Eutanásia: O Que O Animal Sente?

Mais uma vez, tocamos naquele assunto um tanto quanto desagradável, porém muito importante para todos os tutores: a eutanásia. Já falamos, em artigos anteriores, sobre os fatores que influenciam a decisão do tutor, e como tornar este processo um pouco menos difícil. Hoje, vamos focar no animal.

O termo eutanásia tem origem grega, sendo que “eu” significa “bom”, e “thanatos” se refere à morte. Então, eutanásia seria algo como “boa morte”, ou “morte sem sofrimento”. Mas existe “boa morte”?

Pastor Alemão deitado

A morte em si é um fenômeno que não é totalmente compreendido; por outro lado, a dor, o medo e o sofrimento são sentimentos muito familiares a todos nós. Se partirmos da premissa que os animais são seres sencientes – ou seja, capazes de sentir e sofrer -, devemos nos preocupar com o bem estar deles em todos os momentos. Inclusive na hora da morte.

Quando a Eutanásia é Indicada?

Infelizmente, não temos uma resposta muito direta para esta pergunta. Como já mencionamos no nosso artigo “Aquela Palavra Com E…“, são vários os fatores que influenciam a  tomada de decisão em cada caso.

Mesmo assim, quando falamos em cães e gatos, podemos pensar em uma indicação bem genérica, que se aplicaria a todos os casos. Para isso, usaremos como base a primeira das cinco indicações propostas pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), em seu Guia Brasileiro de Boas Práticas Para a Eutanásia em Animais: “a eutanásia deve ser indicada quando: o bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor e/ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, sedativos ou de outros tratamentos”. 

Daí tiramos a conclusão de que a eutanásia não se presta a “liberar tutores de suas obrigações”, quando os seus animais passam a dar trabalho ou custos excessivos. A eutanásia deve ser vista como o último recurso em termos de bem estar animal. O analgésico final, para acabar definitivamente com o sofrimento.

Possivelmente, ver a eutanásia desta forma facilita um pouco a decisão. Porque não se trata de tirar a vida de um animal, mas sim a sua dor, quando nada mais funciona.

Qual é o Papel do Médico Veterinário?

Um dos papéis do médico veterinário é ajudar a orientar o tutor na tomada de decisão. Com base em seus conhecimentos e experiência, o veterinário pode mostrar quais são as opções disponíveis para aquele animal: os cuidados paliativos, por exemplo, e qual será a sua eficácia na redução da dor e do sofrimento. Ele pode definir o prognóstico, prevendo qual será a possível evolução da doença no cão, incluindo o tempo de vida e os impactos que a enfermidade terá na qualidade de vida dele.

Por outro lado, caso o tutor decida que quer fazer eutanásia no seu cão, o veterinário precisará avaliar se a indução da morte, naquele caso específico, está visando ao bem estar do animal, e se esta é realmente a melhor ou única alternativa possível. Desta forma, é dever ético do médico veterinário se recusar a fazer a eutanásia em um animal que não precise dela. Ele também deve se preocupar em usar técnicas humanitárias, que induzam a morte da forma mais rápida, indolor, e tranquila possível.

Ainda que o veterinário tenha o dever de orientar o tutor, a decisão, em última instância, é do responsável pelo animal. Ninguém deve se sentir “obrigado” a fazer isso se não quiser. E é por isso que o procedimento deve ser sempre autorizado por escrito.

Quais São Os Princípios de Bem Estar Animal Que São Relevantes Para a Eutanásia?

O Guia Brasileiro de Boas Práticas Para Eutanásia Em Animais, publicado pelo CFMV em 2013, estabelece 10 princípios que devem ser seguidos:

  1. Elevado grau de respeito aos animais;
  2. Ausência ou redução máxima de desconforto e dor;
  3. Inconsciência imediata seguida de morte;
  4. Ausência ou redução máxima do medo e da ansiedade;
  5. Segurança e irreversibilidade;
  6. Ser apropriado para a espécie, idade e estado fisiológico do animal ou animais em questão;
  7. Ausência ou mínimo impacto ambiental;
  8. Ausência ou redução máxima de riscos aos presentes durante o ato;
  9. Treinamento e habilitação dos responsáveis por executar o procedimento de eutanásia para agir de forma humanitária, sabendo reconhecer o sofrimento, grau de consciência e morte do animal;
  10. Ausência ou redução máxima de impactos, emocional e psicológico negativos, em operadores e observadores.

