Treinamento sanitário para cães idosos

Ao contrário da crença popular, cães idosos são, sim, plenamente capazes de aprenderem coisas novas. Apesar de poder haver alguma dificuldade “extra” em relação aos filhotes – especialmente se o cão sofrer de Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina, também conhecida como o “Alzheimer” dos cães -, em geral um número maior de repetições no treinamento resolve o problema. Há casos inclusive em que o cão idoso consegue aprender mais rápido do que os filhotes, devido à sua maior capacidade de concentração.

Apesar de ser possível, a maioria das pessoas não se preocupa em treinar seus cães idosos, visto que geralmente já estão com aqueles animais há anos, e já aprenderam a lidar com eles da forma como são: sejam eles treinados, adestrados, ou não. O “adestramento”, ou “treinamento” positivo para cães idosos pode ser benéfico como forma de estimulação física e mental, mas não é a única forma de fazer isso: outras atividades de interação com o tutor – brincadeiras, busca de objetos, passeios, etc., podem ser igualmente estimulantes para o cão e também colaboram com a sua saúde.

Vemos, então, que na maioria dos casos, não é necessário se treinar um cão idoso. Mas esta necessidade pode surgir, por questões higiênicas ou mesmo de saúde para o cão. Por exemplo:

  • Por sofrer da Síndrome da Disfunção Cognitiva, alguns animais podem “perder” o seu treinamento sanitário, e passar a urinar e a defecar em locais impróprios;
  • Cães que moram em apartamento e precisam aguardar a hora do passeio para fazerem as necessidades podem sofrer muito se tiverem insuficiência renal crônica, diabetes, ou outros problemas que levem a um aumento da frequência das idas “ao banheiro”: eles podem passar a urinar em locais inapropriados, ou pior – podem reter a urina por tempo demais, agravando ainda mais a sua doença e prejudicando o seu bem estar;
  • Os tutores podem precisar se mudar de uma casa para um apartamento;
  • Os tutores podem precisar se mudar de um apartamento para uma casa; etc.

Nas situações acima, especialmente no caso do cão que sofre de doenças que aumentam a frequência da micção, o treinamento sanitário se torna primordial. Não é justo obrigar um cão que precisaria urinar, cinco, seis vezes ao dia ou até mais, a esperar seu tutor voltar do trabalho no fim da tarde para só então poder se aliviar! Além de ser desconfortável, isso é muito prejudicial à sua saúde.

Então, vamos à parte prática, começando pelo mais fácil:

Tutores que precisam se mudar de apartamento para casa

Geralmente, não há qualquer dificuldade aí. Os cães são naturalmente atraídos a lugares com superfícies absorventes (terra, grama,… e sim, tapetes também) para fazerem as suas necessidades. Por esta razão, um cão que foi criado em apartamento normalmente não precisa de treinamentos adicionais quando vai morar em uma casa: basta que tenha livre acesso a uma área externa gramada (ou pelo menos, com terra), que normalmente ele irá por si só preferir aquele lugar para fazer suas necessidades.

cão andando na grama

Imagem: Nikoretro – em Flickr

Claro que acidentes podem acontecer, especialmente enquanto o animal ainda não está familiarizado com o novo ambiente, ou se ele tiver dificuldade de locomoção ou para enxergar. Para estes casos, use as instruções da próxima seção.

Tutores que precisam mudar de casa para apartamento ou cães que só fazem as necessidades fora do apartamento

A lógica do treinamento é a mesma utilizada para filhotes, podendo ser adaptada em alguns aspectos conforme as necessidades do cão.

Basicamente, se “flagrar” o cão fazendo no lugar errado – em geral, porque ainda não conhece o lugar certo -, diga “não” bem firme e leve-o ao local correto para que termine o seu “serviço” lá. Se ele for fazendo no caminho, azar… mostre o lugar certo e limpe a bagunça. Se ele segurar, e terminar no lugar certo, elogie e recompense da forma que melhor funcionar para o seu cão (carinho, petiscos, brinquedo, etc.).

