Muita água, muito xixi…

O seu cão bebe muita água e faz muito xixi? ele está com maior apetite, mas parece estar emagrecendo? Fique atento, pois ele pode estar com uma doença séria, e bem conhecida: a diabete. Comum em humanos, existem três tipos principais de diabetes mellitus: o Tipo 1 (conhecida antigamente como “insulinodependente”), o Tipo 2 (conhecida antigamente como “não insulinodependente”, ou diabete adquirida) e  a diabete gestacional.

A diabetes mellitus não se confunde com a diabetes insipidus, que é uma doença bem diferente. O termo “diabetes” vem do latim, e significa “passar através”, e “mellitus”, também de origem latina, significa “doce como o mel”, fazendo uma referência à presença de açúcar na urina dos indivíduos que sofrem deste mal. Já “insipidus” quer dizer insípido, ou “sem sabor”, já que a urina de pacientes com diabetes insipidus é bem diluída (e não contém açúcar). A palavra “diabetes”, usada em ambos os casos, é justamente uma referência ao aumento na quantidade de urina eliminada (“passar através”). Neste artigo, falaremos apenas sobre a diabetes mellitus.

Cão fazendo xixi - diabetes mellitus

Imagem: Puppy Star

Em cães, o tipo mais comum de diabetes é o de  tipo 1, causada pela destruição das células do pâncreas que são responsáveis pela produção de insulina. Esta destruição, na maioria dos casos, é imunomediada (o organismo destrói as suas próprias células, como se elas fossem “invasoras”), por razões ainda não totalmente esclarecidas (acredita-se que haja uma predisposição genética). Pancreatites também podem destruir as células que produzem insulina, e, assim, causar diabetes.

Um tipo menos comum de diabetes em cães envolve não a produção da insulina, mas uma menor sensibilidade das células do corpo à insulina. Em outras palavras: o organismo continua produzindo insulina normalmente, mas o seu corpo cria resistência ao hormônio, de modo que são necessárias quantidades cada vez maiores de insulina para fazer o mesmo efeito. Em cães, esta resistência à insulina tem sido ligada ao hiperadrenocorticismo (Síndrome de Cushing) e ao uso contínuo e prolongado de corticosteróides.

Ao contrário dos humanos e dos gatos, a obesidade não foi, até o momento, associada à diabete em cães. A obesidade é uma das principais causas de diabetes (tipo 2)  em humanos e gatos, por causar resistência à insulina. Esta resistência à insulina relacionada à obesidade também ocorre em cães, mas não chega a causar diabetes – apenas a agrava, caso o animal já seja diabético por algum outro motivo.

Por fim, pouco se fala na diabete gestacional em cães, que é bem conhecida em humanos. Assim como as mulheres, cadelas podem ter diabete temporária durante a gestação ou no diestro (período de aproximadamente 70 dias que segue o cio). Se uma cadela for identificada como diabética durante a gestação ou no diestro, ela deverá ser re-testada ao final do período. Caso a diabete persista, ela será re-classificada como tipo 1 ou outro tipo de diabetes que não o gestacional.

Então, a diabetes é causada pela falta de insulina ou pela resistência a ela, certo? Mas o que vem a ser a insulina?

A Insulina é o hormônio responsável por manter os níveis de glicose no sangue dentro do “normal”. Quando um animal se alimenta, a glicose é absorvida e começa a circular no sangue. É aí que a insulina, produzida no pâncreas, entra em ação: ela faz com que a glicose que está no sangue entre nas células do corpo, onde será utilizada ou armazenada para um momento posterior. Uma das formas de armazenamento é através das gorduras. A insulina também impede que as proteínas (que formam os músculos, por exemplo) sejam usadas como fonte de energia.

