Cirurgia da catarata

A catarata é um problema comum em cães, que causa cegueira progressiva. Para entender melhor como ela acontece, é preciso conhecer um pouquinho a anatomia do olho, mais especificamente do globo ocular. Como a estrutura do olho é bastante complexa, vamos falar apenas das partes que são mais importantes para a compreensão do que é a catarata, e como funciona a cirurgia.

A ANATOMIA DO OLHO

A superfície do globo ocular é formada por três camadas bem finas, e o seu interior é preenchido por um líquido gelatinoso e transparente. As camadas externas são:

 

  1. Túnica Fibrosa: é formada por um tecido bem denso, que dá forma firmeza ao olho. Se divide em duas partes:

    • A esclera, também conhecida como “o branco do olho”, que dá forma e protege o globo ocular. Na parte posterior, permite a passagem do nervo óptico, que é o nervo responsável pela visão. Por toda a sua extensão, é perfurada por pequenos nervos e vasos sanguíneos

    • A córnea, que é a parte transparente do olho, que, como se observa na figura abaixo, fica levemente “saltada” para frente. Não há vasos sanguíneos na córnea, por isso não circula sangue ali!

O local onde a esclera (“o branco do olho”) e a córnea (“a parte transparente”) se encontram é chamado “limbo”.

  1. Túnica Média: também chamada de úvea, contém vasos sanguíneos e músculos lisos. Serve para nutrir o olho e para ajustar o formato da lente e o tamanho da pupila, de modo a permitir o ajuste da visão. Se divide em:

    • Coróide: fica logo abaixo da esclera. É pigmentada (escura), para absorver a luz, e vascularizada (tem muitos vasos sanguíneos), para nutrir a retina.

    • Íris: É uma estrutura muscular com um orifício no meio (a pupila). É a parte que define a “cor dos olhos”, e também o diâmetro da pupila, para aumentar ou diminuir a passagem de luz.

    • Corpo ciliar: É formado por músculos lisos, chamados de músculos ciliares, que ajustam a forma do cristalino.

  2. Túnica nervosa: é a retina, formada por células sensíveis à luz. Estas células transformam as imagens em estímulos nervosos. Estes estímulos chegam ao cérebro, e, assim, forma-se a visão.

 

Desenho esquemático do olho

Olho humano por Rh Castilhos – Wikimedia

 

Finalmente, vamos ao que interessa: o cristalino, também chamado de lente. Situado logo atrás da íris, ele divide o olho em dois compartimentos: a câmara anterior (entre o cristalino e a córnea, preenchida por um líquido chamado “humor aquoso”) e a câmara posterior (entre o cristalino e a retina, preenchida por um líquido chamado “humor vítreo”).

O cristalino é uma lente biconvexa (arredondada “para fora” dos dois lados), que serve para orientar a passagem da luz para a retina (exatamente como uma lupa). Fica preso aos músculos ciliares que mencionamos acima, que podem “puxá-lo” para deixá-lo mais fino, ou podem relaxar para deixá-lo mais grosso. Ele precisa ficar mais fino para melhorar a visão de objetos mais distantes, e mais grosso para ver os objetos mais próximos – é o que chamamos de “acomodação visual”. Para funcionar, o cristalino deve ser transparente. A perda desta transparência é a CATARATA.

CATARATA

Como já dissemos, a catarata é quando o cristalino fica turvo, o que impede que a luz chegue (total ou parcialmente) à retina. É uma das causas mais frequentes de perda de visão em cães. Ela pode ser:

  1. Congênita – quando o cão já nasce com catarata;

  2. Juvenil – quando a catarata aparece entre o nascimento e os seis anos de idade;

  3. Senil – quando ocorre em cães com mais de seis anos.

Em relação à causa, a catarata pode ser:

  1. Primária – aparece “espontaneamente”. Geralmente hereditária, é comum em diversas raças. Num estudo que avaliou 561 cães de pequeno porte com catarata, as raças mais acometidas foram, nesta ordem: Poodle Toy/ Miniatura, Yorkshire Terrier, Shih Tzu e Maltês. Outras raças que são bastante acometidas são o Schnauzer Miniatura, Cocker Spaniel, Golden Retriever, Fox Terrier, Labrador, e o Pastor Alemão.

  2. Secundária – é resultado de algum outro problema. Certas infecções e intoxicações podem causar catarata. A atrofia de retina – comum no Poodle Miniatura e no Cocker Spaniel Inglês -, traumas, a uveíte, o glaucoma, e luxação do cristalino também são possíveis causas. Ela também pode estar associada a deficiências nutricionais, síndrome de Cushing, e, com bastante frequência à diabetes mellitus.

