Comer Cocô ? Eca!

Alguns cachorros têm o estranho hábito de comerem as suas próprias fezes, ou as fezes de outros animais. Vamos entender por que isso acontece, e como resolver o problema?

O Que É A Coprofagia E Por Que Acontece

Coprofagia é o nome científico dado ao hábito de ingerir fezes. Pode parecer nojento para nós, humanos, pois as fezes nos causam asco. Mas, para os cães, não é bem assim. Eles não só não acham nojento, como podem achar… digamos, delicioso! Acredita-se que isso seja parte de uma adaptação evolutiva, para permitir a sobrevivência em períodos em que haja pouco alimento disponível. Assim, na falta de algo melhor, as fezes – próprias ou de outros animais – podem se tornar fontes de nutrientes.

Atualmente, porém, com os cães vivendo dentro das nossas casas e sendo alimentados regularmente, seria de se esperar que a coprofagia não acontecesse. Mas acontece, e por diversos motivos. Veja a seguir algumas das causas mais comuns para que certos cães adquiram este estranho hábito.

1. Mães com filhotes

É a causa mais natural, sendo considerado absolutamente normal e esperado que uma cadela coma as fezes dos seus filhotes. Na verdade, é considerado estranho uma cadela não fazer isso. Este comportamento serve para manter o ninho limpo, e também para evitar que o cheiro atraia predadores. Normalmente, a fêmea faz isso durante as primeiras três semanas de vida dos filhotes.

As cadelas comem as fezes dos filhotes nas primeiras semanas de vida.
Imagem: I Heart Dogs

2. Filhotes

Filhotes são seres muito curiosos, e passam o tempo todo explorando o mundo à sua volta. Tal como acontece com os “filhotes humanos”, uma das formas que os filhotes de cães têm de aprenderem sobre o mundo é levando coisas à boca – não necessariamente alimentos. Desta forma, apesar de não ser um comportamento desejável, é bem comum que filhotes entre os 4 e 10 meses de idade comam fezes. Na maioria dos casos, este hábito simplesmente desaparece quando eles amadurecem, em torno de 1 ano de idade, mas alguns podem “tomar gosto pela coisa” e continuarem com a coprofagia.

3. Fome

A princípio, partimos do pressuposto que os nossos cães estão bem alimentados… Mas um cão de rua ou recém-resgatado, por exemplo, pode estar sentindo muita fome. Da mesma forma, um animal que esteja se recuperando de uma doença que o deixou debilitado também pode estar precisando repor as energias. Se o cão come todo o seu alimento e continua cheirando o pratinho, por exemplo, ou se começa a revirar latas de lixo entre as refeições, é possível que ele precise receber mais comida. Em alguns casos, fornecer uma alimentação mais reforçada pode bastar para resolver o problema da coprofagia.

4. Deficiência nutricional

A partir daqui, a coprofagia deixa de ser simplesmente um hábito estranho ou desagradável, e passa a ser considerado um sinal de que o cão possui um problema de saúde. Conforme o tipo de dieta, o nível de atividade do cão, a sua raça, idade, tamanho, e mesmo doenças que ele porventura tenha, é possível que ele precise receber alguma suplementação nutricional. Se o seu cão come as próprias fezes ou as de outros animais, esta é uma hipótese a ser investigada. Uma simples alteração na dieta, ou uma suplementação diária, podem resolver o problema.

5. Verminoses

A presença de vermes intestinais pode afetar o cão de diversas maneiras, e uma delas é impedindo uma boa digestão dos alimentos e absorção dos nutrientes. Desta forma, mesmo que esteja se alimentando aparentemente bem, o cão pode começar a emagrecer, ou até mesmo ficar desnutrido. Se não houver mais alimento disponível, ele naturalmente irá procurar novas fontes de nutrientes, como lixo e fezes. Um exame de fezes simples pode revelar se o seu cão possui vermes intestinais, e indicar qual o medicamento mais indicado para tratar o problema. Uma vez que os vermes tenham sido eliminados, a alimentação do cão pode precisar ser reforçada temporariamente até que ele consiga se recuperar, caso tenha emagrecido ou ficado debilitado.

6. Má Digestão

A digestão de um cão pode ficar prejudicada por diversos motivos. Um deles, por exemplo, é a Insuficiência Pancreática Exócrina (EPA), uma doença em que o pâncreas não produz enzimas digestivas em quantidade suficiente para digerir os alimentos. O cão também pode sofrer com a deficiência  de outras enzimas digestivas, como aquelas produzidas pelo fígado, ou até mesmo com a falta de ácido clorídrico no estômago. Problemas intestinais, como sequelas de diarreias graves, também podem impedir uma boa digestão.

A má digestão tem um efeito duplo: de um lado, o cão pode sentir mais fome, e a necessidade de buscar fontes de alimento alternativas (como o lixo ou as fezes). Por outro lado, os alimentos podem sair nas fezes com odor muito parecido com o “original”, justamente por não terem sido bem digeridos. Assim, as fezes lhes parecem mais “apetitosas” do que habitualmente pareceriam.

