O seu cão está muito velho para tratar câncer?

A descoberta de um câncer nos anos finais da vida de um cão pode causar vários dilemas para os seus tutores. O medo da perda é grande, mas, ao mesmo tempo, muitos perguntam-se: vale a pena tratar?

Tratar um câncer, como se sabe, geralmente envolve uma terapia agressiva que pode ter efeitos adversos importantes. E que também pode custar caro, tanto financeira quanto emocionalmente.  A maioria dos cânceres em animais são descobertos quando os eles já estão idosos, por isso esta dúvida é particularmente comum.

Cão idoso com tumor facial

Cão com tumor facial. Imagem: Tony Alter em Wikimedia

A expectativa de vida de um cão é muito variável, e depende de diversos fatores, como por exemplo o tamanho do animal, a raça, o tipo de alimentação e as condições em que é mantido. Ainda que cães de raças gigantes raramente passem de 12 anos, os menores podem chegar a 20! Recentemente, inclusive, houve o caso de uma cadela que faleceu aos 30 anos de idade. É claro, esta é a exceção e não a regra. Mas, para um cão de pequeno ou médio porte, uma expectativa de vida de 15 anos é bem realista.

Então, o cão tem 10 anos quando se descobre um câncer… estaria ele muito velho para ser tratado? se pensarmos num cão médio ou pequeno, é possível que este animal, se devidamente tratado, ainda teria mais 5 anos de vida – ou seja, 1/3 de toda a sua vida pela frente. Para um cão maior, talvez mais dois anos, o que seria aproximadamente 1/6 da sua vida. Mas e se ele já for mais velho? se tiver 14 anos? o que fazer?

Bom, a primeira coisa que devemos fazer é ter uma avaliação bem realista do animal. Apesar de termos mencionado expectativas de vida, a verdade é que estamos falando de médias – e médias nem sempre refletem a realidade. Aos 14 anos, o seu cão pode ser um dos “sortudos” que ainda terá mais 6 ou 7 anos pela frente, se devidamente tratado; ou ele pode já estar realmente no final da sua vidinha. Então, não pense em médias, esqueça os números, e pense no SEU animal:

  • Como está a saúde dele, no geral?
  • Ele se alimenta bem?
  • Os exames de sangue estão bons?
  • Ele tem outras doenças concomitantes?
  • E o câncer, está em estágio inicial? ou já se espalhou?
  • O animal sente algum tipo de dor ou desconforto?

Pode ser que, apesar do câncer, o seu cão ainda esteja relativamente saudável – o que é um bom indicativo de que ele poderia se beneficiar do tratamento, com aumento da expectativa de vida e do bem estar. Um câncer em estágio inicial também tem maiores chances de ser tratado com sucesso. E, por fim, há que se pensar também no conforto do animal – pode ser que o cão já esteja debilitado por outros motivos, mas o câncer esteja lhe causando dor e sofrimento.

Tal como para humanos, os diferentes tipos de câncer podem ser tratados com cirurgia, quimioterapia, ou radioterapia, geralmente em clínicas especializadas. Diferente de humanos, porém, os efeitos adversos tendem a ser menos dramáticos, e a terapia em si não é tão devastadora para o paciente. Efeitos como enjoos e queda dos pelos não acontecem com tanta frequência e, quando ocorrem, são mais brandos. Em relação à cirurgia – recomendada em boa parte dos casos -, será preciso avaliar se o cão está ou não apto a ser operado. Mas esta avaliação também não deve ser feita com base em um número – a idade do cão -, mas na sua saúde como um todo (saiba mais).

Diante disso, consideramos que, regra geral, submeter o cão ao tratamento de câncer não é algo que vá causar grande sofrimento ao animal, e pode ter benefícios a médio ou longo prazo, como a melhora da qualidade de vida, e até a remissão da doença. Ninguém se submete – ou submete o seu animal – à quimioterapia apenas para sofrer com efeitos adversos, certo?

Mas sabemos, há casos em que o cão já está muito fraco, e pouco se beneficiará com o tratamento – seja porque o câncer já está muito avançado, ou porque ele tem outras doenças que provavelmente o afetarão mais rapidamente do que o próprio câncer. E, sendo bem realistas, sabemos também que há casos em que o animal até se beneficiaria do tratamento – e o tutor gostaria de tratá-lo, mas simplesmente não dispõe dos recursos financeiros necessários.

Em situações assim, podemos recorrer aos cuidados paliativos, que têm como único objetivo aumentar o conforto do paciente e amenizar o seu sofrimento. E, se a hora chegar em que o tutor considere que a qualidade de vida do cão já está inaceitável, a eutanásia pode ser uma saída possível.

É lógico que nenhum tutor que ama o seu cão quer submetê-lo à eutanásia, e há pessoas que consideram-na inadmissível em qualquer hipótese. Não se force a fazer ou deixar de fazer a eutanásia só porque outra pessoa assim lhe disse. Esta é, de longe, uma das mais difíceis decisões que um tutor pode precisar tomar, e requer muito cuidado. Se estiver cogitando esta possibilidade, recomendamos que leia o nosso artigo sobre o assunto.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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