Por que o Meu Cão Velhinho conquistou o meu coração - Meu Cão Velhinho

Por que o Meu Cão Velhinho conquistou o meu coração

Anos atrás, numa noite quente de verão (redundante? não, aqui no sul verão nem sempre é sinônimo de calor), levei minha cadelinha Shana para passear. Na época, a minha pequena poodle tinha 12 anos, mas esbanjava saúde – pelo menos, aparentemente. Fomos pela praia, como fazíamos todo verão, pois ela adorava correr na areia e cavar pequenos buracos – um buraquinho aqui, uma corridinha, mais um buraquinho ali,mais uma corridinha, e assim por diante. O nosso Pit Bull Paxá, no auge dos seus 3 anos, foi também.

Mas dessa vez, o nosso passeio foi diferente. Enquanto o Paxá corria na frente e parecia determinado a arrastar troncos de árvore, a pequena Shana foi ficando para trás. Ela chegou a cavar um pouquinho quando chegou na areia, mas logo desistiu. Mesmo sem qualquer dor aparente, pareceu ter dificuldade em nos acompanhar – e nós (humanos) estávamos apenas caminhando! No final do passeio, ela estava ofegante. Resolvi levá-la no colo.

Cadelinha Shana - Meu Cão Velhinho

Cadelinha Shana, já velhinha

Foi neste momento que a realidade me deu um tapa na cara: a minha amada cadelinha estava ficando velhinha. Ela ia morrer. Quando? não havia como saber. Ela parecia saudável, mas não era mais a mesma. Será que ela viveria mais um ano? dois? o que aconteceria com ela?

A tristeza tomou conta, e precisei desabafar. Chorar por uma perda que ainda nem havia acontecido. Por que cães vivem tão pouco??

Pois bem, o dia seguinte chegou e ela ainda estava lá. Feliz, abanando o rabinho. Ela não estava preocupada. Seguimos as nossas vidas, as nossas rotinas. Levou um ano para que os primeiros sintomas de doença começassem a aparecer – mas chegaram todos rapidamente. Síndrome de Cushing, Insuficiência Cardíaca, incontinência urinária e, por uma complicação, Insuficiência Renal. Quase tudo junto…Mas dessa vez, eu não chorei. Assim como ela, vivi um dia de cada vez. Tratei de cada um de seus problemas da melhor forma possível, com todo o carinho que ela merecia.

De exames a farmácias de manipulação, de internamentos a “soluções tupiniquim” para lidar com a incontinência urinária enquanto ela não parava (depois de alguns meses, conseguimos corrigir), foram muitos reais investidos. E tempo. Como tomava tempo, dar “banho de assento” nela todo dia, cuidar das suas verruguinhas e manter a sua pele sempre limpinha para evitar as infecções recorrentes. Limpar as orelhas, controlar os horários dos medicamentos, fazer exames de sangue e de urina. Preparar uma alimentação especial com carinho, com ingredientes especialmente selecionados e cuidadosamente pesados, apenas para vê-la cheirar a comida e ir embora enojada. E quando vinham as crises… que desespero!

Foi assim a nossa rotina por mais dois anos. Ela faleceu aos 15 anos e 17 dias de idade, quase exatamente três anos depois daquela fatídica noite na praia. E de que valeu todo esse esforço?

Valeu, por ter tornado a minha ligação com ela mais forte nesses últimos três anos do que em todos os doze anos que os antecederam.

Valeu, por ter me instigado a estudar mais, a aprender mais sobre esta maravilhosa categoria de cães – os velhinhos;

Valeu, por ter me ensinado o quanto é gostoso simplesmente sentar e acariciar o seu cão, apreciando o momento, sem precisar de mais nada;

Valeu, por ter me mostrado o que é o amor.

E assim, me apaixonei pelos velhinhos.

Cão com óculos e jornal

Imagem: Found Animals Foundation

Cada momento com um cão velhinho é precioso. Isso porque sabemos que estes momentos podem não se repetir muito mais vezes. Que bom seria se conseguissemos dar o mesmo valor às outras coisas da vida, às pessoas e animais que amamos e que teimamos em pensar que viverão para sempre. O nosso cão velhinho, uma hora, vai embora. A dor da perda pode durar bastante, mas eventualmente ela também vai embora. Ficam as saudades, e fica o aprendizado. Ensinar que a vida é finita e que devemos todos os dias nos dedicar àqueles que amamos, esta é a missão dos cães velhinhos. E que missão difícil, essa…

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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