A dieta dos nefropatas - Meu Cão Velhinho

A dieta dos nefropatas

Parte importante do manejo do paciente com insuficiência renal crônica ( nefropata  ) são os cuidados com a dieta.

A dieta diferenciada destes pacientes visa a prevenir ou amenizar os sinais da uremia (quando o paciente fica intoxicado, devido ao mau funcionamento dos rins), minimizar os aumentos ou diminuições de minerais no sangue, deter ou retardar a progressão da insuficiência renal crônica, e, claro: manter a nutrição adequada.

poodle tomando soro - nefropata

Idealmente, a dieta deve ser individualizada, com base nas alterações que o veterinário encontrar durante os exames clínicos e laboratoriais. No caso da insuficiência renal crônica, é importante reduzir o consumo de proteínas (apenas reduzir, mas não eliminar), repor vitaminas e cálcio, e prevenir o acúmulo de fósforo e de sódio no sangue, além de manter o potássio em níveis aceitáveis. Vamos entender?

  • As proteínas, ainda que essenciais para o bom funcionamento do organismo, deixam resíduos após serem “processadas”. Estes resíduos são a uréia e a creatinina. Os nomes parecem familiares? Quem tem um cãozinho com insuficiência renal em casa sabe que o veterinário fica sempre atento a estes dois itens quando pede exames de sangue. É porque, quando os rins não funcionam direito, eles não conseguem eliminar estas substâncias como deveriam. Quando elas aparecem aumentadas no exame de sangue, temos o que chamamos de azotemia. A azotemia causa diversos sinais nos animais, como vômito, anorexia, depressão, úlceras, e até mesmo problemas neurológicos – a este conjunto de sinais, quando causados pela azotemia, chamamos deuremia. Um cão pode ter azotemia sem estar com uremia. Este é um paciente que está sob controle. O que procuramos, ao diminuir a quantidade de proteínas na dieta, é fazer com que menos destes resíduos fiquem acumulados no sangue. Assim, teremos pacientes nefropatas com exames próximos dos normais, e com menores chances de entrar em uremia. É essencial que a proteína oferecida a estes pacientes seja de alta qualidade, para que possa haver o máximo aproveitamento deste nutriente.

o   Observação importante: o alto nível de proteínas na dieta de um cão saudável não prejudica os rins!

  • O cálcio, o fósforo, e as vitaminas são substâncias muito importantes para qualquer ser vivo. Mas é essencial que estejam nos níveis corretos. Um cão que esteja com IRC (insuficiência renal crônica) perde muitas vitaminas e cálcio na urina. De forma bem simplificada, o nosso organismo costuma sempre tentar equilibrar os níveis de cálcio e de fósforo entre si. Por conta disso, quando há muita perda de cálcio, os níveis de fósforo tendem a ficar demasiadamente elevados. Isso faz com que os ossos sejam desmineralizados, tornando-se mais frágeis, e podem se formar depósitos de minerais em tecidos moles – como no coração, fígado, e outros órgãos vitais. Para controlar este problema, além de uma suplementação alimentar bem cuidadosa, costumam-se utilizar os chamados quelantes, que são medicamentos que reduzem a absorção de fósforo (dos alimentos) pelo intestino. Isso ajuda a manter os níveis de fósforo dentro da normalidade.
  •  O sódio é essencial para o controle da pressão sanguínea, e da pressão osmótica dentro dos vasos. Os pacientes com IRC não conseguem eliminar a quantidade correta de sódio, de modo que este fica acumulado. Isso faz com que a pressão sanguínea fique elevada (o que é prejudicial principalmente aos pacientes com problemas cardíacos, que podem entrar em crise cardíaca) e que ocorra desidratação tecidual (a água passa dos tecidos – por exemplo, dos músculos e do cérebro para os vasos sanguíneos). Quando os tecidos ficam desidratados, eles podem sofrer sérios danos. No caso do cérebro, por exemplo, o animal pode apresentar problemas neurológicos – inclusive convulsões e morte. Para prevenir estes problemas, o cão deve ser mantido sempre bem hidratado, e a sua dieta deve ter reduzidos níveis de sódio.

Tábua com legumes

 

o   Importante observar que os níveis de sódio devem ser apenas reduzidos, mas não excluídos da dieta. Uma dieta completamente sem sódio, além de ser pouco atrativa para o animal, pode fazer com que a pressão sanguínea caia demais. A pressão muito baixa causa ainda mais danos renais, podendo levar o paciente a entrar em crise urêmica.

  • O potássio pode estar em níveis aumentados ou diminuídos. Nos pacientes que tomam certas medicações diuréticas ou anti-hipertensivas, pode haver grande perda de potássio pela urina.  Se o potássio atingir níveis muito baixos, o cão entrará em anorexia, e pode não voltar a se alimentar voluntariamente até que isso seja corrigido. O nível de potássio aumentado também é perigoso, mas apenas ocorre nestes pacientes quando estão em estágios muito avançados de insuficiência renal, se estiverem em acidose, ou se entrarem em insuficiência renal aguda (com pouca ou nenhuma produção de urina). O nível de potássio na dieta, a princípio, deve ser normal, mas pode variar conforme cada paciente.
  • Por fim, os teores de gordura também devem ser controlados, já que a maioria dos pacientes com IRC acaba desenvolvendo hiperlipidemia (altos níveis de gordura no sangue) e hipercolesterolemia (alto colesterol). A hiperlipidemia pode danificar ainda mais os rins, agravando o problema já existente. Mesmo assim, um pouco de gordura acaba sendo necessária, para que se possa suprir as necessidades calóricas do animal e para tornar a dieta mais palatável.

Como se pode ver, são muitos fatores a serem levados em conta na hora de se desenvolver uma dieta especial para pacientes nefropatas. O problema maior dessa dieta, além da sua complexidade, é que ela geralmente é pouco atrativa para os cães. Carnívoros por natureza, os cães não aceitam muito bem as dietas de baixa proteína. Isso deve ser compensado com a adição moderada de gorduras.

O apetite do animal deverá ser observado de perto pelo tutor, que deverá entrar em contato com o médico veterinário responsável sempre que perceber alterações. A falta de apetite pode estar relacionada tanto ao sabor dos alimentos quanto à descompensação do problema renal. Caso o problema seja o sabor dos alimentos, pode-se tentar oferecer novas marcas de rações especiais, ou, se for o caso, trocar os ingredientes da dieta caseira (sempre com o aval do seu veterinário).

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.