Uma última, porém importante classificação da catarata se refere ao seu estágio de desenvolvimento. Ela pode ser:

  1. Incipiente – pequena opacidade no cristalino, sem perda da visão;

  2. Imatura – quase todo o cristalino está opaco, há alguma perda da visão, e o exame de fundo do olho fica dificultado;

  3. Madura – a opacidade é total, e o animal fica cego. Pode ocorrer glaucoma secundário;

  4. Hipermadura – o tamanho do cristalino diminui, ficando enrugado. As proteínas da cápsula podem extravasar, causando inflamação.

OS CANDIDATOS À CIRURGIA

Não existem medicamentos capazes de impedir a progressão da catarata, menos ainda de curá-la. Por isso, ainda que seja essencial o tratamento da causa subjacente sempre que ela for identificada (p. ex., infecção, diabetes, etc.), a catarata em si apenas pode ser curada com cirurgia. Mesmo assim, o sucesso da cirurgia depende de vários fatores, tais como a técnica e habilidade do cirurgião, os cuidados pré e pós-operatórios, o uso dos equipamentos corretos, e também a escolha do paciente.

Como assim, escolha do paciente?

Pois é, nem todo cão com catarata é candidato à cirurgia. Além dos riscos inerentes à qualquer cirurgia (risco da anestesia, que é minimizado com exames pré-operatórios “padrão”), alguns exames a mais são necessários para saber se o seu cão tem chance ou não de melhorar com a cirurgia.Olho de poodle com catarata

  1. Eletrorretinograma: nos cães com catarata, o “exame de fundo de olho” fica dificultado, justamente porque o cristalino está tão opaco. O problema disso é que alguns cães – em especial os Poodles e Cocker Spaniels – podem ter ter problemas de retina junto com a catarata. Significa que, mesmo sem a catarata, o cão ainda seria cego! Então, não tem sentido operar… O exame é um pouco caro, mas, se o tutor optar por não fazê-lo, deve estar ciente de que, sem ele, a cirurgia pode acabar se revelando completamente inútil.

  2. Ultrassonografia: é um exame fácil e indolor, que não exige anestesia e ajuda a detectar certos problemas que contra-indicam a cirurgia, ou ainda, pode demonstrar que a causa da cegueira é outra que não a catarata. Com o ultrassom podem ser detectadas hemorragias intra-oculares, descolamento de retina, tumores intra-oculares, degeneração do vítreo, etc.

  3. Pressão intra-ocular: uma baixa pressão pode indicar uveíte, e uma pressão elevada contra-indica a cirurgia, exceto nos casos de glaucoma por luxação de cristalino.

  4. Avaliação do grau da catarata: Se por um lado há pouco benefício em se operar uma catarata incipiente, por outro lado a operação de cataratas hipermaturas tem menor índice de sucesso, com maior chance de complicações pós-operatórias. O momento ideal para a cirurgia é enquanto a catarata ainda é imatura.

  5. Demais exames pré-operatórios: hemograma, perfil bioquímico, eletrocardiograma e urinálise são muito importantes para o preparo adequado da cirurgia. Conforme o caso, outros exames podem ser solicitados também, como tempo de coagulação e radiografia torácica. Como essa cirurgia geralmente é feita em pacientes idosos – frequentemente diabéticos, e/ou com problemas cardíacos, renais ou hepáticos – os exames pré-operatórios são imprescindíveis para a segurança do procedimento. É com base neles que o médico veterinário irá dizer se o cão está ou não em condições de ser operado, e definir qual o melhor tipo de anestesia para ele.

PREPARANDO PARA A CIRURGIA

Feitos os exames e marcado o procedimento, geralmente o médico veterinário responsável prescreverá um colírio para dilatar as pupilas, que deverá ser usado por um ou dois dias antes da cirurgia. Antiinflamatórios (colírios e/ou por via oral) as vezes também são prescritos neste período. É recomendável banho com sabão anti-séptico, e, em cães com pêlos muito longos, uma tosa na cabeça.

A CIRURGIA

Existem duas técnicas para a cirurgia de correção da catarata em cães, e ambas requerem bastante prática pelo cirurgião. O procedimento é muito delicado, sendo muito importante que o médico veterinário que vai operar seja especialista em oftalmologia e esteja bem familiarizado com a técnica que irá utilizar. Vejamos, então, quais são os tipos de cirurgia disponíveis:

Facectomia Extracapsular

É uma técnica mais simples, utilizada principalmente quando os equipamentos mais caros e modernos não estão disponíveis. Ainda é utilizada em humanos no Brasil, podendo ser bem indicada para animais também.

É feita uma grande incisão (um corte) no limbo (onde a córnea se encontra com o branco do olho), e então, mais uma incisão na cápsula do cristalino. O seu conteúdo (córtex e núcleo) é retirado manualmente, e então uma prótese (Lente Intra-Ocular, ou LIO) pode ou não ser colocada no seu lugar. Depois disso, as incisões são fechadas.

Facoemulsificação

É a técnica mais moderna e mais utilizada atualmente para humanos. Devido ao seu custo e necessidade de equipamentos especiais, nem sempre está disponível para uso em cães, mas já há clínicas e hospitais veterinários que operam desta forma. Este método tem tido maiores taxas de sucesso e menos complicações do que o outro.

