Faça Amor, Não Faça Guerra…

Um problema não muito raro que os tutores vêm nos apresentar é: como lidar com cães que brigam?

Assim como os seres humanos, os cães nem sempre se dão bem quando colocados para viver juntos. Este problema é mais comum ainda quando os animais são do mesmo sexo, e pode ter inúmeros “gatilhos”. O simples fato de serem dois machos ou duas fêmeas, por exemplo, já aumenta bastante a probabilidade de uma briga acontecer. Mas só isso não é suficiente para causar os confrontos – sempre há algo a mais…

O Limiar da Agressão

Toda briga é o estopim de uma situação estressante que já vinha acontecendo há algum tempo. Fazendo uma comparação com humanos, podemos pensar em casos de pessoas que decidem perseguir, agredir, e até matar alguém que os “fechou” no trânsito. É um problema clássico de “raiva da estrada”, conhecido em inglês como “road rage”. Uma pessoa que sofre de “raiva da estrada” tem um problema psicológico claro. E este problema não foi causado pelo indivíduo que a fechou no trânsito, mas por inúmeras circunstâncias da vida que a mantém estressada constantemente. O “ser fechado” foi apenas um gatilho, que despertou a sua ira e fez com que a pessoa decidisse descontar toda a sua raiva em um total desconhecido – que nem lhe fez tão mal assim…

Da mesma forma, um cão que esteja estressado precisa apenas de um gatilho para que este estresse se transforme em agressão. Cada indivíduo tem um limite de estresse que é capaz de suportar “pacificamente”. Passado este limite, pequenos gatilhos – ou seja, pequenos fatores estressantes, aparentemente até insignificantes -, podem despertar a agressividade. Chamamos isto de “limiar da agressão”. A partir daí, um “olhar errado”, uma aproximação inesperada ou não muito bem vinda, e todo tipo de interação pode virar motivo de briga. Parece familiar?

Fatores Estressores

A maior parte dos problemas de comportamento canino está relacionada ao estresse, e as brigas não são exceção. Mas que estresse poderia ser este? Se o seu cão tem amor, carinho, comida e saúde, será que ele tem algum motivo para estar estressado?

Sim, ele pode ter. E um dos motivos mais comuns é a falta de exercícios. Cães são nômades, e precisam se exercitar – faz parte da natureza deles. O ato de caminhar os ajuda a liberar o estresse e a energia acumulada, tornando-os mais felizes e equilibrados. Um quintal grande não substitui a necessidade de passear com os cães; e o fato de um cão ser pequeno também não faz com que ele não precise ser exercitado.

Outro fator estressor é a possessividade; ou, melhor colocando, a necessidade de proteger os seus “recursos”. Por recursos, aqui, vamos entender como, basicamente, qualquer coisa que o cão considere como “sua”, e que ajude a suprir as suas necessidades. Pode ser comida, água, um brinquedo, um espaço (a caminha, a passagem por uma porta ou corredor, o sofá, etc.), e até mesmo o afeto do tutor. Ou o próprio tutor.  Isso explica porque a maioria das brigas entre cães acontece na presença do tutor. O cão pode sentir que precisa proteger o que lhe pertence, garantindo assim, a sua sobrevivência e bem estar. Ele não sabe, e não quer “dividir”.

Cão protegendo osso

Cães podem brigar para defender os seus “pertences”. Imagem: All Star Dog Trainers

A movimentação de pessoas, animais, e carros na rua podem também estressar um cão. Novamente, seus instintos protetores o levam a defender o seu território. Por isso, ele late e tenta afastar os potenciais “invasores”.

Outras experiências que o cão possa considerar como desagradáveis ou assustadoras são também consideradas fatores estressores. Pode ser uma visita ao veterinário, uma viagem de carro, um banho ou um corte de unhas, e até mesmo sons altos, tais como trovões ou fogos de artifício. O toque da campainha pode gerar ansiedade, já que “alguém” desconhecido está prestes a invadir o seu território. Ainda na linha de experiências desagradáveis ou assustadoras, as dores crônicas causadas por atrose, otites recorrentes, e outras doenças, são definitivamente fatores estressores.

Por fim, o próprio companheiro canino pode ser visto como um fator estressor. Tal como acontece com humanos, os animais também podem não ter afinidade. Ou, ainda, pode ser que um dos cães seja um filhote que incomoda muito o cão adulto ou idoso, que já se considerava o “dono do pedaço”, e acaba se irritando com o novo morador.

Os fatores estressores podem acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar. Normalmente, o que faz com que um cão atinja o seu limiar da agressão é uma combinação de diversos destes fatores.

