Caquexia em Cães

A magreza excessiva em um cão pode ser um problema assustador para muitos tutores. Olhares acusadores de conhecidos (e desconhecidos) deixam clara a crença geral de que aquele animal está sendo maltratado, e que não é alimentado. Enquanto é possível que um cão seja vítima de maus tratos e se torne excessivamente magro por falta de alimento, a verdade é que animais amados e bem tratados também podem se tornar caquéticos.

Caquexia x Desnutrição

Caquexia é uma condição em que ocorre muita perda de peso, atrofia muscular e fraqueza. Difere-se da desnutrição, porque dificilmente a caquexia pode ser corrigida com o simples aumento na quantidade e/ou qualidade dos alimentos. Outra diferença importante é que animais que passam fome começam a emagrecer perdendo a gordura corporal, enquanto os caquéticos perdem, ao mesmo tempo, gorduras e músculos.

Na caquexia, mesmo a ingestão adequada de alimentos não é suficiente para que o animal ganhe peso. Para agravar ainda mais o problema, não raro cães com caquexia têm pouco ou nenhum apetite. Este preocupante problema afeta principalmente animais com insuficiência cardíaca, renal, e câncer.

Imagem: Anda

Causas da Caquexia

Doenças crônicas em geral fazem com que o cão fique debilitado através dos seguintes mecanismos:

  • Anorexia: a perda do apetite pode estar relacionada à dor, náusea, não aceitação da dieta apropriada para a doença (dietas com poucas proteínas para doenças renais, ou com pouco sódio para doenças cardíacas), e até mesmo a alterações bioquímicas que diminuem a sensação de fome;
  • Bloqueios físicos à alimentação: tumores em boca, língua, e esôfago podem atrapalhar a ingestão ou deglutição dos alimentos.
  • Vômito e diarreia: a insuficiência renal crônica, alguns tipos de tumores, e outras doenças crônicas podem causar vômitos e/ou diarreia, dificultando o bom aproveitamento dos alimentos eventualmente ingeridos.
  • Aumento do metabolismo: o corpo consome mais energia do que o habitual. No caso do câncer, por exemplo, as células cancerosas não apenas consomem mais calorias, como também usam proteínas (dos músculos) como fonte de energia. Já nos cães com caquexia cardíaca, ocorrem alterações inflamatórias em que as células começam a se autodestruir, consumindo também grandes quantidades de energia.

Diagnóstico

Mesmo cães que eram obesos podem entrar em caquexia, sendo preocupante qualquer redução no peso corporal que seja igual ou superior a 10% sem causas aparentes (por exemplo, um cão de 10Kg perdeu 1Kg). A identificação precoce da caquexia e da sua causa são fundamentais para o sucesso do tratamento. Desta forma, se o animal não estiver em um plano de emagrecimento e começar a perder peso, ele deve ser levado ao médico veterinário para ser examinado o quanto antes possível.

Tratamento

Mais do que simplesmente “dar uma vitamina” para um cachorro que esteja emagrecendo aparentemente sem motivo, é preciso, antes de mais nada, sabermos o porquê desta perda de peso. Antes de mais nada, quaisquer doenças que forem identificadas devem ser tratadas: infecções, verminoses, insuficiência cardíaca, renal ou hepática, e até mesmo cânceres, devem receber a devida atenção. Enquanto a doença primária não for tratada, o cão não voltará a ganhar peso.

Considerando que a doença já tenha sido identificada e tenha sido tratada ou esteja em tratamento, devemos focar então na dieta do cão:

  • Gorduras: as gorduras são palatáveis (gostosas) e altamente calóricas. Isso ajuda a combater a caquexia em duas frentes: (1) melhorando o apetite e (2) aumentando a ingestão de calorias mesmo quando apenas pequenas quantidades de alimentos são consumidas;
  • Proteínas: à exceção dos cães com insuficiência renal, os animais que estejam em processo de caquexia devem receber dietas ricas em proteínas. Além de que as proteínas também são atrativas para os cães, melhorando o consumo de alimento, elas também ajudam a compensar as perdas musculares;
  • Carboidratos: diferentemente das gorduras e proteínas, os carboidratos devem ser reduzidos especialmente nas dietas para cães que tenham câncer. Isso porque as células cancerosas usam preferencialmente o açúcar (proveniente de carboidratos simples, como massas e pães) para se alimentarem. Então, teoricamente, ao reduzir a energia disponível para elas, estamos limitando o seu crescimento. Os carboidratos utilizados devem ser preferencialmente de baixo índice glicêmico, como frutas e cereais integrais.
  • Suplementação:
    • Ácidos graxos ômega 3 e 6: diminuem a inflamação causada pela caquexia cardíaca, e parecem inclusive afetar diretamente as células cancerosas.
    • Aminoácidos: alguns aminoácidos ajudam a melhorar o apetite e a estimular o sistema imunológico do cão. É importante ser cauteloso em relação a cães com insuficiência renal.

Em alguns casos, estimulantes do apetite podem ser usados para que o cão se alimente melhor. Aquecer o alimento e aumentar a sua umidade também aumentam o seu consumo significando que idealmente os cães em caquexia devem receber uma alimentação caseira (devidamente prescrita pelo médico veterinário ou um nutricionista veterinário). Se não for possível, prefira alimentos comerciais úmidos e próprios para cães com anorexia (Hill’s A/D) ou específicos para a doença que acomete o seu animal (rações cardíaca, renal, hepática, etc.).

A alimentação forçada, ou via sonda, também é uma alternativa especialmente em momentos de crise para evitar que o cão entre num estado de fraqueza irreversível.

A nutrição parenteral (alimentação pela veia) deve ser reservada para casos extremos em que o animal esteja internado e sem a possibilidade de se alimentar por via oral ou sondagem (porque vomita todo alimento ingerido, por exemplo). Ela não é suficiente para combater a caquexia, sendo considerada uma medida emergencial. A melhor forma de se alimentar um cão é sempre por via oral.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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