Cachorro cego precisa usar colírio? (glaucoma , úlceras e olho seco) - Meu Cão Velhinho

Cachorro cego precisa usar colírio? (glaucoma , úlceras e olho seco)

Pode parecer estranho, mas há casos em que, mesmo cego, o cão vai precisar usar colírio. Isso porque, com algumas exceções, mesmo sem exercer a sua função principal – enxergar -, o olho continua lá, certo?

Na hipótese de que o cão ainda tenha um ou dois olhos – ainda que não funcionais -, eles ainda estão sujeitos a infecções, úlceras, e alterações de pressão. É claro que, na maioria dos casos, quando um animal (ou uma pessoa) tem um problema ocular, a nossa preocupação costuma ser preservar a visão. E, se não tem mais visão, o que resta a ser preservado?

Bom, para começar, o bem estar do animal. Uma úlcera de córnea ou um glaucoma, por exemplo, são condições extremamente dolorosas, e que podem acontecer independentemente de o cão enxergar ou não.  Infecções oculares podem ser indicativos de doenças sistêmicas, como, por exemplo, a doença do carrapato. Vamos falar hoje sobre o glaucoma, um problema que pode não apenas causar cegueira, como também pode ser causado pela própria cegueira e precisa ser tratado em todos os casos.

Glaucoma

O glaucoma é tipicamente definido como uma doença caracterizada pelo aumento da pressão intra-ocular, com destruição da retina e do nervo óptico (estruturas responsáveis pela visão). Há casos, entretanto, que pode ocorrer a “síndrome glaucomatosa” sem que haja um aumento da pressão do olho. A cegueira causada pelo glaucoma é irreversível, e pode afetar um ou ambos os olhos.

Tipos de glaucoma

Quanto à origem, um glaucoma pode ser congênito, primário ou secundário. Ele é congênito quando o cão já nasce com o problema; é primário quando não há uma causa aparente; e é secundário quando ocorre por consequência de outras doenças nos olhos.

cão com glaucoma

Imagem: AZ PetScan

O glaucoma primário é hereditário (passa dos pais para os filhos), e afeta principalmente os cães das raças Poodle, Basset Hound, Beagle, e Cocker Spaniel. Por ser um problema genético, é difícil evitar que aconteça, mas é recomendável evitar a reprodução dos animais afetados, para que o defeito não seja disseminado para as gerações seguintes. Uma vez iniciado o processo, a perda da visão acontece dentro de, em média, 12 meses; e, caso apenas um olho seja inicialmente afetado, há uma alta probabilidade de que o outro também desenvolva o problema dentro dos próximos 24 meses. Alguns medicamentos podem ser usados para se tentar retardar o processo no outro olho, mas dificilmente se consegue impedi-lo.

O glaucoma secundário pode afetar cães de quaisquer raças, e ocorre após – ou junto com – outros problemas oculares. Apesar de que o glaucoma secundário não é hereditário, as suas causas podem ser. Por exemplo:  uma causa comum de glaucoma secundário é a catarata. A catarata pode ter, em muitos casos, uma origem genética. E a própria cirurgia usada para tratar a catarata, diga-se de passagem, também pode causar glaucoma. Uveítes, tumores, e traumatismos, também podem resultar em glaucoma.

Diferentemente do glaucoma primário, é possível impedir a progressão do glaucoma secundário, se este for detectado cedo o suficiente, e é possível também que só um olho seja afetado.

O meu cachorro tem glaucoma?

Apesar de ser possível evitar a progressão do glaucoma quando este é secundário, a verdade é que, infelizmente, a maioria dos casos só é identificada quando já é tarde demais para isso.

O glaucoma causa muita dor e desconforto, e isso pode ser observado pelo comportamento do cão de esfregar os olhos contra o solo ou com as patas. Não sendo tratado, o cão pode apresentar timidez, apatia, ou agressividade. A área branca dos olhos (esclera) pode ficar avermelhada, e com vasos sanguíneos bem visíveis. Quando o problema já está mais avançado, os vasos podem inclusive passar por cima da córnea. O olho pode parecer inchado e grande.

Se achar que o seu cão tem algum destes sintomas, esteja ele cego ou não, leve ao veterinário para avaliar. O diagnóstico é feito com o uso da tonometria, que é a medição da pressão intra-ocular. A tonometria requer o uso de um equipamento específico, que pode não estar disponível em todas as clínicas.