Os Gatilhos

Os gatilhos são acontecimentos pontuais, que acabam por desencadear as agressões. Geralmente, eles são bem claros para um observador atento. É o que acontece nos momentos que antecedem a briga. Por exemplo, um cachorro que esteja roendo um osso pode considerar que a aproximação de outro cão seja uma ameaça à sua “propriedade”. Então, ele irá, num primeiro momento, rosnar para avisar que o quer ali. Em condições “ideais”, o outro cão irá embora. Mas ele pode não ir, seja porque não prestou atenção, porque é surdo, ou até mesmo porque resolveu responder a agressão. E, aí, a briga começa.

O ataque as vezes pode parecer totalmente aleatório, mas, geralmente, não é. O gatilho pode ser, por exemplo, o fato de que o outro cão se aproximou de VOCÊ. Ou, pior: pode ser que você tenha interagido ou feito carinho nele. Ultrajante! O cachorro não quer dividir a mamãe ou o papai dele com outros cães.

O tutor pode ser um gatilho ainda em outras situações. Se não houver uma relação de liderança bem definida, os cães podem se sentir um pouco “perdidos” em relação à hierarquia da casa na presença do tutor. Eles não têm certeza de quem é o líder e nem do que devem fazer, por isso brigam numa tentativa de resolver o dilema.

Um cão com dores crônicas pode atacar outro animal que se aproxime ou esbarre nele não intencionalmente, pois isto lhe causa dor. Seria, basicamente, uma reação de defesa. No outro extremo, cães surdos ou cegos facilmente se tornam alvos de agressão, pois podem não identificar sinais de aviso de outros cães e ignorá-los.

O Papel e a Responsabilidade do Tutor

A maioria das brigas entre cães pode ser evitada se o tutor assumir o seu papel de líder. Estudiosos do comportamento animal constataram que, nos lares onde os cães brigam entre si, geralmente não há uma estrutura de liderança e uma rotina bem estabelecidas.

O primeiro passo para solucionar conflitos entre cães é, portanto, que o tutor realmente assuma as rédeas da situação. Ele pode fazer isso com treinamentos de obediência básica. Os cães vêm imediatamente quando chamados, mesmo se estiverem excitados? eles respondem prontamente a todos os comandos aprendidos? eles são capazes de caminhar ao lado do tutor durante todo um passeio, sem perderem o foco com outros cães ou outras distrações? Se você respondeu “não” a qualquer uma destas perguntas, então já tem por onde começar. Obediência básica.

Com os cães devidamente educados e treinados, outra recomendação é levá-los para caminhar diariamente. Preferencialmente, juntos e guiados pelo mesmo tutor. Logicamente, para isto ser possível, os animais já precisam estar devidamente treinados. Os passeios bem estruturados irão reduzir o estresse dos animais e fortalecer a liderança do tutor, ao mesmo tempo em que criam experiências positivas para os cães. Quanto mais experiências positivas eles tiverem juntos, melhores as chances de que as brigas parem.

Mulher passeando com cães ao por do sol

Passear com os cães juntos fortalece o vínculo de liderança do tutor, e melhora o relacionamento entre os animais.

Dentro de casa, é recomendável que seja criada uma rotina muito bem estruturada, e relativamente rígida num primeiro momento. Os cães passam a desempenhar funções, e a precisar “merecer” cada um dos seus “recursos”. Por exemplo, quando um humano entra na casa, os cães podem precisar aguardar num determinado local da casa até que a pessoa os chame. Eles devem se sentar disciplinadamente para aguardar a refeição ou qualquer petisco – e as refeições devem ser servidas apenas em horários determinados. Na hora em que os humanos vão assistir TV, ou se alimentar, novamente deve haver uma postura esperada dos cães.

Este “regime militar” acima pode ser temporário, mas ele é importante para dar aos cães um foco, algo em que se concentrar, ao mesmo tempo em que fortalece a liderança dos tutores. Com a mente ocupada e uma “missão” a cumprir, a chance de brigas diminui muito. Se assim desejarem, depois que o problema já estiver resolvido, os tutores podem relaxar um pouco as regras e manter apenas as mais essenciais – como a “etiqueta” na hora das refeições, e o bom comportamento nos passeios. Mas alguma estrutura será sempre necessária.

Reduzindo os Fatores Estressores

Além de estabelecer uma sólida relação de liderança, os tutores devem se preocupar também em reduzir ou eliminar os fatores estressores. Dores crônicas e infecções devem ser tratadas, e punições físicas ou verbais devem ser eliminadas. Se um filhote perturba demais o animal mais velho, então este filhote deve ser devidamente educado. E, na ausência dos tutores, pode ser interessante até mesmo separar os animais para “dar uma folga” para o mais velho – pelo menos enquanto o filhote não aprende a se comportar.

