O Meu Cachorro Só Pode Comer Ração MESMO?

A afirmação é comum: “cachorro só pode comer ração, comida de gente faz mal para eles!”. Seja por recomendação veterinária, por conselho de amigos, ou dicas dos entendidos, a ideia de que cachorro só pode comer ração é disseminada. E qual é o fundamento disso?

Certa vez, em uma aula sobre obesidade canina, um professor me perguntou:

“O que os seus cachorros comem?”

“Só ração, professor!” Respondi, orgulhosa.

“Só ração?”

“Sim, só ração!”

“E eles gostam de sorvete?”

Esta pergunta me deixou um pouco confusa, mas respondi “Não sei, nunca dei…”.

“E de pão, eles gostam?” replicou o professor

“Aaah, disso eles gostam!”

“Então, vou refazer a minha pergunta: os seus cães comem só ração?”

hmmmmm… <barulhos de grilos…>

Pois é. Meus cachorros não comiam só ração. Tutora ruim. E o pior: veterinária ruim! Que vergonha…

Mas, não. A intenção dele não era apontar dedos, mas mostrar o quanto nós criamos alguns hábitos dos quais sequer nos damos conta. Então, o seu cachorro só come ração. E um pãozinho de vez em quando. E um bifinho por dia. Aah, e aqueles palitinhos, não dá para viver sem. Carne, só no dia do churrasco. Deu para entender?

Comida de gente ou comida de cachorro?

Aquela aula era sobre obesidade canina, e o exemplo do professor foi para ilustrar o como é difícil para os tutores (e até mesmo nós, veterinários) manterem a disciplina na alimentação dos cães (na nossa também, né? rsrsrs). Você não entende porque o seu cão está acima do peso, enquanto, inconscientemente, continua enchendo ele de petiscos. Bom, os meus cachorros comiam um pãozinho ocasional, mas não eram obesos. Quer dizer, a minha cadelinha na época tinha uma “pancinha”, mas totalmente justificada pela sua Síndrome de Cushing. Então vem a questão: é errado dar “comida de gente” para cachorros?

Imagem: Doggy Foods

Imagem: DoggyFoods.com

Bom, primeiro precisamos trabalhar um conceito importante: o que é “comida de gente”? Porque, vejamos, na natureza, animal nenhum come ração.  Conforme a espécie, os animais comem carne, frutas, vegetais, insetos, etc. Carne é “comida de gente”? fruta é “comida de gente”? se pararmos para pensar, não… é, simplesmente, “comida”. Tudo bem, pão também não tem na natureza… mas muita gente dá para o cachorro comer, isso é fato. A ração é um produto industrializado, criado por humanos, para tornar as nossas vidas mais práticas e para facilitar a nutrição animal (assim, as pessoas não precisam se preocupar em escolher ou preparar os ingredientes para alimentar os seus animais: já vem tudo calculado e pronto para consumo).

O que torna um alimento próprio ou impróprio para um cachorro não é o fato de ser “ração” ou “não-ração”, mas a qualidade deste alimento, a sua toxicidade em potencial, e a forma como foi conservado. Uma carne de qualidade, bem conservada, vai fazer mal para um cachorro só porque não é ração? se estivermos pensando num cão saudável, pelo menos, não (cães com insuficiência renal podem ter restrições quanto a isso).  Inclusive, cães são carnívoros, foram feitos para comer carne. E cebola? bom, cebola, sim, pode ser perigosa – mas não porque não é ração, e sim porque é tóxica para cães. Assim como o chocolate, o xilitol (adoçante), o alho (em grandes quantidades), entre outros. Então, este é o primeiro cuidado que devemos tomar. Não dar alimentos potencialmente tóxicos.

Buscando o equilíbrio

O segundo cuidado, é claro, se refere ao equilíbrio nutricional. Uma boa ração contém tudo o que um cão precisa, dispensa complementos. Quando se dá um petisco a ele – seja uma carne, uma fruta, ou um bifinho -, precisamos nos lembrar de que este petisco contém calorias e nutrientes, e que isso vai interferir no equilíbrio da dieta dele. Um petisco ocasional, dado com moderação, não terá grandes impactos na saúde do cão. Mas, por exemplo, se um dia você decidir dar um bife inteiro para o cachorro, lembre-se de compensar isso na quantidade de ração fornecida. Ou seja, quando fornecer petiscos, diminua um pouquinho a ração. Lembre-se, também, de que a porção deve ser proporcional ao tamanho de um animal. Uma porção pequena para um humano de 60Kg pode ser um banquete para um cão de 2 Kg! A médio prazo, este cuidado ajuda a prevenir a obesidade. Cães que comem petiscos regularmente tendem a se tornar obesos, justamente porque esta compensação não é feita.