São feitas duas pequenas incisões no limbo, e então, cria-se uma abertura na cápsula da lente. Uma pequena sonda (“sonda faco”) é inserida, e ela emite ondas (ultrassom) que fragmentam o córtex e o núcleo do cristalino. Os fragmentos são aspirados, e, assim como no caso anterior, pode ou não ser colocada uma prótese no seu lugar.

Lente Intraocular para Cães

A lente intraocular nem sempre é usada, muitas vezes por questões de custo ou de disponibilidade. Para humanos, as lentes vêm sendo regularmente utilizadas, e melhoram muito a acuidade visual depois da cirurgia. Por outro lado, o seu uso pode aumentar a chance de complicações pós-operatórias e comprometer o sucesso da cirurgia.

COMPLICAÇÕES PÓS OPERATÓRIAS

A ocorrência de complicações no pós operatório pode interferir no sucesso da cirurgia, e impedir o retorno esperado da visão. Podem acontecer edemas, problemas de córnea, glaucoma, descolamento de retina, alterações do humor vítreo, e deslocamento da prótese.

RESULTADOS DA CIRURGIA

A cirurgia de catarata em cães vem apresentando taxas de sucesso de 80 a 90%, considerando “sucessos” os casos em que o cão passa a enxergar, ficando confortável e sem glaucoma. A chance de sucesso é menor para cães diabéticos e para aqueles cuja catarata já está madura ou hipermatura no momento da cirurgia.

Um estudo feito em 2006 nos EUA questionou os tutores de cães que foram submetidos à cirurgia de catarata (pela técnica de facoemulsificação) quanto à sua satisfação com os resultados. 81% deles se disseram satisfeitos, 12% estavam insatisfeitos, e 5% não tinham certeza. Eles levaram em consideração o custo da cirurgia, a melhora na visão dos animais, o grau de desconforto, a quantidade de consultas pós-operatórias, e a quantidade e frequência de medicamentos que precisaram ser usados após o procedimento.

Dentre os que estavam insatisfeitos, as queixas eram – perda da visão algum tempo depois da cirurgia, dificuldade para controlar a diabetes, ou, ainda, que a cirurgia foi dispendiosa demais. Cabe um parêntese para dizer que 61% dos tutores que se queixaram de perda da visão após a cirurgia não compareceram corretamente às consultas pós-operatórias, o que pode nos levar a crer que talvez estes animais não tenham recebido o cuidado devido após a cirurgia.

Olho de cão antes e depois da cirurgia de catarata

Olho de cão antes (esquerda) e depois (direita) da cirurgia de catarata. A coloração esverdeada é devida ao colírio fluoresceína, usada para um exame oftálmico.
Imagem: Animal Eye Doctor

ESTOU INTERESSADO! ONDE POSSO LEVAR MEU CÃO PARA SER AVALIADO?

Como já mencionamos no início do artigo, a cirurgia de catarata em cães é bem delicada e exige conhecimento especializado. Se você tem a intenção de operar o seu cão, procure um médico veterinário especialista em oftalmologia na sua cidade e pergunte se ele faz a cirurgia ou indica quem faça. Normalmente, estes profissionais podem ser encontrados nos grandes hospitais veterinários, e também nos hospitais veterinários especializados. Se possível, procure referências do profissional escolhido para ter mais segurança.

E SE EU NÃO QUISER OPERAR?

A cirurgia da catarata é paleativa, ou seja, visa ao conforto do animal – e não à salvar a sua vida. Ainda que seja interessante aumentar o bem estar do seu cão, outros fatores importantes também pesam, como por exemplo, o custo da cirurgia, a disponibilidade de um profissional especializado para fazê-la, o estado de saúde do cão (que pode ser impeditivo para qualquer cirurgia em alguns casos), e também o fato de que nem todos os cães com cataratas são bons candidatos à cirurgia, como já mencionamos antes.

Ou, ainda: o tutor pode considerar que o seu cão se adaptou bem à cegueira, e não vê necessidade em operar. Tudo bem, normalmente os cães conseguem se adaptar, e, com alguns cuidados, é possível dar boa qualidade de vida a cães cegos ou com pouca visão.

Caso você opte por não submeter o seu cão à cirurgia, converse com o seu veterinário – ou com um especialista – para saber se é preciso usar algum medicamento. Não se engane, cães cegos as vezes também precisam de colírios! Isso porque, mesmo cego, o olho do cão pode ter uveíte (um tipo de inflamação/ infecção) e glaucoma (aumento da pressão intra-ocular), que são condições bastante dolorosas. Geralmente, o tratamento médico para cães com catarata – que, frise-se, não visa à recuperação da visão – inclui o uso de colírios antiinflamatórios, com ou sem midriáticos (dilatadores de pupila, servem para controlar a pressão dentro dos olhos).

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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