Síndrome Braquicefálica

Os cães de focinho curto são lindos. Os Boxers, Pugs, Shi Tzu, Buldogues, e tantos outros peludinhos “de cara achatada” fazem sucesso pela sua aparência peculiar e comportamento amigável.

Mas o que muita gente não sabe é que estes cachorros estão entre os que mais sofrem com doenças respiratórias, a ponto que muitas companhias aéreas já não transportam mais cachorros dessas raças, por receio de que eles entrem em colapso durante o voo. Os cães de focinho curto pertencem a um grupo chamado de “braquicefálicos”. Os problemas respiratórios neles são tão comuns que existe até uma síndrome que foi nomeada “em homenagem” a eles: é a “Síndrome Braquicefálica”.

A seleção genética que foi necessária para criar estes simpáticos amiguinhos não foi tão simpática quanto eles… Ou, melhor, não foi tão simpática com eles. Ao longo dos anos, os animais foram selecionados para possuírem cada vez mais proporções anti-naturais e disfuncionais, em prol da sua aparência. As mudanças na anatomia dos cães foram tão radicais que, atualmente, jamais reconheceríamos como tal um Buldogue criado no início do século passado, por exemplo.

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Esta imagem mostra a diferença entre o crânio de um Buldogue Inglês no início dos anos 1800 (à esquerda) e de um Buldogue atual (à direita)
Imagem: Imgur

O Que é a Síndrome Braquicefálica?

A Síndrome Braquicefálica é um conjunto de anomalias em vias aéreas superiores que afeta os cães braquicefálicos. Um cão com esta doença pode ter um ou vários entre os problemas a seguir:

  • Narinas estenosadas: as narinas dos cães braquicefálicos são menores do que as de um cão normal, dificultando a respiração.
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Estenose nasal em Buldogue Francês. Em vermelho, a narina estreita, que impede a passagem do ar. Em amarelo, uma narina que já foi corrigida cirurgicamente para permitir uma melhor respiração.
Imagem: Aurora Hills Animal Hospital

  • Conchas nasais hiperplásicas ou displásicas: as conchas nasais são cartilagens que se estendem para dentro da cavidade nasal do cão, contribuindo para a troca de calor (para o cão se refrescar) e para a filtragem do ar. Nos cães braquicefálicos, estas conchas são menores do que as de um cão dolicocefálico (de focinho longo), mas, mesmo assim, grandes demais para o pouco espaço disponível para elas. Consequentemente, elas ficam espremidas e deformadas, prejudicando não só a passagem do ar, mas também a própria capacidade de termorregulação (controle de temperatura) dos cães. Especialmente em cães da raça Pug, algumas conchas podem chegar a se estender além da cavidade nasal, obstruindo a passagem do ar para a faringe.
  • Prolongamento de palato mole: o palato mole é a parte mole do céu da boca, que fica mais ao fundo. Nos cães braquicefálicos, ele é mais longo do que deveria, se estendendo sobre a garganta (ou, mais especificamente: o palato tem o tamanho que deveria, mas a maxila deles é tão pequena que o palato acaba ficando grande demais para ela). Isso causa o característico ronco dos cães dessas raças, e pode também causar dificuldade respiratória em alguns animais, especialmente os Buldogues Ingleses e Franceses.
  • Hipoplasia de traqueia: a traqueia dos cães braquicefálicos é mais estreita do que o normal – mais uma vez, dificultando a passagem do ar.
  • Eversão dos sáculos laríngeos: os sáculos laríngeos são pequenas bolsas que ficam na laringe. O grande esforço que é exigido destes cães para a inspiração do ar pode fazer com que eles sejam “virados do avesso” ou sugados para dentro, bloqueando ainda mais as vias aéreas.

Nem todos os cães braquicefálicos terão todas essas alterações. Quanto mais alterações presentes, mais grave será a dificuldade respiratória.

E Isso É Tudo?

Infelizmente, não. Os cães braquicefálicos normalmente têm outros problemas além da Síndrome Braquicefálica. Citemos alguns:

  • Intermação: a intermação é o superaquecimento do corpo do cão. Se a espécie canina é naturalmente pouco eficiente para perder calor, os cães braquicefálicos são ainda menos eficientes do que os seus semelhantes. Isso porque as duas principais formas de perda de calor dos cães são através do suor e do arquejamento (respiração ofegante). Mas os cães só suam pelas patas (!!!), ficando para a respiração boa parte da responsabilidade. Considerando que os braquicefálicos têm dificuldade para respirar, a sua capacidade de perder de calor acaba sendo diretamente prejudicada;
  • Tendência à obesidade: a maioria das raças braquicefálicas é selecionada para que os animais sejam roliços. Apesar de serem fofos, isso não é saudável para eles, causando os mesmos problemas que a obesidade traz também para humanos. E com um detalhe: o excesso de peso dificulta ainda mais a respiração!
  • Intertrigo: intertrigo é a infecção de dobras de pele. As lindas rugas presentes principalmente nos focinhos dos cães braquicefálicos retêm umidade, sujeiras, e sofrem atrito entre si, irritando a pele e a predispondo a infecções. Além do focinho, dobras de pele em outras partes do corpo, geralmente decorrentes do excesso de peso, também podem infeccionar.
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As dobras de pele propiciam o aparecimento de infecções.
Imagem: EZ Pet Help

