Ansiedade por Separação Em Cães

A história se repete há tempos: a casa está tranquila, cãozinho deitado ao seu pé, até que… Você calça o sapato para sair. Ou pega a chave do carro, a bolsa. O cão chora, se agita, às vezes até rosna. Com dor no coração por deixá-lo só, você sai e tenta voltar o mais rapidamente possível – tanto para poder acalmar o seu cão logo quanto para evitar reclamações dos vizinhos, por causa dos latidos e choros insistentes do bichinho.

Quando você chega em casa, ele faz aquela festa: comemora o retorno do seu tutor como se não o visse há anos, ainda que a sua ausência não tenha durado mais que alguns minutos. Em alguns casos, além do cão saltitante, você também logo avista objetos destruídos pela casa, portas arranhadas, ou urina ou fezes em locais inapropriados. Este tipo de comportamento, visto por muitos tutores como se o cão estivesse agindo por “birra” ou “vingança” pela sua ausência, na verdade é uma forma que o animal tem de aliviar a sua tensão, quando sofre com uma síndrome chamada de ansiedade de separação.

cão olhando pela janela - ansiedade de separação

Mais comum em cães de apartamento e animais que, em geral, têm uma ligação muito forte com os seus tutores, a ansiedade de separação é um problema comportamental que pode ter sérias consequências tanto para o humano quanto para o cão:

  • Humanos:
    • Perdas materiais e prejuízos financeiros;
    • Estresse;
    • Pessoa deixa de sair de casa para fazer companhia ao animal;
    • Desentendimentos com vizinhos devido a latidos e outros comportamentos indesejáveis do cão;
    • Brigas familiares, quando um ou mais membros da família podem passar a considerar que a convivência com o cão tornou-se insuportável.
  • Cães:
    • Intenso sofrimento, que tem sido comparado aos comportamentos de dor observados em crianças pequenas, quando se perdem de seus pais;
    • Possibilidade de ferimentos, estrangulamento, e até mesmo a morte durante tentativas de fuga para tentar se juntar ao tutor;
    • Animal pode tornar-se alvo de envenenamento e agressões físicas por vizinhos e outras pessoas incomodadas com o seu comportamento;
    • Pelo seu comportamento indesejável, passa a ser frequentemente isolado socialmente, o que aumenta a sua ansiedade;
    • A ansiedade extrema em animais com problemas cardíacos e/ou respiratórios pode desencadear crises e agravar a doença;
    • Em alguns casos, são submetidos à eutanásia ou abandonados.

Além dos comportamentos já citados, estes animais também podem apresentar salivação excessiva (mais fácil de observar em cães de pêlo longo, que ficam com a “barba” molhada), tremores, vômitos, e diarreia. Eles podem passar a se lamber excessivamente ou mesmo a morder as próprias patas (auto-mutilação), podendo causar ferimentos importantes e infecções secundárias. Já os animais idosos freqüentemente manifestam a sua ansiedade de forma mais passiva, e, ao anteciparem a partida de seus tutores, podem se isolar em um local específico e distante da casa, como  que “conformados” a uma realidade imutável.

cão deitado

Os sinais aparecem na ausência do tutor ou da pessoa objeto de apego, e não são aliviados pela presença de um outro cão. Enquanto alguns animais podem ficar tranquilos desde que haja “alguém” em casa, outros “exigem” a presença de apenas uma pessoa específica, não servindo ninguém mais. Pode ser difícil saber exatamente como o cão se comporta quando seus tutores estão fora, razão pela qual, em algumas situações, pode ser útil a instalação de câmeras para esclarecer o que está havendo.

Na presença do tutor, o cão comumente age quase como uma “sombra”, ficando sempre junto dele e tentando obter a sua atenção. As fobias de barulhos (trovões, fogos de artifício, etc.) também são mais comuns nestes animais do que nos outros, e tendem a se amenizar quando a ansiedade por separação é adequadamente tratada.

O tratamento da ansiedade de separação deve ser preferencialmente acompanhada por um profissional, e deve ser instituído em duas frentes:

Terapia Comportamental

    1. É a parte mais importante do tratamento;

    2. Não castigar o cão pelo seu comportamento ansioso;

    3. Incrementar os exercícios físicos;

    4. “Reduzir a emoção” na hora das partidas e chegadas: evite demonstrar ansiedade na hora de sair, e – a parte mais difícil – na chegada, procure não dar atenção à “festa” que o cão faz. Espere que ele se acalme antes de acariciá-lo, para que apenas o comportamento calmo e tranquilo seja recompensado. Ao fazer “festa” na chegada junto com o cão, sem querer o tutor acaba por reforçar o seu comportamento ansioso;

    5. Prender o cão em caixas de transporte ou canis não resolvem o problema, e podem até mesmo agravá-lo.

    6. Os resultados podem levar 3 meses ou mais para aparecerem, conforme o caso.

      Medicamentos

    1. O uso de antidepressivos e ansiolíticos pode ser útil nos casos mais graves, devendo ser utilizados como adjuvantes da terapia comportamental;

    2. Se indicado o uso de medicamentos, o animal deve ser submetido a exames de rotina, visto que estas drogas podem causar alterações hepáticas e renais, ou até mesmo cardíacas;

    3. Algumas drogas podem ser utilizadas apenas esporadicamente, quando se sabe que haverá uma situação estressante (fogos de artifício, alterações importantes na rotina, etc).

    4. Ao final do tratamento, é importante fazer um “desmame” gradual da droga, para evitar problemas por abstinência e recaídas no comportamento.

… Mas ansiedade de separação tem mesmo solução?

O prognóstico é bastante variável, e depende principalmente de dois fatores: há quanto tempo o problema vem ocorrendo (quanto mais tempo, mais difícil solucionar), e, principalmente, a disciplina e persistência do tutor. Muitos casos ficam sem solução (ou culminam com o abandono ou eutanásia do cão) porque os tutores não conseguem ou não estão dispostos a realizarem a terapia comportamental corretamente. Outro fator importante é o grande apego entre humano e animal envolvidos no processo, de modo que, por pena do cão, a pessoa acaba não conseguindo ser firme ou ignorá-lo nos momentos em que deveria, o que compromete o treinamento. Se a pessoa optar por não tratar a ansiedade de separação do seu cão e conviver com síndrome sem penalizá-lo, então precisará providenciar uma companhia para ele o tempo todo – seja numa creche de cães enquanto trabalha, seja com uma “babá”, ou então permitindo que o cão acompanhe o tutor em suas saídas.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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