A hora da despedida

Este é um assunto nem sempre muito bem vindo, porém, inevitável. Optamos por trazê-lo à tona esta semana, em homenagem ao primeiro aniversário de morte da cadelinha Shana, que inspirou este site, em 14 de fevereiro.

Antes de entrarmos mais a fundo neste assunto, ressaltamos que o mais importante, pelo bem dos próprios cães, é não nos deixarmos abater por um futuro que ainda não aconteceu, e sermos gratos pelo tempo que já tivemos com eles e pelo que ainda teremos, não importa quão curto ou longo este tempo seja. Cabe lembrarmos o comentário de Cesar Millan, ao cogitar a morte do seu inseparável companheiro Daddy: “como humanos, nós antecipamos as coisas, e nos tornamos emotivos nas horas erradas. É claro, cães têm emoções, mas eles não ficam emotivos antes que as coisas aconteçam. Por isso, não vou fazer isso na frente dele”.

Cadelinha Shana

A morte é algo inevitável, natural, inerente à vida. Para alguns, chega mais cedo, e para outros, demora mais. Para quem tem a sorte, o verdadeiro privilégio de ter um cão velhinho em casa, a proximidade da morte pode se tornar uma sombra que chega a deteriorar a qualidade de um relacionamento de tantos anos, e tornar a despedida ainda mais dolorosa. Temendo um fim próximo, muitos tutores começam a se afastar dos seus cães, ou mesmo privá-los de tratamentos médicos que poderiam dar a eles maior qualidade de vida, por acreditarem que “não compensa” o esforço, ou a despesa. Acreditam, desta forma, estarem se despedindo de forma gradual, se acostumando à ideia de não terem mais aquele cãozinho ali.

Como já colocamos várias vezes neste site, sabemos que nem todas as doenças têm cura. Mas isso não nos impede de tratar os animais que são acometidos por elas. Na etapa final da vida – que, para os nossos cães, é tão curta -, mais do que tentar curar doenças sabidamente incuráveis, devemos focar em proporcionar a melhor qualidade de vida possível. Isso significa, por exemplo: não só uma dieta saudável, mas que também agrade ao paladar do cão; usar medicamentos (claro, prescritos pelo veterinário) que não visem simplesmente à cura, mas também ao alívio da dor e do mal estar; e, principalmente, o fortalecimento do relacionamento entre o cão e seu tutor, proporcionando ao cão conforto e segurança.

Na hora de se iniciar um tratamento médico, é imprescindível discutir com o veterinário quais são as opções que serão menos danosas ao bem estar do cão, e mesmo se o sofrimento imposto por determinado tratamento será capaz de efetivamente trazer-lhe algum benefício. Todos queremos prolongar as vidas de nossos cães, isso é lógico, mas devemos ter em mente que nem sempre isto é o que eles querem, se isso significar apenas mais dor e sofrimento.

Chegamos, assim, à polêmica questão da eutanásia. Para quem não está familiarizado com o termo, eutanásia é o famoso “pôr para dormir”, ou, como era chamada antigamente, “sacrifício”. Eutanásia, no dicionário, significa “morte boa”, ou “morte sem sofrimento”. Considerada um tabu para humanos, é uma prática consolidada na medicina veterinária que visa (ou deve visar) ao alívio da dor e do sofrimento em animais, quando não há outras alternativas viáveis.

Se cogitar a possibilidade de morte de um “cãopanheiro” já é algo muito difícil, pior ainda é pensar na eutanásia. Os sentimentos se misturam, entre a vontade de aliviar a dor do animal, a dor de vê-lo partir, e a culpa por não ter tentado um pouco mais. Desnecessário dizer, a opção pela eutanásia é, para quem ama seu cão, a decisão mais difícil que um tutor pode precisar tomar.

Para aqueles que acham que, talvez, a eutanásia seja a única opção para os seus animais, é importante ter uma conversa franca com o veterinário a este respeito. Questione: já tentamos todos os tratamentos possíveis? existe a possibilidade de ele parar de sofrer? se ele sair desta crise, ele poderá voltar a ter prazer em viver? As vezes, as respostas a estas perguntas podem dar esperanças, e estas não devem ser jogadas fora. Se o tutor e o médico veterinário acreditarem que, ainda que pequenas, ainda existam chances de o cão melhorar, não tem porque não tentar. Infelizmente, entretanto, pode ser que as respostas sejam desanimadoras. Ao constatar que não há mais nada a ser feito que possa ajudar o cão, o tutor deve tomar a decisão conforme suas convicções pessoais.

Independente de a morte do animal chegar naturalmente ou pela eutanásia, a consciência de ter feito o que estava ao seu alcance é o que trará ao tutor a paz de espírito – e então, ele poderá não apenas chorar a morte do seu cão, mas celebrar a vida que tiveram juntos. Cada passeio, cada vacina, cada “desentendimento” e reconciliação; os momentos de alegria e de cumplicidade que apenas quem já amou um animal conhece, serão lembrados para sempre. Sem culpa, sem dor, apenas saudades…

A HOMENAGEM FINAL

Cada pessoa tem suas crenças, suas necessidades espirituais. Homenagear uma pessoa ou animal que partiu deste mundo faz parte de um processo de despedida, que, para muitos, ajuda a compreender e aceitar a morte. Então, surge a questão: o que fazer com o corpinho do meu bichinho que foi embora?

Existem algumas alternativas, entre as quais, deixar o corpinho na própria clínica veterinária, para que seja feita a destinação mediante o pagamento de uma taxa, ou chamar a prefeitura, para que venha buscá-lo gratuitamente. Nestes casos, o destino costuma ser o aterro sanitário.

Mas, para quem prefere prestar ao seu bichinho uma última homenagem, há ainda outras possibilidades, a exemplo do que é feito com humanos. Pode-se enterrar o corpinho no próprio quintal, fazendo até uma pequena cerimônia. Àqueles que não têm quintal, há ainda os cemitérios e os crematórios de animais. Os cemitérios são parecidos com os de humanos, com lápides e flores. Os crematórios podem prestar diferentes serviços, como a cremação individual ou coletiva.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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