Como e por que tratar?

Já mencionamos antes, mas vamos mencionar novamente: o glaucoma é uma condição MUITO DOLOROSA. Há casos inclusive em que a única forma de se melhorar a qualidade de vida do animal pode ser pela remoção do olho!

Mas antes de pensarmos em medidas tão drásticas, devemos saber que existem diversos medicamentos que podem ser usados para reduzir a pressão intra-ocular, e, desta forma, reduzir o desconforto. Se o animal ainda enxergar e o glaucoma for secundário, é possível inclusive preservar a visão dele. O tratamento geralmente é feito com colírios, mas em alguns casos, a medicação pode ser também por via oral. Apesar de menos utilizadas, existem também algumas cirurgias que podem ajudar a reduzir o glaucoma e melhorar o conforto do cão.

Olho Seco

O olho seco, ou ceratoconjuntivite seca, é um ressecamento da córnea, causado por uma diminuição na quantidade ou qualidade das lágrimas. As raças mais afetadas são o Cocker Spaniel Americano, Pug, Buldogue Inglês, Yorkshire, Shi Tzu, entre outras, mas qualquer cão pode ter este problema. Algumas doenças, como a demodiciose (sarna demodécica ou “sarna negra”), doenças auto-imunes, deficiências de vitaminas, hipotireoidismo, diabetes, e o próprio processo normal de envelhecimento, também podem levar a este ressecamento. Cães que não conseguem fechar completamente os olhos (geralmente, raças de focinho curto) também são predispostos ao olho seco.

Inicialmente, o olho seco pode lembrar uma conjuntivite, com olhos vermelhos, coceira, e secreção ocular (o olho da foto abaixo é um caso mais extremo, pode não haver tanta secreção). Conforme o problema avança, porém, o cão pode ter úlceras de córnea, que também são muito doloridas. Outro problema pode ser o aparecimento de manchas escuras na córnea, que acabam levando à perda da visão.

Olho seco com secreções

Olho seco com secreções.
Imagem: Alta Rancho Pet

O diagnóstico é bem simples, basta fazer um teste no consultório veterinário para saber como está a produção de lágrimas do seu cão.

O olho seco não tem cura, mas pode ser tratado. O tratamento normalmente é feito com colírios, que devem ser usados pelo resto da vida do cão. Caso não haja uma boa resposta aos medicamentos, também pode ser feita uma cirurgia para corrigir o problema.

Como é possível deduzirmos pela lista de causas do olho seco, um cão que esteja cego por qualquer motivo pode também ter olho seco. Ainda que, nestes casos, não haja preocupação com a manutenção da visão (que já foi perdida), devemos nos preocupar com o bem estar do cão, ao reduzir as coceiras, o desconforto, e prevenir a ocorrência de úlceras de córnea.

Úlceras de Córnea

As úlceras de córnea são “buracos” na córnea do cachorro, que são causadas por irritações nos olhos. Estas irritações, por sua vez, podem ter inúmeras origens, como: olho seco (já falamos acima), infecções, traumatismos (brigas, arranhões, farpas nos olhos), shampoos, etc.

Um cão com úlcera de córnea sente muita dor, e por isso pisca muito ou tem dificuldade para abrir os olhos. Ele lacrimeja muito, coça os olhos, tem secreção (“remela”), os olhos podem ficar avermelhados, e a córnea, esbranquiçada.

Se houver suspeita de úlcera de córnea, o médico veterinário fará um teste simples e rápido, que consiste na aplicação de um colírio chamado fluoresceína. Ele deixa uma coloração verde fluorescente em eventuais úlceras, destacando-as e facilitando a sua identificação.

Úlcera de córnea destacada pelo colírio fluoresceína (verde). Imagem: Cavalier Health

Úlcera de córnea destacada pelo colírio fluoresceína (verde).
Imagem: Cavalier Health

O tratamento é feito com colírios, podendo ser recomendada cirurgia em casos mais graves. Se o cão ainda enxerga, o tratamento da úlcera é essencial para se tentar preservar a sua visão; se ele já for cego, é importante para o seu conforto e bem estar.

O seu cão é cego? ele pode se adaptar à cegueira, mas não precisa conviver com a dor… Preste atenção ao seu cãozinho 😉

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

Comments are closed