A quantidade fornecida de cada vez varia conforme o tamanho do animal e o problema que ele esteja apresentando. Dependendo da condição do animal, o fornecimento de grandes quantidades pode causar vômito, de modo que a alimentação deverá ser dividida em diversas porções menores. Pode ser estressante, pois geralmente o cão não quer ser alimentado, mas é a maneira menos invasiva de todas.

    – Sondas. As sondas são tubos que podem ser colocados passando pelo focinho (sonda nasogástrica), ou diretamente no esôfago (sonda esofágica), que levam o alimento diretamente ao estômago, sem precisar passar pela boca. Existem também sondas que são colocadas diretamente no estômago ou no intestino, que podem ser utilizadas dependendo da condição do animal. O cão precisará ser sedado, ou mesmo anestesiado para a colocação da sonda, de modo que este acaba sendo um procedimento mais invasivo do que a alimentação forçada; por outro lado, o fornecimento de alimentos por períodos mais prolongados fica facilitado, por não ser necessário obrigar o paciente a ingeri-los. A sonda pode ser colocada na clínica ou no hospital veterinário, e, se o paciente estiver em condições, poderá ir para casa e ser alimentado via sonda pelo próprio tutor.

    Uma observação interessante a respeito da nutrição enteral se refere ao tipo de alimento fornecido. É importante queo alimento fornecido no hospital não seja o mesmo que será fornecido em casa, posteriormente. Por exemplo: se o cão está com problema renal e precisará, após a recuperação da crise, ser alimentado com uma ração “renal”, esta ração não deverá ser a fornecida no hospital, durante a internação. Por quê? simples! Quando o animal está internado, ele já está suficientemente estressado, e quaisquer manipulações podem ser traumáticas. Se, enquanto estiver estressado, e muitas vezes nauseado, ele for obrigado a ingerir determinado alimento, ele poderá posteriormente criar ojeriza a este alimento, mesmo que esteja sondado (a sonda não impede que ele sinta cheiros!). Por isso, melhor evitar…

    2. Nutrição Parenteral

Se nutrição entérica é aquela que usa o trato digestivo do animal, a parenteral é a que não usa… Ela é feita por meio de soluções intravenosas (injetadas nas veias). Logicamente, quem vai prescrever e fazer a nutrição parenteral do seu cãozinho, quando necessária, será o médico veterinário. Mas isso não impede os tutores de se informarem um pouquinho a este respeito. Algumas observações importantes a respeito da nutrição parenteral:

  • “Soro” não é alimento. O que as pessoas chamam costumeiramente de “soro”, que seria o soro fisiológico, a solução de Ringer, a de glicose, entre outras, não se prestam à nutrição animal. Estas soluções podem ter diversas funções, como por exemplo, hidratar ou desintoxicar o paciente, mas nem de longe o mantêm bem nutrido. Em geral, estas soluções contêm eletrólitos, como sódio, potássio, fósforo, entre outras, necessárias para a manutenção da vida, mas que não fornecem energia e nem proteínas ou gorduras. Então, não é só porque o cão está sendo mantido “no soro” que ele poderá ser considerado “alimentado”.
  • Mas e a glicose? as soluções glicosadas levam as pessoas erroneamente a crer que a energia está sendo fornecida aos seus animais. Não estamos afirmando que estas soluções não devem ser usadas, mas apenas que a função delas é outra: a hidratação, e não a nutrição. Para se compreender melhor: as soluções de glicose contêm apenas 5% deste ingrediente. Significa que 1 litro deste fluido tem 170Kcal, sendo que um cão de 10 Kg doente precisa de cerca de 591 Kcal diárias – desta forma, para suprir as necessidades energéticas deste cão, seria preciso fornecer a ele 3,5 litros de fluido em um dia! Tal quantidade de fluido seria excessiva e prejudicial à saúde do cão, que poderia ser levado à morte por edema pulmonar e outras complicações
  • Os fluidos de nutrição parenteral são muitos, e devem ser escolhidos cuidadosamente pelo médico veterinário responsável. Apesar de sua capacidade de nutrir o paciente, estes fluidos também implicam riscos à saúde do cão, que pode ter lesões no local da aplicação, além de ficar sujeito a infecções, complicações metabólicas, e ter o seu trato digestivo atrofiado. Logicamente, a nutrição parenteral acaba sendo a única opção para pacientes graves que estão vomitando, ou que, por alguma razão, não podem ser nutridos pela via entérica.

    Se for necessário fornecer este tipo de nutrição ao seu cão, de preferência solicite a assitência de um médico veterinário nutricionista, e certifique-se de que ele receberá toda atenção possível durante a administração dos fluidos, para evitar complicações.  Assim que for possível fornecer a nutrição entérica, não perca tempo! Como colocamos acima, mesmo pequenas quantidades de alimento ingeridos já ajudam a manter o trato digestivo funcionando, e isso é essencial para a recuperação do seu cão.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.