As diversas causas possíveis de má digestão podem ser investigadas com exames de fezes, de sangue, e até mesmo por imagens (ultrassonografia). Uma vez identificado o problema, deve ser feito o tratamento específico para aquela doença que foi detectada.

7. Dieta Rica em Carboidratos

Boa parte das rações é formulada com uma grande quantidade de grãos e carboidratos, apesar de os cães serem carnívoros. O intestino não consegue absorver totalmente estes carboidratos, fazendo com que o cão elimine um volume maior de fezes – fezes estas ricas em carboidratos. Estas fezes se tornam atrativas para o cão, por serem “saborosas” e divertidas de brincar. Uma correção na dieta, seja trocando por uma ração mais adequada, ou por uma dieta caseira apropriada para a espécie, pode solucionar o problema.

8. Doenças Hormonais: Diabetes, Síndrome de Cushing, etc.

Doenças que aumentem o apetite do cão mesmo quando ele está bem nutrido, fazem com que o animal busque novas fontes de alimento. Assim, um cachorro que sofra com diabetes ou Síndrome de Cushing, por exemplo, é especialmente propenso a comer lixo e fezes. A doença deve ser identificada e tratada.

9. Para Chamar a Atenção

Alguns cães podem se sentir “abandonados” pelos seus tutores, seja porque passam muito tempo sozinhos em casa, seja porque, mesmo estando em casa, os tutores não interagem muito com eles. Para solucionar este problema, os cães podem buscar maneiras de chamar a atenção dos seus tutores e conseguir algum tipo de interação, mesmo que seja para levar uma bronca. É importante, nestes casos, que o tutor procure interagir mais com o animal de formas mais positivas e produtivas: ele pode, por exemplo, incluir um passeio na sua rotina diária, assim como brincadeiras, e até mesmo pequenas sessões de carinhos e afagos.

10. Para “Esconder as Evidências”

Cães que tenham sido punidos severamente durante o seu treinamento de “banheiro” podem ficar com medo das possíveis reações que seus tutores possam ter caso encontrem as suas fezes em algum lugar. Isso pode acontecer mesmo que o cão esteja fazendo as necessidades no lugar certo, pois ele pode associar a punição não ao lugar errado, mas sim ao simples ato de defecar. Desta forma, ao comer as próprias fezes, o cão acredita estar se livrando de uma possível punição. Brigar com um cão que esteja com este tipo de comportamento é contraproducente, pois, para não correr o risco de ser “flagrado”, ele pode passar a comer as fezes imediatamente após defecar, aumentando o problema e diminuindo as chances de correção.

11. Imitação

Cães são animais sociais, e tendem a se comportar conforme as regras do grupo. Se um dos cães da casa come fezes habitualmente, é possível que o(s) outro(s) animal(is) da casa passe(m) a imitá-lo. Seja rápido para identificar a causa da coprofagia do “infrator inicial” e corrigi-la, antes que os outros cães comecem a comer fezes também, ou você terá o problema multiplicado.

Apesar de ser menos comum, alguns cães podem adquirir também este comportamento para tentar imitar ou ajudar os seus humanos na tarefa da limpeza. Cães de apartamento, principalmente, por observarem os seus tutores recolhendo as fezes frequentemente, podem decidir “dar uma mãozinha”. Neste caso, o melhor é fazer a limpeza longe dos olhos do cão.

Alguns cães podem comer as fezes para imitar o comportamento dos seus companheiros caninos, ou mesmo dos seus tutores.
Imagem:Pet Bucket

12. Apreciar o Sabor

Os cães não têm um paladar lá muito exigente, e alguns podem realmente apreciar o sabor das fezes. Eles podem comer as fezes pela primeira vez por curiosidade, por uma “fominha passageira”, ou, ainda, na fase de filhote, e acabar “tomando gosto” pela iguaria. Pode ser difícil quebrar este hábito, já que, tal como no caso de cães que mexem no lixo, o comportamento se torna auto-recompensante: é divertido e delicioso! No final do artigo, falarei um pouco mais sobre isso.

As fezes de gatos são especialmente apreciadas pelos cães, por serem ricas em proteínas. As fezes de animais ungulados (cavalos, bovinos) também são consideradas atrativas, sendo ricas em microorganismos que ajudam na digestão e em nutrientes.

13. Confinamento

Cães não gostam de viver em lugares sujos, nem de dormir próximos às suas fezes e urina. Por isso, cães que passam longos períodos do dia presos, ou que vivem confinados, têm uma tendência maior a comerem as próprias fezes. É uma forma de manter o ambiente onde vivem um pouco mais limpo. Filhotes provenientes de “fábricas de filhotes” são especialmente propensos à coprofagia, justamente por este motivo.

