De onde vem o seu cachorro? – Parte 3 – Adoção

Finalmente, chegamos à terceira parte da nossa série de artigos falando sobre “de onde vem o seu cachorro”. Já falamos sobre cães “produzidos em casa“, sobre criações comerciais de cães, e, agora, falta falar sobre? Sim, você acertou! Adoção!

Cão de Raça ou Sem Raça?

A maioria das pessoas, quando decide acrescentar um membro canino à sua família, pensa logo em comprar um cão da raça “X”. Os cães de raça são de fato lindos, e têm a vantagem de serem previsíveis quanto ao seu tamanho, aparência, e, por vezes, até mesmo o temperamento. Por outro lado, eles custam caro, e podem ser provenientes de “fábricas de filhotes“, o que significa que a sua aquisição pode eventualmente vir a estimular uma indústria baseada nos maus tratos a animais. Outro problema dos cães de raça é que eles são mais propensos a doenças hereditárias, tendo em vista os seguidos acasalamentos consanguíneos aos quais são frequentemente submetidos (e que foram “necessários” para a criação das raças).

Já os SRD (“Sem Raça Definida”), também conhecidos como “vira-latas”, são igualmente lindos e divertidos, e ainda têm a vantagem de poderem ser facilmente adotados gratuitamente ou mediante o pagamento de taxas simbólicas para a manutenção de abrigos e ONGs. Os acasalamentos aleatórios os tornam menos propensos a doenças hereditárias, e, para melhorar, a adoção de um cão nos permite fazer uma boa ação: é muito gratificante retirar um animal de uma situação de vulnerabilidade ou maus tratos e dar a ele a oportunidade de viver uma vida plena e feliz. A falta de previsibilidade em relação ao tamanho do cão adulto pode ser um problema para algumas pessoas, especialmente para quem vive em apartamentos. Mas ela pode ser contornada de duas maneiras: ou pode-se procurar um profissional para ajudar a tentar prever o tamanho final de um filhote, ou pode-se adotar um cão adulto. Neste caso, você já vai saber exatamente como o cão será em todos os seus aspectos.

 

Filhote, Adulto ou Idoso?

Sem qualquer sombra de dúvida, a maioria das pessoas que decide adicionar um cão à sua família procura um filhote. Mas, por quê?

Para tentarmos esclarecer este mistério, fizemos um quadro comparando algumas características dos cães filhotes, adultos e idosos (considerando comportamentos “médios”, logicamente existem cães que não se encaixam totalmente nos padrões).

 

A verdade é que, analisando bem objetivamente, podemos concluir que a preferência geral pelos filhotes é completamente subjetiva, feita com base unicamente no seu inigualável nível de “fofura”. Mas, considerando que vamos acrescentar um indivíduo à nossa casa, talvez o critério devesse ser outro. Apesar de inquestionavelmente fofos, os filhotes dão muito, mas muito trabalho. E eles crescem. Esse é um detalhe importante, que parece ser esquecido por muitos tutores.

Um outro problema em relação aos filhotes que vale a pena destacar é em relação às crianças – especialmente as pequenas. Em que pese o risco de acidentes graves envolvendo filhotes ser pequeno, o fato é que as suas brincadeiras incluem morder. Quase o tempo todo. E eles têm dentes afiados, e nenhuma noção da própria força. Assim, mesmo sem qualquer intenção de fazer mal, um filhote pode acidentalmente ferir, e até mesmo traumatizar, um bebê ou uma criança pequena. No outro extremo, filhotes são pequenos, frágeis, e fáceis de serem carregados por bebês ou crianças pequenas, podendo criar outro tipo de acidente – em que a criança pode ferir ou até mesmo matar o animal sem querer. Assim, os cuidados com o bebê e o cão nesta fase precisam ser redobrados (veja mais sobre o relacionamento de cães e crianças neste artigo).

As brincadeiras normais de filhotes incluem mordidas.
Imagem: UrDogs

Então, não tem vantagem alguma em adotar filhotes? bom, depende… em alguns casos, um filhote pode ser a melhor escolha. Se você já tem em casa um cão adulto e com um certo nível de dominância, então pode ser que a adaptação seja mais fácil e tranquila com um filhote. O cão “da casa” não o verá como um oponente direto, e terá melhores chances de desenvolver uma amizade com ele sem brigas (supervisione especialmente no começo, para evitar acidentes). Uma outra situação em que o filhote pode ser uma boa opção será quando você tem um cão de meia-idade ou idoso que está ficando muito “acomodado” (veja o artigo). Um filhote pode ajudar a rejuvenescer o seu velhinho e dar a ele um novo “boost” de energia. Isso, é claro, considerando que ele não fique incomodado pela presença de outros cães (se for assim, é melhor deixá-lo sossegado para que ele não se estresse demais).

