Como tratar cardiopatias de forma natural

Você sabia que a dieta é um dos componentes mais importantes no tratamento das doenças cardíacas? e que, com uma nutrição adequada, é possível não apenas melhorar a qualidade de vida do seu cão, como reduzir as quantidades de medicamentos necessárias e prolongar a sua vida?

Quando um cão tem insuficiência cardíaca, numa tentativa de manter a pressão arterial e a perfusão tecidual (ou seja: fazer com que o sangue chegue em todos os lugares), o seu corpo ativa mecanismos que são chamados compensatórios, que nada mais são do que tentativas de “compensar” um desequilíbrio com outro. No caso da insuficiência cardíaca, o coração não consegue mais bombear o sangue adequadamente para todo o corpo; para tentar fazer com que o sangue chegue a todos os lugares do corpo, um sistema complexo faz com que o coração bata mais rápido (taquicardia), as artérias fiquem mais estreitas (vasoconstrição) para aumentar a pressão sanguínea, e ocorra a retenção de sódio (sal) e de água. O resultado deste mecanismo, inteligente e eficaz a curto prazo, porém extremamente danoso a longo prazo, é que o sangue passa a circular mais rapidamente, com maior pressão, e em maior volume.

O problema é que as doenças cardíacas não são de “curto prazo”, muito pelo contrário; e a consequência disso é que o mecanismo que deveria ajudar o corpo a funcionar melhor, na verdade acaba por sobrecarregar ainda mais um coração que já não estava dando conta do recado – afinal, agora ele precisa bombear mais sangue, mais rapidamente, e com maior pressão. A médio/ longo prazo, este mecanismo compensatório se torna bastante prejudicial ao organismo, e, além de agravar a própria doença cardíaca, levando a complicações como dificuldade respiratória e edema pulmonar, ainda pode causar problemas renais.

cão deitado - cardiopatia

E o que a dieta tem a ver com isso tudo? Bom, a chave aqui é o sódio: todo mundo sabe que pessoas com problema de pressão alta não devem consumir alimentos com excesso de sal, pois eles fazem com que a pressão aumente. A mesma regra vale para os nossos amigos cães. Lembra que mencionamos acima, que, numa tentativa de compensar o problema cardíaco, o corpo começa a reter sódio e tentar aumentar a pressão sanguínea? É este o mecanismo que nós temos que deter. Inclusive, boa parte dos medicamentos utilizados no tratamento de doenças cardíacas se presta exatamente a isso: a tentar conter este mecanismo.

Um cão com doença cardíaca deve, portanto, consumir menos sal. Tenhamos claro, aqui, que menos sal não é sinônimo de nenhum sal. A total ausência de sal na dieta também é prejudicial, pois pode, também (adivinha?), ativar os mesmos mecanismos compensatórios que estamos tentando conter. Estranho, mas é verdade: ao notar que o indivíduo não está consumindo sal, o corpo irá se esforçar ao máximo para “segurar” o que tem…

MAS QUANTO SAL?

Infelizmente, ainda não há um consenso quanto a isso. Não estão estipulados, ainda, valores mínimos ou máximos que um cão deve consumir, seja em condições normais, seja com doença cardíaca. Alguns estudos têm sugerido que, para cães com insuficiência cardíaca leve, é indicado que o sódio represente de 0,15% a 0,25% da matéria seca ingerida, e de 0,08% a 0,15% para cães com insuficiência cardíaca avançada.

Para se ter uma comparação com as dietas comerciais específicas para cães cardiopatas disponíveis no Brasil, temos que:

  • A Royal Canin Early Cardiac Canine (seca) contém 0,16% de sódio;

  • A Hill’s Prescription Diet h/d contém 0,08% de sódio;

  • A Equilíbrio  Veterinary Cardiac contém 0,2% de sódio;

  • A Premiatta Canine Cardiac contém 0,06% de sódio;

  • A Premier Nutrição Clínica Cardio Cães contém 0,15% de sódio.

pote de ração

Além dos teores restritos de sódio, as rações comerciais específicas para cães com problemas cardíacos contêm outros nutrientes importantes que ajudam na melhora da função cardíaca, tais como antioxidantes, ácidos ômega 3 (falaremos mais sobre isso adiante), níveis adequados de potássio e magnésio, taurina, maior concentração calórica para prevenir caquexia, etc.

