Se o seu cão anda comendo demais, ele pode ter hiperadrenocorticismo

A Síndrome de Cushing, ou hiperadrenocorticismo (HAC), é uma das doenças endócrinas (hormonais) mais comuns entre os cães de meia idade e idosos. Este problema se caracteriza por um aumento na quantidade de corticoides circulantes no sangue, e atinge especialmente os cães de certas raças, como o Poodle, o Dachshund, o Labrador, o Beagle, e o Pastor Alemão, sendo que mais da metade (cerca de 60 a 70%) dos pacientes acometidos são fêmeas.

síndrome de cushing

Quais são os sinais?

O cão com Síndrome de Cushing (HAC) costuma beber muita água (polidipsia) e urinar muito (polidipsia). Além disso, ele passa a apresentar um apetite mais voraz (polifagia), o que pode inclusive levá-lo a procurar “alimentos” inadequados, como lixo, fezes, entre outros. Um sinal característico é quando um cão que sempre foi bem educado começa, já idoso, a mexer no lixo e pedir comida na mesa. Gordura começa a se depositar no abdome e a musculatura abdominal fica enfraquecida, fazendo com que o cão fique “barrigudo”, o que também dificulta a respiração, que se torna ofegante.

A pele pode ficar escurecida (hiperpigmentação), mais fina, e propensa a infecções. Podem surgir áreas sem pelos (alopecia), e a pelagem demora mais tempo para crescer. Os cães alérgicos passam a se coçar menos, por conta da grande quantidade de corticoides circulando no seu organismo.

Os machos podem ter atrofia testicular (os testículos “diminuem”), e as fêmeas param de entrar no cio. Outras doenças podem aparecer associadas, como cardiopatias, diabetes, e úlceras gástricas. O sistema imune fica suprimido, e por isso podem aparecer infecções diversas, como por exemplo infecções urinárias, piodermites, ou qualquer outro tipo de infecção. O cão fica cansado mais facilmente, e começa a dormir mais do que o normal.

Por que acontece?

O Hiperadrenocorticismo acontece por conta do aumento da produção de corticoides pelas glândulas adrenais (pequenas glândulas que ficam junto aos rins). Os corticoides são os conhecidos “hormônios do estresse”, e por isso os sinais da doença podem se parecer muito com os sinais de estresse crônico em humanos.

A doença em cães pode ser causada pelo uso de certos medicamentos ou pode ocorrer naturalmente. Dizemos que o HAC é iatrogênico quando ele é causado pelo uso de medicamentos, como corticoides ou ACTH (Hormônio Adrenocorticotrófico, que é um hormônio que estimula a adrenal a produzir corticoides). Estima-se que mais de 50% dos casos de HAC sejam iatrogênicos. Quando ocorre naturalmente, podemos classificar em:

– HAC Adrenal: quer dizer que a origem do problema está na própria glândula adrenal. Isso pode ocorrer por conta de tumores, estresse crônico, ou, ainda por causas desconhecidas (idiopático).

– HAC pituitário: a pituitária, também conhecida como hipófise, é uma glândula que fica na base do cérebro, e que produz hormônios muito importantes para o organismo – entre eles, o ACTH, ou Hormônio Adrenocorticotrófico. Este hormônio em particular estimula a produção de corticóides pelas glândulas adrenais, e, caso seja produzido em excesso, o cortisol será consequentemente produzido também em excesso. Este aumento de produção pode estar ligado a problemas no hipotálamo, tumores, mecanismos de retroalimentação, entre outros.

Como diagnosticar?

Alguns exames podem ser indicativos do hiperadrenocorticismo (HAC). No exame de sangue, por exemplo, é comum serem encontradas alterações nas quantidades de células brancas (de defesa), hiperglicemia (muito açúcar no sangue) e colesterol alto. No exame de urina, podem ser detectadas proteínas e altos níveis de glicose. No ultrassom, o fígado aparece aumentado, e as glândulas adrenais podem ou não estar aumentadas. Nas radiografias, caso haja tumores envolvidos, podem ser vistas metástases e os próprios tumores nas adrenais.

Todas essas alterações podem indicar ao veterinário que o cão está com HAC. Mas, para confirmar o diagnóstico, o exame mais utilizado (não é o único) se chama “teste de supressão por dexametasona em doses baixas”.  Para a realização deste exame, pode ser necessário internar o cão por um dia, pois serão feitas três coletas de sangue ao longo do dia, além da administração intravenosa (na veia) de um medicamento (a dexametasona). Ao interpretar o exame, o veterinário poderá confirmar o diagnóstico.

Se o exame resultar negativo, isso não significa necessariamente que o cão não tenha a doença. Há casos de cães que têm HAC, mas que acabam respondendo ao “teste de supressão por dexametasona em doses baixas” como se estivessem normais. Nesses casos, o diagnóstico acaba sendo feito por exclusão, com base no quadro geral apresentado pelo paciente.

Tem tratamento?

Sim, o tratamento existe, e vai variar conforme a causa da doença.

Se for um caso de Síndrome de Cushing iatrogênica (causada por medicamentos), basta fazer a redução gradual da dose do corticoide ou do ACTH que estiver sendo administrado, até que se retire completamente a medicação ou seja atingida a dosagem mínima necessária (caso seja necessária a continuidade do tratamento com estes medicamentos).IMPORTANTE: a retirada, ou redução da dose dos corticoides ou do ACTH após um uso prolongado sempre deve ser lenta e gradual, esteja o cão apresentando ou não sinais da Síndrome de Cushing. A retirada súbita destes medicamentos pode causar outra doença até mais grave, que se chama Síndrome de Addison, ou hipoadrenocorticismo.

Se a causa for um tumor, e, se isso for possível, o tumor deverá ser tratado; porém, sabe-se que nem sempre é possível a remoção do tumor ou a sua destruição por quimioterapia, assim como também é sabido que a maioria dos casos de Síndrome de Cushing espontânea é idiopática (de origem desconhecida). Por conta disso, normalmente as medicações utilizadas acabam não sendo capazes de efetivamente curar o animal, mas apenas mantê-lo em boas condições.  O tratamento de primeira escolha para a Síndrome de Cushing é um medicamento bastante caro, e que possui alguns efeitos colaterais, e por isso é importante que o paciente em tratamento receba o devido acompanhamento veterinário. Existem ainda alternativas mais baratas, mas todas elas podem ter efeitos adversos, e o tutor deve ficar atento.

 

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.