Uma coisa que ajuda no treinamento, se o tutor tiver esta disponibilidade de tempo, é passar alguns dias sempre por perto do cão para observar o seu comportamento, e assim identificar quando ele está se preparando para fazer xixi ou cocô. Ao observar que o cão está se preparando, basta levá-lo ao local determinado e aguardar. Assim que ele terminar, é só recompensar!

Se o cão costumava esperar a hora do passeio para se aliviar, se possível o passeio deverá ser “cortado” durante o período do treinamento. Isso porque muitos cães, após serem treinados desta forma, entendem que não devem nunca fazer as necessidades dentro do apartamento – então, por mais que demore, irão esperar pelo passeio. Se não houver passeio, ele precisará eventualmente fazer no apartamento, e então é possível a reeducação.

Para estes cães, o condicionamento ao qual já estão acostumados pode ser usado a seu favor: nos horários usuais dos passeios, coloque a coleira nele e prepare-o para sair. Mas, ao invés de sair de casa, use a guia para levá-lo ao novo lugar de fazer as necessidades e aguarde. Se ele fizer, agrade e comemore (e aí sim, se desejar, pode levá-lo para passear!). Provavelmente ele irá resistir na primeira ou segunda vez, mas rapidamente ele entenderá que aquele é o novo “lugar certo”. Possivelmente, este é um dos condicionamentos mais difíceis de mudar no cão, mas é muito importante se o tutor não tiver a possibilidade ou a disposição de sair com o seu cão com a frequência que ele precisa.

Escolhendo o “lugar certo”

O “lugar certo” deve ser facilmente acessível pelo cão a todo momento. Em geral, eles não gostam de fazer as necessidades no lugar onde dormem, então o ideal é que sejam lugares separados. Se for inevitável utilizar o mesmo ambiente para as duas coisas, procure manter o local sempre limpo e desinfetado, e evite que o jornal ou a outra superfície absorvente que for utilizar encoste na caminha.

Se o cão tiver dificuldade de locomoção e o apartamento for muito grande, pode ser interessante – se isso for possível – disponibilizar mais de um lugar pela casa para que ele possa se aliviar. Outra opção, ainda, é levá-lo ao “lugar certo” em horários predeterminados, até que ele compreenda e passe a ir por conta própria.

Escolhendo a superfície

Este detalhe é muito importante, especialmente para cães que estão acostumados a fazer suas necessidades do lado de fora. Os cães naturalmente procuram superfícies absorventes para fazerem xixi – daí a preferência de muitos pelos tapetes amados de seus tutores e tutoras!

  • O jornal velho, que costuma ser a opção número 1 de todos os tutores, não é exatamente uma superfície absorvente. Ele até absorve a urina, porém isso leva bastante tempo – e o cão vai molhar as patas, algo que ele não quer! Como a experiência demonstra, muitos cães se adaptam a este tipo de superfície, porém na maioria dos casos, estes animais são treinados assim desde filhotes. Os cães que costumam utilizar a grama têm mais dificuldade em se adaptar, e outras opções podem ser necessárias.

 

pilha de jornais - treinamento sanitário

 