  • Prognatismo: a má oclusão dentária dos cães braquicefálicos é, na verdade, um “prognatismo relativo”. Isso porque as suas mandíbulas não são grandes demais, mas as suas maxilas que são muito curtas.
  • Problemas oculares: o crânio dos cães braquicefálicos foi tão deformado ao longo dos anos que as suas órbitas se tornaram rasas demais. Então, os olhos não ficam bem encaixados – e sim, “saltados”. Estes olhos saltados podem literalmente sair das órbitas se os cães sofrerem pequenos traumatismos ou pancadas (exoftalmia traumática), precisando ser re-colocados cirurgicamente. As pálpebras podem não conseguir se fechar completamente, causando ressecamento e predispondo a infecções e úlceras de córnea.
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Os característicos “olhos saltados” dos cães braquicefálicos, como os deste Pequinês, podem facilitar a ocorrência da “exoftalmia traumática” e a perda do globo ocular.
Imagem: Mount Pleasant Veterinary Group

  • Prolapso da glândula da terceira pálpebra: sim, os cães têm três pálpebras. Duas delas são iguais às nossas, e a terceira fica escondida a maior parte do tempo. Ela parece uma “pelezinha” rosada nos canto do olho, e recobre os olhos normalmente quando eles estão fechados. Esta terceira pálpebra pode ficar para fora do seu “esconderijo” em muitos cães braquicefálicos, causando desconforto e propiciando infecções.
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Cão com prolapso da glândula da terceira pálpebra, ou “cherry eye” (olho de cereja).
Imagem: Bulldog Apollo

  • Dificuldades no parto: a cabeça dos filhotes braquicefálicos é frequentemente grande demais para conseguirem passar pelo canal do parto. Estima-se que em torno de 80% dos Buldogues Ingleses, por exemplo, sejam nascidos através de cesarianas.

Como Posso Ajudar o Meu Cão de Focinho Curto a Viver Melhor?

Apesar de que a maioria dos problemas não pode ser efetivamente resolvida, nós podemos, sim, ajudar os cães braquicefálicos a conviverem com tantas dificuldades. Veja o que você pode fazer:

  1. Evite exercícios físicos intensos ou prolongados. Já mencionamos que estes cães têm problemas para respirar e para regular a temperatura. Exercícios físicos muito intensos ou prolongados podem levar um cão braquicefálico rapidamente a quadros graves de insuficiência respiratória e de intermação (superaquecimento).
  2. Evite passear em dias ou horários muito quentes. Mais uma vez, devido à dificuldade de termorregulação dos braquicefálicos. Mesmo um passeio moderado em um dia muito quente pode levar um cão de focinho curto ao colapso.
  3. Controle o peso e a dieta. Boa parte dos cães braquicefálicos sofre com a obesidade. O impacto nas articulações, na pressão sanguínea, na saúde de forma geral, e na capacidade respiratória, pode ser desastroso. Como não é recomendável exercitá-los demais, procure manter o seu cão dentro de um peso adequado para o seu tamanho através de uma dieta bem controlada. Se o seu cão já estiver acima do peso, consulte o seu veterinário para estabelecer um plano de emagrecimento para ele.
  4. Cirurgias:
    • Estenose nasal. Através de uma cirurgia simples, é possível abrir as narinas dos cães, facilitando a passagem do ar. Este pequeno procedimento aumenta muito a disposição e a qualidade de vida destes cães. Caso se opte por tratar cirurgicamente a síndrome braquicefálica, este deve ser o primeiro procedimento.
    • Turbinectomia a laser” pode ajudar a diminuir os problemas causados pelas conchas nasais muito grandes e/ou deformadas que bloqueiam a passagem do ar.
    • Prolongamento de pálato. Apesar de o ronco causado pelo prolongamento de pálato já “fazer parte” do que é considerado “normal” para um cão braquicefálico, se isso estiver lhe causando dificuldade respiratória, uma cirurgia pode ser recomendada.
    • Eversão dos sáculos laríngeos. Caso isso aconteça, é possível corrigir a posição dos sáculos laríngeos, e, assim, facilitar a passagem do ar.
    • “Esticar as rugas”. Pois é, alguns cães podem mesmo precisar de cirurgia plástica para retirar os excessos de pele, e, assim, “esticar” as suas ruguinhas. O procedimento é recomendável para cães que tenham muitas infecções de pele nas características dobrinhas do focinho.
    • Re-colocação do globo ocular. No caso de o globo ocular sair da órbita (exoftalmia traumática), ele deve ser rapidamente re-colocado por meio de uma cirurgia. A demora no procedimento pode levar à perda do olho.
    • Prolapso de terceira pálpebra. É possível “recolher” a terceira pálpebra de volta para o seu lugar, ou, em casos extremos, removê-la. A remoção é uma solução mais drástica e aplicável apenas a alguns casos específicos.
    • Cesariana: cadelas com dificuldades no parto devem ser encaminhadas rapidamente à cesárea.

Desafios na Criação de Cães

Grande parte dos problemas de saúde dos cães braquicefálicos e de cães de raça em geral se deve aos frequentes acasalamentos consanguíneos. Acasalamentos consanguíneos são aqueles feitos entre parentes – pais e filhos, irmãos, netos e avós, tios e sobrinhos, etc. Eles são usados com frequência na criação de cães como forma de reforçar as características de cada raça. Como exemplo, podemos citar um estudo feito pelo Imperial College London que constatou que, embora naquele país, haja cerca de 10.000 Pugs, estes animais são geneticamente tão parecidos que equivalem a apenas 50 indivíduos diferentes.  Isso os tornaria mais comprometidos geneticamente do que os Pandas Gigantes.

Embora quase todas as raças sofram com as consequências dos acasalamentos consanguíneos, a seleção feita sobre os cães braquicefálicos foi particularmente cruel, já que a sua aparência peculiar não é nada funcional. Sabendo disso, o canal internacional BBC criou um documentário chamado “Os Segredos do Pedigree” em 2008. O documentário de cerca de uma hora expõe os acasalamentos consanguíneos usados para a criação de muitas raças como sendo “o maior escândalo de bem-estar animal de todos os tempos”.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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