Como é Feita A Eutanásia?

O CFMV estabelece como aceitáveis cerca de 20 técnicas de eutanásia, entre métodos físicos ou químicos. Especificamente para cães e gatos, a forma mais comum é pela injeção letal, que é um método químico. Esta injeção letal, na verdade, não é uma droga especificamente; existem diferentes drogas que podem ser usadas para este fim.

A eutanásia feita com agentes injetáveis SEMPRE, sem exceções, inclui o uso de algum anestésico geral. O anestésico geral usado, tal como acontece nas cirurgias, deixa o cão inconsciente e livre de dor.

Em alguns casos, como no dos barbitúricos, o que se usa é somente o anestésico, porém em doses muito mais altas do que se usaria em uma cirurgia.

Já o T-61, aplicado em injeção única, é, na verdade, um composto de três princípios ativos. Ele  inclui um poderoso anestésico geral, um anestésico local para reduzir a dor no local da injeção, e um outro agente letal. É recomendável sedar o cão antes de iniciar o procedimento.

Outra técnica muito empregada é o uso de uma combinação de anestésicos, como se faria para uma cirurgia normal, com um agente letal. Este agente letal só deve ser aplicado depois que o animal já esteja devidamente anestesiado, para que não haja sofrimento.

O Animal Sofre?

As técnicas usadas atualmente têm como principal objetivo minimizar o sofrimento. Devemos ter em mente que, quando optamos por fazer a eutanásia em um animal amado, é porque ele já estava sofrendo em primeiro lugar.

Os métodos de eutanásia usados em cães sempre envolvem o uso de uma anestesia geral com analgesia. Por isso, a princípio, ele não sente dor ou sofre durante o procedimento. É claro que ele pode ficar ansioso, ao perceber a ansiedade dos seus tutores. Mas isso não significa que os tutores não tenham todo o direito de se despedirem dos seus animaizinhos.

Não havendo maiores riscos, o tutor pode ficar ao lado do seu cão o tempo todo, se assim desejar. Estar com alguém familiar pode ajudar o animal a ficar mais tranquilo e a se sentir melhor.

Antes de presenciar uma eutanásia, porém, o tutor deve saber que, conforme o método utilizado, o cão pode ter espasmos musculares. Estes espasmos são totalmente involuntários, e não indicam dor ou sofrimento. Também é normal o cão urinar ou defecar, no momento em que os seus esfíncteres se relaxam. Isso também não é sinal de estresse, é apenas uma reação normal do organismo.

O Que Acontece Depois da Eutanásia?

Logo após a eutanásia, será preciso definir o que será feito com o corpinho do seu cão. Existem diversas opções, desde cemitérios para animais, a crematórios. Você também pode optar por enterrá-lo no seu quintal, ou, se preferir, pode deixar na clínica mesmo, que pode cobrar uma taxa por isso.

Escolha a opção com a qual se sinta mais confortável para se despedir do seu amigo. Fazer uma homenagem, uma oração, ou mesmo publicar uma foto dele podem ajudar a liberar a dor. Procure conversar com amigos que já passaram por esta experiência, e que irão compreendê-lo. Não se preocupe em ser julgado. Algumas pessoas não entendem o amor pelos animais da mesma forma que nós, e quem perde com isso são elas.

cão vendo o sol no mar

Imagem: DogsAHolic

Caso tenha dificuldade para encontrar alguém que o compreenda para compartilhar os seus sentimentos, a internet também pode ajudar. Na nossa comunidade do Facebook, por exemplo, temos muitos amigos que já passaram por isso. E, certamente, estão dispostos a oferecer um ombro amigo para ajudar.

Se o sofrimento for muito grande, você pode procurar auxílio profissional. Um psicólogo pode ajudá-lo a enfrentar o luto e a recuperar suas energias da melhor maneira possível.

Por fim, lembre-se de que, se você tiver outros bichinhos em casa, eles também precisarão da sua ajuda para superarem a perda. Mostre-se disponível para eles, e, se conseguir, procure manter a calma, para que eles também fiquem calmos.

Se estiver pensando em adotar um novo animalzinho, pode ser melhor adiar este plano até que você tenha conseguido superar o luto. Isto serve para evitar frustrações, já que o novo cão jamais substituirá aquele que partiu. Mas ele também merecerá um lugarzinho especial no seu coração, por isso, espere o seu coração estar pronto para um novo amor.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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