  • Os tapetes higiênicos são bem absorventes e práticos. Ao contrário do jornal, não deixam a urina passar para o chão, e por isso o ambiente fica mais limpo e com menos cheiro. Podem ser colocados dentro de bandejas sanitárias ou diretamente sobre o chão. São de mais fácil aceitação pelos cães, mas têm a desvantagem de serem mais caros que a opção anterior, chegando a ser inviável para alguns tutores.
  • As bandejas sanitárias são bandejas plásticas com grades em cima, feitas especialmente para este fim. Algumas inclusive vêm com acessórios, como “postes” para cães machos. Dentro delas, geralmente se utilizam tapetes higiênicos que devem ser trocados periodicamente (pode-se usar jornal, mas a urina vai acabar passando para o plástico, que pode ficar impregnado com o cheiro). Além de serem fáceis de limpar, são facilmente identificados pelo cão, o que facilita que ele continue usando o seu “banheiro” mesmo em viagens ou outros locais que não conhece. Como desvantagem, temos que nem todos os cães se adaptam às bandejas, e também que elas são apenas para cães pequenos. O custo também pode ser um fator importante.
  • Grama natural. Sim, você leu direito! Você pode colocar grama natural dentro do seu apartamento para o seu cão fazer as necessidades, mesmo sem ter um canteiro. Idealmente, ela deve ficar em uma sacada ou superfície bem ventilada e com luz solar, para maior durabilidade. Forre uma superfície com lona, plástico, ou outro material impermeável. Cubra com papelão (não é obrigatório, mas recomendável para facilitar a remoção e limpeza), e então coloque a grama por cima. É possível comprar “quadradinhos” de grama em floriculturas e lojas de jardinagem a preços bem baixos. Coloque “quadradinhos” o suficiente para que o seu cão consiga pelo menos ficar com as quatro patas sobre a grama. Os cães adoram esta opção, e se adaptam com bastante facilidade a ela. Recolha as fezes diariamente, e troque a grama a cada 10 – 15 dias, conforme a necessidade (quando for trocar, não esqueça de lavar o chão que estava embaixo, claro). Na nossa experiência, funciona muito bem e é uma opção super barata. A desvantagem é que é preciso comprar a grama periodicamente em lojas especializadas, e a troca em si é um pouco trabalhosa.
  • Grama artificial. Agora já há em pet shops e lojas especializadas um tipo de grama artificial para cães de apartamento. Não temos experiência com este tipo de material, mas ideia é bem interessante, pois nos parece que seja bem mais fácil de higienizar (como dissemos, a troca da grama natural é um pouco trabalhosa) e não é preciso ficar repondo. Tem para todos os tamanhos. Se os cães aceitarem bem, pode ser até melhor do que usar a grama natural (ei, você que está lendo já usou este tipo de grama para o seu cão? conte-nos como foi!).

Condições especiais de treinamento

cão em cadeira de rodas - xixi

Imagem: MCapdevilla – Wikipedia

  • Cães cegos devem ser sempre levados ao lugar certo pelo chão – se forem levados no colo, não saberão para onde estão indo e não aprenderão. Se facilitar, durante o período do treinamento pode-se deixar o cão com coleira o tempo todo, bastando engatar uma guia na hora de levá-lo. Se ele escutar bem ou de outra forma atender aos seus comandos, você pode optar por guiá-lo pela voz ou atraindo-o com a sua mão. O treinamento dos ceguinhos pode demorar um pouco mais, pois eles precisam de tempo até se familiarizarem com o local e formarem um “mapa mental” da nova casa.
  • Cães surdos, se não forem cegos, a princípio não têm grandes dificuldades no treinamento. Eles apenas não ouvirão o “não” quando fizerem as necessidades no lugar errado, então utilize gestos com as mãos na frente dele para chamar a sua atenção.
  • Cães com problema de locomoção, especialmente quando sozinhos, devem ficar em locais mais próximos dos seus “banheiros”. Se o tutor estiver por perto, não há problema em deixar que vão mais longe, mas é importante prestar atenção aos sinais deles para poder auxiliá-los no caso de necessidade.
  • Cães com paralisia podem precisar usar fraldas, durante a noite e nos momentos em que estão sozinhos, independentemente de viverem em casa ou apartamento. Existem fraldas próprias para cães, mas, dependendo do tamanho do cão, também podem ser adaptadas fraldas infantis – basta fazer um furo para passar a cauda.

Agora, você já sabe como reeducar o seu cão velhinho! Com bastante dedicação, é possível completar o treinamento sanitário do seu idosinho em menos de duas semanas, e assim dar mais qualidade de vida para ele. Boa sorte!

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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