Imagem: Doggy Foods

Imagem: DoggyFoods.com

E o que dizer do hábito de misturar “alguma coisa gostosa” na ração, para melhorar o seu consumo? algumas pessoas misturam carne, bifinhos, ou patezinho na ração, para torná-la mais apetitosa. Pode? pode, com moderação. Particularmente, entre estas opções, consideramos que a “latinha” (ou “patezinho”) seria a mais indicada, já que ela é, por si só, um tipo de ração – portanto, a sua composição já é mais ou menos equilibrada. Existem inclusive patezinhos específicos para cães com doenças cardíacas, renais, hepáticas, entre outras. Tenha em mente, entretanto, que, se a ideia é “dar sabor” à ração, uma colherada pequena (mesmo para cães grandes) é suficiente, guarde o restante na geladeira para a refeição seguinte. Misturar uma lata inteira de patezinho na ração só vai fazer com que o seu cão engorde. O uso de bifinhos picados, ou mesmo carne, misturados na ração, pode ser feito esporadicamente e com moderação, desde que o seu cão não tenha restrições alimentares e que seja feita a devida compensação na quantidade de ração.

Mas, preste atenção: não estamos dizendo que você pode trocar um prato de ração por um pacote de bifinho – os bifinhos são petiscos, e devem ser tratados como tal. É a mesma coisa que trocar um almoço por uma barra de chocolate. Talvez você consiga compensar as calorias, mas, nutricionalmente falando, não é uma boa troca. Mas, e um prato de ração por um prato de arroz com carne? se for algo ocasional, não vai fazer mal ao cão, mas se quiser trocar definitivamente a ração por comida caseira, procure orientação nutricional junto ao seu médico veterinário.

Deixando a ração de lado…

A dieta caseira para cães é uma excelente opção, principalmente para animais com alergias ou restrições alimentares, ou paladares mais exigentes. Existem diversas variações,  desde dietas cruas com ou sem ossos, a dietas cozidas. É possível excluir completamente os grãos da alimentação do cão, ou é possível mantê-los, conforme a orientação do nutricionista veterinário. Enfatizamos bastante a questão da orientação nutricional, porque dar alimentação caseira para um cachorro não é a mesma coisa que “dar resto de comida”. Os cães têm necessidades nutricionais diferentes das nossas, e, ainda que a sua família tenha hábitos alimentares saudáveis, é preciso compreender que uma boa alimentação para humanos é diferente de uma boa alimentação para cães. Isso quer dizer, de forma mais direta, que você vai precisar cozinhar para o seu cachorro. Se você tiver o tempo e a disposição, ótimo; mas, se for muito difícil fazer isso, é melhor continuar com a ração, e fazer um agradinho ocasionalmente, respeitando as restrições alimentares que o seu cão possa ter. Preferimos não ser radicais, e compreender que, conforme o estilo de vida de cada tutor, pode-se optar pela ração ou pela alimentação caseira, desde que os alimentos (industrializados ou não) sejam de qualidade.

O “pãozinho nosso de cada dia”

Evite criar o hábito de dar petiscos diariamente, o ideal é que eles sejam algo “especial”, diferente. Uma recompensa por um bom comportamento, por um comando obedecido, e não a sua única forma de demonstrar amor pelo seu cão. Acredite, ele vai continuar te amando mesmo sem ganhar petiscos.

Os melhores petiscos para todos os cães são frutas e legumes. São  saudáveis, pouco calóricos, têm vitaminas, e são muito bem aceitos pela maioria dos cães. E, veja só: pelo conceito que a maioria das pessoas tem, frutas são “comida de gente”, enquanto bifinhos, por exemplo são “comida de cachorro” … Mas justo as frutas (comida de gente) são muito mais recomendáveis como petiscos do que os bifinhos (comida de cachorro) – só tome cuidado com as uvas e passas, elas são tóxicas para cães!

Se o seu cão for obeso, além de dispensar os petiscos mais “gordinhos” – ou dispensar todos os petiscos de vez -, procure  o seu médico veterinário para criar um plano de emagrecimento para o seu cão, para que ele possa perder peso de forma saudável e gradual.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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