Em relação a fatores que não podem ser eliminados, o que se pode fazer é tentar dessensibilizar o animal, ou até mesmo criar uma associação positiva com eles. Se o cão não gosta de andar de carro, de tomar banho, de ir ao veterinário, ou se assusta com trovões e fogos de artifício, deve-se procurar recompensar o animal e tentar tornar estas experiências sempre tão positivas quanto for possível.

Se o cão simplesmente não tolera o seu companheiro canino, também é possível criar uma associação positiva:

  • Comece mantendo os animais separados a uma distância segura, em que o cão agressor considere “aceitável” a presença do outro. Cada cão deve estar preso em uma coleira, com um humano responsável. Assim que cada cão perceber a presença do outro, ambos deverão ser recompensados (com pedacinhos de frango ou outro petisco).
  • O cão “agredido” deve então “sair de cena” com o seu condutor, e, neste momento, o agressor deve parar de ser recompensado.
  • Quando o cão agredido voltar, a recompensa deve voltar também imediatamente. O processo deve ser repetido tantas vezes quantas forem necessárias para que ambos os cães, ao verem o outro, olhem imediatamente para os seus condutores, procurando a recompensa.
  • O tempo de “exposição” deve ser aumentado gradativamente, e, depois, aos poucos, a distância deve ser diminuída, até que ambos os cães fiquem felizes um ao lado do outro.
  • Finalmente, quando ambos conseguirem ficar “bem” na presença um do outro, procure engajá-los em atividades positivas, como caminhadas, passeios de carro (se eles gostarem), e até mesmo para nadar.

Recompense também o cão por aceitar que você interaja com o outro, para que a presença do outro animal seja vista de forma positiva.

Se estiver inseguro quanto às reações dos cães nas suas primeiras interações, você pode optar por colocar focinheiras neles, evitando assim que eles se machuquem.

Separando os Cães

Separar os cães é uma alternativa menos atrativa, já que não “resolve” as brigas. Apenas evita que os animais se encontrem. O grande problema é que falhas podem acontecer, e os resultados podem ser fatais. Se uma pessoa esquecer a porta aberta, ou se um cão conseguir passar rapidamente para o “território” do outro, a briga será inevitável. O risco é ainda maior se houver crianças em casa, já que elas são mais propensas a esquecerem as portas abertas, e, ainda por cima, podem acabar sendo mordidas.

Idealmente, deve-se tentar realmente solucionar os conflitos de modo que os cães possam conviver pacificamente. Havendo dificuldades, um especialista em comportamento canino bem experiente deve ser chamado para ajudar.

Sinais de Alerta

Cães que sempre conviveram bem podem passar a brigar, se os fatores estressores forem suficientes para superar o “limiar de agressão” de algum deles. Mas, antes de isso acontecer, os cães nos dão alguns sinais. Saiba o que procurar:

  • Lamber os lábios;
  • Cão fica parado, com olhar fixo e pupilas dilatadas;
  • Cauda entre as pernas;
  • Orelhas para trás;
  • Pelos eretos nas costas (piloereção);
  • Rosnar;
  • Postura semi-abaixada, posição de ataque.

Cão com piloereção indica estresse e possível reação agressiva. Imagem:Dr. Barkman Speaks

Se notar quaisquer destes sinais no seu cão, intervenha e interrompa o comportamento imediatamente, antes que uma briga seja desencadeada.

Separando Brigas

Caso uma briga efetivamente ocorra, é possível que um dos cães, ou ambos, saiam gravemente feridos. Conforme o tamanho dos animais envolvidos e a intensidade da briga, ela pode até mesmo ser fatal. Por isso, a intervenção deve ser eficaz e imediata.

Separar uma briga de cães pode ser perigoso e muito difícil. Se houver duas pessoas disponíveis, recomenda-se que cada uma segure um dos cães por trás, levantando os seus membros posteriores.

Havendo apenas uma pessoa, pode-se recorrer, por exemplo, a um barulho alto, como um estouro, uma palma bem alta, ou até mesmo uma buzina a gás. Isto irá distrair os cães por alguns segundos, pois eles instintivamente irão conferir se devem se preocupar com aquele som ou não. Isso dará tempo ao tutor para agir rapidamente, separando os animais. Gritar não irá ajudar, pois os gritos podem ser entendidos como se fossem latidos de mais um cão participando da briga.

Alguns treinadores mencionam o uso de sprays de citronela, ou até mesmo de pimenta, como forma de apartar cães que estejam brigando. Um outro recurso é o “break stick”, um instrumento de madeira (algo como um cabo de vassoura, porém mais resistente) que pode ser usado para abrir a boca de um cão que esteja mordendo o outro, forçando-o a soltá-lo.

Considerando os altos riscos envolvidos para todos – cães e humanos -, as brigas de cães devem ser idealmente evitadas, logicamente. Procure fortalecer a sua liderança e encontrar o equilíbrio para a sua matilha, e não hesite em procurar auxílio profissional se precisar.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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