As rações para cães idosos costumam conter alguns destes ingredientes, porém não todos; os teores de sódio nestas rações também variam bastante de uma fórmula para outra, e por isso nem sempre são adequadas para cães com problemas cardíacos. Mesmo assim, como falaremos mais adiante, pode ser uma opção viável para animais em estágios iniciais da doença.

As dietas caseiras também são ótimas alternativas às formulações comerciais, e ainda têm duas grandes vantagens: elas podem ser adequadas para as necessidades específicas de cada paciente, e costumam ser muito mais gostosas! Por outro lado, uma dieta caseira – especialmente para um animal doente – não é sinônimo de alimentar o cão com sobras de comida. Para suprir as necessidades do seu cão cardiopata, você precisará do acompanhamento de um nutricionista veterinário, que irá indicar quais alimentos devem ser dados para o seu cão, e em quais quantias. Os alimentos devem ser frescos, e preparados especialmente para ele. Por esta razão, as dietas comerciais acabam sendo as mais indicadas na maioria dos casos – mas se você está disposto a procurar um nutricionista veterinário e a preparar as refeições do seu animalzinho, com certeza faça isso! Assim ele terá um alimento muito mais apetitoso, e formulado especialmente para as necessidades dele. ATENÇÃO AOS PETISCOS Muita gente esquece de levar em consideração o sódio que está (muito) presente nos petiscos dados aos cães, sejam eles “bifinhos”, ossinhos, biscoitos, “molhos” ou patezinhos adicionados à ração, ou restos de alimentação humana. Ainda que não seja proibido fazer alguns “agradinhos” ao cão cardiopata, lembre-se de que petiscos também são alimentos e também contêm sódio, sendo capazes de, por si só, sabotar toda uma dieta equilibrada (que nem a gente!), seja ela composta por alimentos comerciais ou feitos em casa. Por esta razão, os petiscos devem ser dados com moderação, e preferencialmente devem ser selecionadas opções com menos sal, como frutas ou alimentos preparados em casa com menor quantidade de sal. Se o “agrado” for para melhorar a aceitação da ração, vale a pena tentar outras marcas de ração, ou mesmo passar para a dieta caseira orientada por um nutricionista veterinário. Outra opção ainda é utilizar, como “tempero” para a ração seca, os alimentos úmidos próprios para cardiopatas (como os da Royal Canin e da Hill’s).

E OS OUTROS NUTRIENTES?

Apesar de o sódio ser um dos componentes que mais merecem atenção quando se prescreve uma dieta para um cão cardiopata, ele certamente não é o único. Vejamos aqui alguns deles:

Proteínas

Os cães são carnívoros, e as proteínas são parte importante da sua dieta, especialmente as que contêm aminoácidos importantes, como a taurina e a carnitina. A suplementação destes nutrientes tem se mostrado benéfica em pacientes com doenças cardíacas, com efeito direto na melhoria da expectativa de vida de animais com Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC); inclusive, a carnitina tem efeitos positivos comprovados inclusive em pacientes com problemas renais!

Pote com ração, carne, e pescoço

Com a idade, a capacidade de digerir proteínas tende a diminuir, por isso é importante que as proteínas oferecidas na dieta sejam de alta qualidade e fácil digestão. No caso das doenças cardíacas, o consumo de proteínas se torna ainda mais importante, já que os animais nesta condição tendem a perder massa magra (músculos) e entrar em caquexia. Estudos indicam que alimentos comerciais com um teor de 15 a 23% de proteína na Matéria Seca oferecem quantidade suficiente de proteína aos cães idosos.

A restrição de proteínas apenas é recomendável nos casos de doença renal instalada. A redução na quantidade de proteínas ingeridas em pacientes (cujos rins são) saudáveis não previne ou retarda o eventual aparecimento de doença renal, e pode ter efeitos negativos na saúde do cão.

Gorduras

Apesar de a obesidade por vezes acometer os pacientes idosos, nos cardiopatas muitas vezes o problema acaba se tornando justamente o contrário: a insuficiência cardíaca faz com que o corpo gaste mais energia, e, portanto, não raro estes animais entram num estado de caquexia.