Cães mantidos presos ou provenientes de fábricas de filhotes são mais propensos à coprofagia.
Imagem:Rádio Verdes Mares

14. Tédio e Estresse

Na falta do que fazer, os cães podem ser criativos. Comer e brincar com as fezes pode ser uma forma de passar o tempo e aliviar o estresse. Um cão pode ficar estressado ou entediado por inúmeros motivos, que variam desde a falta de exercícios adequados, ansiedade de separação, e até mesmo maus tratos. Este é mais um fator que faz com que os cães provenientes de “fábricas de filhotes“, e também aqueles que passam muito tempo presos, sejam mais propensos do que os outros à coprofagia.

Comer cocô faz mal para o meu cachorro?

A princípio, se um cão comer as próprias fezes “frescas”, ele não irá adoecer por causa disso. O risco é maior se as fezes ficarem muito tempo expostas no ambiente, e, assim, sujeitas à contaminação e decomposição. Já se ele comer as fezes de outros animais, pode pegar verminoses e infecções destes, e, aí sim, poderá ficar doente.

Mas, mesmo que o ato de comer fezes não trouxesse qualquer risco à saúde do cão, devemos nos lembrar de que a coprofagia com frequência é sinal de que algo não vem bem. Este algo pode ser a dieta do cão, uma doença que ele tenha, ou mesmo a forma como ele é tratado. Por isso, é sempre importante ver a coprofagia como um problema que merece atenção.

Dicas para lidar com o problema

Antes de começar qualquer tipo de tratamento “comportamental”, leve o seu cão ao veterinário e verifique se ele tem algum problema de saúde, como os já citados acima. Uma boa ideia é começar fazendo uma avaliação da dieta dele, e um exame de fezes para saber se ele tem uma verminose ou problemas de absorção.

Há casos em que uma mudança na dieta ou uma simples suplementação nutricional podem resolver o problema. Pergunte ao seu médico veterinário se o seu cão poderia se beneficiar do uso de suplementos, e, se for o caso, qual o mais indicado para ele. Não use suplementos por conta própria sem a indicação do seu médico veterinário, eles não são tão inócuos quanto parecem.

Exercite o seu cão regularmente, e procure também brincar com ele todos os dias. Apenas 5 a 10 minutos de brincadeiras diárias já podem trazer resultados surpreendentes. Um cão que esteja bem exercitado, e que receba atenção do seu tutor tem menos problemas de tédio, estresse, e ansiedade de separação, e, assim, diminui a chance de que ele se interesse por comer fezes para “se aliviar”.

Aconteça o que acontecer, evite punições físicas, e não brigue com o cão se flagrá-lo no ato. Ao invés disso, corrija o comportamento dizendo um “não” firme e redirecionando a atenção dele para outra coisa. As punições físicas apenas tornam o cão mais ansioso e propenso à coprofagia. Além do mais, como já mencionamos acima, ele pode se sentir tentado a “esconder as evidências” do seu ato, comendo as fezes imediatamente após defecar. Isso pode tornar o hábito bem mais difícil de quebrar.

Outra coisa importante é manter o ambiente do seu cão sempre limpo. Assim, ele não terá a “preocupação” de “limpar” o local, e também terá menos oportunidades de comer as fezes, simplesmente porque elas não estarão lá para serem comidas. Recolha sempre as fezes o quanto antes possível, diminuindo assim a probabilidade de serem vistas como petiscos.

As fezes de outros animais, especialmente as de gatos, também podem ser consideradas atrativas para os cães. Se você tem gatos em casa, mantenha também a caixa de areia sempre limpa.

Existem medicamentos que podem ser dados ao cão com a finalidade específica de tornar as fezes “menos saborosas”. Esta é uma tática que pode ser tentada, embora a sua eficácia não seja garantida. Algumas pessoas costumam colocar temperos, como pimentas e outros produtos de sabor forte ou desagradável, para que o cão passe a sentir repulsa pelas fezes. É preciso tomar cuidado com este tipo de coisa por três motivos: primeiro, porque o produto utilizado deve ser comestível e seguro para cães, para que não haja o risco de intoxicá-lo. Segundo, o cachorro pode gostar. E, terceiro, se você não conseguir ser rápido o suficiente para “temperar” todas as fezes do cão, ele pode perceber como uma “loteria”: algumas fezes são apetitosas, e outras, não. É preciso experimentar todas para acertar! Se for para perseguir fezes com um frasco de pimenta, é melhor simplesmente recolhê-las e jogar fora.

Por fim, existem algumas técnicas de adestramento positivo que podem ajudar a minimizar a coprofagia. Lembre-se de que o ato de comer fezes é “auto-recompensante”, de modo que, independentemente do seu motivo inicial, o hábito pode ser bem difícil de ser quebrado. Procure um adestrador se sentir que precisa de ajuda.

Autora: Bárbara Gomiero

Formada em Medicina Veterinária pela UFPR em 2006, especialista em Clínica de Pequenos Animais. Apaixonada por cães, tem um amor especial pelos cães idosos, e trabalha para levar conhecimento e informação aos seus tutores, para que esses sejam capazes de proporcionar uma excelente qualidade de vida nessa fase tão delicada de seus cãezinhos.

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