Já o cão adulto já vem “pronto”. Ao adotar um cão adulto, você já conhece o seu tamanho e temperamento. Eles são normalmente são mais calmos e cuidadosos do que os filhotes, principalmente com crianças. Mesmo sem terem recebido um treinamento sanitário anteriormente, eles têm bom controle sobre as suas funções fisiológicas e são mais fáceis de educar. Ao contrário da crença popular, é totalmente possível se adestrar um cão adulto, ou mesmo idoso (veja o artigo). A imunidade dos adultos já está bem estabelecida, e eles já não adoecem mais com a mesma facilidade que os filhotes. Sem dúvida alguma, são lindos, queridos, e uma ótima companhia para todos os momentos!

E, enfim, chegamos aos idosos. Com a maturidade, vem uma maior tranquilidade. As corridas nos parques são facilmente substituídas por um bom afago, e a paz toma conta da casa. Mas, já que estamos falando em objetividade, é claro que não podemos deixar de mencionar as duas principais barreiras à adoção de cães idosos: em primeiro lugar, a inevitável proximidade da morte. E, em segundo lugar, os cuidados médicos mais intensivos que frequentemente são requeridos pelos animais idosos. É fato, adotar um cão idoso não é tarefa fácil. Mas tem também suas vantagens: Por mais que os nossos cães sejam amados a vida toda, a verdade é que é nesta fase que o vínculo entre tutor e cão se torna mais forte. Talvez isso ocorra em razão da própria fragilidade do cão, e do medo da perda. Outro ponto positivo da adoção de cães idosos é a sua tranquilidade, que os torna animais de companhia perfeitos para crianças pequenas e pessoas idosas. Os cães velhinhos não exigem exercícios vigorosos, querem apenas estar presentes e receber amor e carinho.

Muitos idosos ficam muito felizes ao adotar cães velhinhos, e os motivos são diversos: a companhia, o amor incondicional, a cumplicidade, e até mesmo as doenças e a menor expectativa de vida são vistos como vantagens. São inúmeros os relatos de pessoas idosas que voltaram a ter energia e motivação para viver após adotarem um cão idoso, pois se sentiam responsáveis por cuidar do animal e aliviar as suas dores – tão parecidas com as suas próprias! A experiência já foi feita em asilos de idosos no Brasil e no mundo, e os resultados foram os melhores possíveis tanto para os cães quanto para os humanos envolvidos (veja um exemplo aqui).

Pessoas idosas e cães velhinhos formam ótimos times!
Imagem:Senior.com

Para fechar com chave de ouro, temos também a gratificação imensurável que sentimos ao ajudar um animal que esteja passando necessidade. Boa parte dos cães velhinhos disponíveis para adoção são, na verdade, animais que foram abandonados pelos seus tutores justamente por causa da sua idade. Animais que, de uma hora para outra, se viram nas ruas, passando fome, sentindo frio, dor, e medo. E justamente no momento em que mais precisavam de cuidados. Dar a eles um fim de vida digno, com amor e carinho, é uma experiência extremamente recompensadora, como podemos ver pelo relato da nossa aumiga Tathyana Simões, neste artigo.

Por que adotar?

Adotar é um ato de amor que ajuda a retirar animais de situações de risco e de maus tratos ao mesmo tempo em que nos dá a oportunidade de iniciar uma nova amizade. Existem cães de todas as idades e tamanhos disponíveis para adoção, basta que você escolha aquele que pareça melhor se encaixar no seu estilo de vida.

E eu posso adotar um cão de raça?

Sim, é claro que pode! Mas tenha em mente que os cães de raça disponíveis para adoção são, em sua maioria, animais resgatados de tutores irresponsáveis ou de fábricas de filhotes. Portanto, é bem provável que você só consiga encontrar animais adultos ou idosos, salvo aqueles casos esporádicos de pessoas que decidem ter filhotes dos seus cães em casa e optam por doá-los.

Apesar de não ser muito comum no Brasil, existem algumas ONGs especializadas em cães de determinadas raças, como é o caso do Boxer Rescue, da nossa aumiga Tereza Falcão (veja as histórias dos cães dela aqui). Mas não se prenda demais à raça. Todo cão é lindo e merece ser amado! <3

Como faço para adotar um cão?

Pode acontecer de você encontrar um cão passando necessidade na rua, e, neste caso, você pode simplesmente recolhê-lo. Só não esqueça de levá-lo imediatamente ao veterinário para avaliar a sua saúde, desverminar, vacinar, e tomar outros cuidados que eventualmente sejam necessários.

Se isso não acontecer, procure uma ONG local na sua cidade. As ONGs sempre têm cães disponíveis para adoção, e ficarão felizes em entregá-los a tutores responsáveis. Algumas podem exigir que os candidatos a adotantes passem por uma “seleção”, que pode incluir uma entrevista e até mesmo uma visita à sua casa. Essa é apenas uma cautela para evitar que os animais doados sejam devolvidos, voltem às ruas, ou sofram maus tratos. Basta se mostrar (e ser) um tutor responsável, e você logo terá um lindo amigo de quatro patas nas suas mãos!

Leia os outros artigos da série:

De onde vem o seu cachorro? – Parte 1 – Filhotes em Casa

De onde vem o seu cachorro? – Parte 2 – Canis e Pet Shops

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.