As gorduras aumentam a densidade calórica nos alimentos, ou seja: quando há gorduras, menores quantidades de alimentos contêm mais calorias. Elas também tornam os alimentos mais palatáveis (gostosos). Este detalhe é importante, visto que, com a idade, os cães perdem parte da sua capacidade de sentir os sabores, e seu apetite tende a diminuir (o apetite pode estar aumentado em certas condições, como na Síndrome de Cushing). Assim, as gorduras ajudam o cão a ingerir a quantidade adequada de calorias e a diminuir a chance de que ele se torne caquético.

Ácidos Graxos Ômega 3

Os ácidos graxos ômega 3, presentes, por exemplo, no óleo de peixe, têm demonstrado inúmeros efeitos benéficos em cães cardiopatas: eles ajudam a reduzir a arteriosclerose, a trombose, e a corrigir a hipertensão, arritmias e hiperlipidemia (excesso de gorduras e colesterol no sangue), podendo inclusive diminuir a ocorrência de mortes súbitas por arritmias cardíacas. O óleo de peixe deve ser adicionado à dieta por pelo menos 6 semanas antes de os resultados se tornarem mais evidentes.

Antioxidantes

Os antioxidantes podem ser diversas substâncias, entre vitaminas, minerais, enzimas, e até mesmo os ácidos graxos ômega 3 que citamos acima. Nesta categoria, se destaca a vitamina E, que pode até mesmo ajudar a prevenir doença cardíaca em animais propensos, e a diminuir os efeitos maléficos da ICC.

MEU CÃO TEM UM SOPRO. DEVO COMEÇAR A DIETA ESPECIAL?

Mais um assunto controverso é o momento de se iniciar a dieta específica para cardiopatas. Os estudos indicam que não há benefício em restringir o sódio precocemente – ou seja, se o cão não tem doença cardíaca, diminuir o sódio da dieta dele não irá evitar que um dia ele passe a ter (claro, excessos devem ser evitados). Por outro lado, uma restrição de sódio já no início da doença pode ajudar a retardar a progressão da doença, aliviar os sintomas, e diminuir as doses de medicamentos necessárias.

Ainda que não haja um consenso, podemos considerar que, enquanto o cão for assintomático, não é necessária a dieta especial. Então, mesmo que seja detectada uma arritmia, um sopro, ou até mesmo um aumento do coração nos exames de rotina, não há necessidade de tratamento dietético ou medicamentoso.

medicamentos e vitaminas

Quando o cão começa a demonstrar sinais leves de insuficiência cardíaca, com intolerância a exercícios e cansaço, por exemplo, é que a dieta especial deve ser iniciada. Neste momento inicial, mesmo algumas rações para idosos podem ser suficientes para auxiliar no controle da doença. Converse com o seu veterinário sobre a ração específica que você dá ao seu cão; como existem muitas fórmulas, e nem todas são adequadas para cardiopatas, é importante saber se você pode continuar com a mesma ração ou deve mudar.

Quando os sinais de insuficiência cardíaca se tornam óbvios, especialmente se o cão já chegou a “descompensar” (apresentar ascite ou edema pulmonar, por exemplo) a dieta definitivamente deve ser específica para cardiopatas, seja a ração especial ou a dieta caseira prescrita pelo nutricionista veterinário. Como vimos acima, as diferentes rações especiais contêm diferentes teores de sódio, e por isso algumas podem ser mais indicadas nos estágios mais iniciais da doença, enquanto outras devem ser reservadas para os estágios mais avançados.

Se o seu cãozinho tem insuficiência cardíaca e está em tratamento, não perca tempo: comece logo a dieta dele, e pergunte ao seu veterinário se ele pode se beneficiar com o uso de alguma suplementação. Assim, você irá ajudá-lo a ter mais qualidade de vida por muito mais tempo, e com menos remédios!

O MEU CÃO VELHINHO ADVERTE: a dieta não substitui o tratamento medicamentoso prescrito pelo médico veterinário, ela serve coadjuvante ao tratamento; quando feita corretamente, pode reduzir a necessidade do uso de drogas. Não reduza ou retire medicações sem a devida orientação veterinária.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

Comments are closed