8 em 10 cães com esta doença não são diagnosticados

 

A Síndrome da Disfunção Cognitiva (SDC) canina é uma doença neurodegenerativa de cães idosos, que chega a afetar quase 30% dos cães entre 11 e 12 anos, e praticamente 70% dos cães com 15 anos ou mais.  Esta síndrome também é conhecida como “demência canina” ou “Alzheimer dos cães”. Devido à sua similaridade com a doença de Alzheimer, cães com esta síndrome vêm sendo utilizados como modelo para o estudo da demência em humanos. Apesar de que as causas da doença permanecem obscuras, algumas possibilidades vêm sendo estudadas, entre elas: diminuição da circulação sanguínea no cérebro  (por diabetes, hipertensão, hiperlipidemia, ou pela própria senilidade), radicais livres, inflamações, e a própria senilidade, que diminui a capacidade de adaptação do indivíduo a agressões externas.

Cães com esta síndrome apresentam alterações de comportamento que podem impactar mais ou menos o seu relacionamento com os seus tutores. As alterações comportamentais são divididas em  cinco categorias básicas:

 

Categoria

Alterações (exemplos)

Desorientação

  • Parece confuso ou desorientado;

  • Fica perdido em ambientes familiares;

  • Fica “preso” atrás de móveis e portas abertas;

  • Olhando fixamente para o espaço;

  • Vagando sem rumo;

  • Latidos excessivos sem motivo aparente;

  • Não reconhece membros da família;

Interações sócio-ambientais

  • Brinca menos ou não quer brincar;

  • Agressividade;

  • Aumento da ansiedade por separação;

  • Responde menos, ou não responde a comandos conhecidos;

  • Carência excessiva, ou perda de interesse em interagir com o tutor;

Alterações no ciclo sono/ vigília

  • Latidos excessivos e/ou uivos a noite;

  • Fica agitado durante a noite;

  • Dorme muito durante o dia;

Eliminação inapropriada

  • Xixi e/ou cocô dentro de casa, ou na própria cama;

  • Incontinência urinária e/ou fecal;

Alteração no nível de atividade

  • Tem menos vitalidade;

  • Apatia;

  • Mudanças no apetite.

Um cão com Disfunção Cognitiva nem sempre terá todos os sinais. Ele pode ter alterações em apenas uma ou duas categorias, por exemplo. Enquanto algumas mudanças de comportamento praticamente não incomodam os tutores – “ele está dormindo muito porque está ficando velho, é normal” -, outras podem seriamente afetar o relacionamento entre cão e tutor: excesso de latidos, agressividade, e eliminação inapropriada, por exemplo, podem levar tutores menos compreensivos a “se cansarem” dos seus animais, a abandoná-los ou agredi-los ao invés de ajudá-los.

A Síndrome da Disfunção Cognitiva afeta mais fêmeas do que machos, sendo que machos castrados parecem ser mais afetados do que os “inteiros” (não castrados). Não há predileção por raça ou tamanho, e os sinais são mais visíveis a partir dos 11 anos de idade, apesar de que alguns sinais podem já começar a partir dos 6 anos em cães maiores.

cadela com disfunção cognitiva

Cadela com SDC, “presa” sob uma cadeira.
Imagem: DogDdementia.com

Um dos grandes problemas da Síndrome da Disfunção Cognitiva é que ela é extremamente subdiagnosticada. Um estudo chegou a sugerir que cerca de 85% dos cães com esta síndrome não são diagnosticados adequadamente. Isso porque muitos tutores entendem os sinais desta doença como alterações normais da velhice, e, portanto, não consideram relevante sequer mencioná-las durante as consultas com o médico veterinário. Os próprios médicos veterinários podem, por vezes, ter dificuldade em identificar esta síndrome e diferenciá-la do envelhecimento normal ou de doenças neurológicas.

O diagnóstico preciso desta síndrome não é fácil, já que, como já mencionamos, os sinais podem ser facilmente confundidos com o envelhecimento normal e com outras doenças – como cinomose (sim, cinomose é doença de filhotes, mas velhinhos não vacinados ou com as vacinas vencidas podem pegar), tumores no cérebro, hipotireoidismo, doenças cardíacas, etc. E, não sendo diagnosticada, a doença não será tratada.

A Síndrome da Disfunção Cognitiva canina não tem cura, mas pode ser tratada. Apesar de que nem todos os medicamentos usados para o tratamento da SDC estão disponíveis no Brasil, nós temos sim algumas drogas disponíveis. Além de medicações específicas para a doença, o uso de suplementos alimentares ricos em antioxidantes (vitaminas C e E) e neuroprotetores (vitaminas do complexo B), ômega 3 e alguns aminoácidos, têm demonstrado excelentes resultados. A marca Hill’s chegou a lançar uma ração enriquecida especificamente com a finalidade de aliviar os sinais da SDC (Hill’s ® Prescription Diet b/d ® Canine), mas ela está disponível somente nos EUA.

Outros medicamentos, como vasodilatadores cerebrais e antidepressivos, também vêm sendo utilizados para auxiliar o tratamento, melhorando a disposição do animal e corrigindo problemas de ansiedade e sono/vigília. Mas terapias alternativas também estão disponíveis, e uma das que se destaca é a acupuntura. Ela melhora os transtornos cognitivos e circulatórios, e retarda a progressão da doença.

Exercícios físicos devem fazer parte do protocolo padrão de tratamento da Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina. Ao fazer caminhadas diárias, os cães são estimulados física e psicologicamente. O exercício físico melhora a circulação sanguínea cerebral e o desempenho cognitivo; além disso, ao ver, ouvir e cheirar novos ambientes, o cão tem as suas funções cerebrais estimuladas, e o seu relacionamento com o tutor, fortalecido. Tudo isso ajuda a aliviar e retardar os sinais da SDC.

Por fim, quando o cão está em casa também é possível estimulá-lo através do chamado enriquecimento ambiental. Isso é feito por meio de jogos e brinquedos interativos específicos para cães. Existem, por exemplo, bolinhas furadas com petiscos dentro para o cão tentar pegar, ou jogos que escondem bolinhas ou bichinhos para motivar os cães. Toda forma de interação é válida, por manter o cão com o corpo e a mente ativos. No vídeo abaixo, um tutor ensina a sua cadela de 15 anos, quase cega, a brincar com brinquedos interativos. O vídeo é em inglês, mas é possível entender mesmo sem falar a língua. Para os aumigos que quiserem tentar usar este tipo de brinquedo, temos apenas duas pequenas observações: (1) pergunte ao seu veterinário se o seu cão pode comer o petisco que está sendo oferecido – alguns cães podem ter restrições alimentares; e (2) cuidado com excessos, para não engordar o seu peludo!

 

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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