Na falta de insulina, os níveis de açúcar e de gorduras (triglicerídeos) no sangue aumentam. Ocorre, porém, que os principais sinais da diabetes – poliúria e polidipsia (PU/PD), que são o aumento na produção de urina e na ingestão de água -, apenas aparecem quando a quantidade de açúcar (glicose) no sangue é tão alta que supera a capacidade dos rins em reabsorver a glicose, de tal modo que é possível encontrarmos açúcar na urina do cão. A presença de açúcar na urina é chamada “glicosúria”, e, nos cães, costuma ocorrer quando os níveis de glicose sanguínea já estão acima de 200 mg/dL – o normal é entre 60 e 120 mg/dL. Isso significa que, geralmente, há um período considerável entre o início da doença e o aparecimento dos sintomas, e, consequentemente, há demora no diagnóstico.

Além da PU/PD, outros sinais podem indicar que o seu cão está diabético incluem:

  • Aumento do apetite, mas o animal emagrece;

  • Menor nível de atividade (cão fica mais apático);

  • Pelagem seca, fina, ou opaca;

  • Cão pode fazer xixi na cama ou em locais inapropriados, porque está produzindo mais urina;

  • Olhos opacos (catarata).

‘ A diabete acomete principalmente os animais de meia-idade e idosos, fêmeas não castradas, e cães de determinadas raças, tais como: o Cocker Spaniel, o Dacshund, Dobermann, Pastor Alemão, Golden Retriever, Labrador, Lulu da Pomerânia e Poodle Toy.

Se o seu cão apresenta algum(ns) destes sinais, e, principalmente se ele se encaixar no grupo de risco (parágrafo acima), peça ao seu médico veterinário para verificar se ele tem diabetes. Ele irá pedir exames de sangue e urina, que deverão afastar ou confirmar o diagnóstico.

Como devo tratar o meu cão diabético?

O tratamento da diabete em cães envolve sempre o uso de injeções diárias de insulina (uma ou duas vezes ao dia, conforme o caso e o tipo de insulina utilizada), cuidados com a dieta (não deixe de ler o nosso artigo sobre a alimentação de cães diabéticos), e uma rotina de exercícios. Você também deverá levar o seu cão periodicamente ao médico veterinário, para consultas de “revisão”. Nestas consultas, o profissional irá avaliar se o tratamento está sendo eficaz, e se há necessidade de fazer algum ajuste. Um cão cuja diabete esteja sob controle sente sede, fome, se movimenta e urina em quantidades “normais”. O peso dele se mantém mais ou menos estável, e há menor risco de complicações.

mão aplicando injeção - Diabetes mellitus

Complicações? como assim?

Uma das complicações mais comuns da diabete é a catarata, que torna o animal cego.

Já a “descompensação” da diabete, que acontece quando os níveis de glicose no sangue fogem muito ao controle, pode levar à chamada “cetoacitose diabética”, uma condição muito perigosa e que deve ser tratada como emergência. O cão pode ficar desidratado, letárgico, vomitar, sentir dor abdominal, e ficar com um hálito cetônico (um odor bem característico). Leve-o ao hospital ou clínica veterinária.

No outro extremo, um cão diabético também pode ter hipoglicemia (glicose muito baixa no sangue), se a dose de insulina administrada for muito alta ou se ele ficar sem se alimentar por muito tempo. Neste caso, além de ficar letárgico, o cão também pode apresentar comportamentos anormais, tremores, fraqueza e convulsões. Se o cão  estiver consciente, em uma situação como estas o tutor deve dar a ele algum alimento rico em carboidratos, como por exemplo, arroz com frango. Se estiver inconsciente, passar xarope de milho nas gengivas dele, e alimentá-lo se ele acordar dentro de 5 minutos. Caso contrário, ele deve ser levado ao hospital ou clínica veterinária.

Estou preocupado! Meu cão vai morrer?

Com um tratamento adequado e o devido monitoramento, um cão diabético tem a mesma expectativa de vida que qualquer outro. Um diagnóstico precoce e o manejo correto da diabetes são importantes para manter os animais diabéticos com boa qualidade de vida.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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